Visita envergonhada

Cardeal Arcoverde, Pinheiros/Eduardo Aguiar

1

Cronista em cidade dos outros é visita envergonhada, pra tudo pede licença.

 

2

Ainda não sou íntimo de Pinheiros, e me limito a andar pela Pedroso de Morais, pra cima e pra baixo, atrás de quem me autorize a olhar o bairro. Antes de escrever sobre uma rua, é bom ler no calçamento a história de suas pedras. Calcular a idade do asfalto, a saúde dos fios de luz. No fim, a gente pega o jeito, e extrai de cada poste uma notícia das nossas sombras.

 

3

A figuração em Pinheiros é abundante, mas não demoro a escalar uma protagonista. Aqui está, é linda. Paro debaixo dela, olho pro alto e deixo que a escolhida escureça meu rosto com sua grandeza. É uma falsa-seringueira, deve ter mais ou menos quarenta anos, assim como eu. Aposto que já se acostumou à injustiça dos homens: tristeza chamar de falsa uma criatura assim, tão escandalosa e indiferente. Quem poderá dizer que conheceu as intenções duma planta?

 

4

Sua copa é uma noite portátil na tarde de São Paulo.

 

5

Dos galhos desta árvore descem raízes aéreas, uma fina cabeleira castanha. Ela se precipita no nada, balança ao vento, no suave desespero de alcançar o chão. Os galhos da falsa-seringueira sofrem de saudade e vertigem, até parecem gente louca, descabelada de esperança, quem mandou subirem tanto?

 

6

Mas não, esses cipós não agarram coisa alguma, e nem são cipós de verdade, apenas se lançam lá de cima, no máximo roçam a terra arisca, já saturada de outras madeiras. A cabeleira castanha da árvore forma uma cortina bonita, mas inútil: atrás dela nenhum espetáculo à nossa espera. Nada acontece. E mesmo assim a gente aguarda.

 

7

É agradável debaixo da falsa-seringueira, a sombra é boa. O dia não está quente, mas o sol de inverno incomoda, melhor ficar aqui, já estou suando. Tiro o paletó, vim a trabalho, não posso esquecer, tenho meus horários, as reuniões marcadas. De repente, um pedido de licença: é um carroceiro atarefado, sem camisa, que quer passar. No peito do homem, um crucifixo de plástico. De certo modo ele é também um rebocador de mortos, vai encaminhando à reciclagem a sua montanha de refugos condenados. Hoje em dia até o lixo ressuscita.

 

8

O carrinho deste homem é um carrinho comum, e avança em marcha lenta, a calçada não ajuda. Especial mesmo é a carga que ele transporta. Decerto limpou a lixeira duma grande fábrica de disfarces. O veículo vem carregado de retalhos de fantasias e máscaras, em isopor e espuma, pena e lantejoula. Anjo de luz, dragão descamado, urso sarnento, cabeça de sapo.

 

9

No meio de tudo aquilo, o destaque. A estrela sem brilho da carroça alegórica. A triste mulher vestida de gata. Com orelhinhas, rabo torto e gravata-borboleta, tudo em preto e branco. Está sentada de lado sobre as pernas magras, numa pose de rocha e derrota. Ela se fantasiou de gatinha, mas é uma péssima atriz, não convence. Ou vai ver já nem sabe o que é um gato: em seu rosto, em seu corpo, não se vê sinal de felinidade. Passam por mim, ele e ela, o vagão e a locomotiva, como o vento pela copa da falsa-seringueira. Viram à direita na Navarro e somem. Sigo na direção oposta, até o meu hotel, na esquina da Artur Azevedo. Tenho compromissos, é preciso estar preparado. E sumo.

 

10

O tempo que perdemos temperando a água do banho nos hotéis. É exasperante. Ora muito quente, ora muito fria. As torneiras não nos obedecem, e são tão caprichosas as letras Q e F. Me forço a imaginar novas palavras pra essas mesmas iniciais, novos líquidos pra velhas torneiras, e é assim que exercito minha paciência. Ó céus, o tempo que perdemos, nus e com frio, temperando a água do banho nos hotéis.

 

11

Estou num bom quarto. Bom, mas baixo, no primeiro andar. O trânsito na Artur Azevedo, à noite, às vezes me desperta, mas me acostumo rápido, logo estou dormindo de novo, minha alma anda mais leve que de costume, o cansaço de hoje maior que os incômodos de amanhã. A isso há quem chame de felicidade.

 

Choro

Imagem: Eduardo Aguiar

 

12

De madrugada, acordo com um barulho diferente, um choro de criança, um gemido enjoado, não sei. Levanto e vou à janela verificar a movimentação na esquina. Em frente à portinha da Deus É Amor, vejo a carroça de puxar papel. É a mesma que vi horas antes. E dentro dela, o mesmo casal que encontrei à tarde, debaixo da grande árvore. Agora estão engatados um no outro, e ronronam, e miam, e eriçam o pelo das costas e do rabo enquanto afundam, devagar e ruidosamente, em sua cama de entulho colorido. Transplantada pra debaixo da minha janela, a falsa-seringueira da Pedroso de Morais vela pelo amor dos gatos.

 

13

Acordo e, ainda bem, o sonho é interrompido. Só que aí me vem a dúvida. Sabemos exatamente quando os sonhos acabam. Mas quando começam? Antes ou depois de irmos pra cama?

 

14

Deus é o amor dos gatos.

 

 

 

 

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