crônicas

O sabiá voltou

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Ilustra: Simon Ducroquet

Já falei aqui sobre a Maisa Schmitz, excelente professora de Balneário Camboriú, que, junto com o escritor e editor Daniel Rosa dos Santos, criou uma série de 27 livrinhos artesanais — só de crônicas — escritos, editados e confeccionados por 27 crianças de 9 ou 10 anos. Parte desse belo trabalho vocês podem ler neste meu outro post, Pequenos cronistas.

Agora a Maisa me escreveu para contar o seguinte. Ela leu e debateu, com seus alunos, uma crônica que publiquei recentemente na Gazeta do Povo, “Sabiá de guerra”, e, depois de muita leitura e conversa, propôs à turma que escrevesse uma continuação para ela. O resultado segue abaixo. Nem preciso dizer que as hipóteses infantis para a questão levantada no meu texto me emocionaram, e bastante.

Para quem quiser entender a história toda, republico, primeiro, a minha crônica. E, depois dela, as 20 sequências criadas pelos alunos da Maisa.

 

SABIÁ DE GUERRA

(crônica publicada na Gazeta do Povo, no dia 22 de junho de 2014)

Era tão comum menino matar passarinho. Hoje vocês vão dizer que não, mas era. Entre meninos e passarinhos parecia haver certa atração ancestral, uma inveja recíproca, uma dor que vinha de longe e com tanta força que não podia ser relevada. Não sei, era como se disputassem um mesmo trono na natureza, a criança e a ave, o canto de um sabiá pela manhã lembrando um chamado de guerra, uma convocação ao combate. Os meninos o ouviam e já saltavam apanhar a setra, botar no ombro a espingarda de pressão, os chumbinhos esquentando no bolso. Corriam sondar a arapuca armada na tarde de ontem, aquele pequeno prisioneiro na neblina. O que fazer com ele, soltá-lo ou submetê-lo? Não, os meninos não tinham o céu, mas decidiam que destino dar aos pássaros.

Hoje vocês vão dizer que não, e realmente as coisas mudaram, o convívio entre crianças e passarinhos se tornou raro, são mínimas as chances de confronto. Por isso me espantei ao encontrar, semana passada, na Pracinha do Amor, um menino debruçado sobre o cadáver de um laranjeira. Já tinha visto o piá por ali antes, andando de bicicleta ou jogando bola sozinho, praticando embaixadas, driblando uma zaga de vento. Devia ter dez anos, não mais que isso e, quando nos cruzamos, sustentamos o olhar por uns quatro, cinco segundos, uma eternidade para a concentração infantil. Eu estava curioso e ele, logo vi, ansioso para falar comigo, revelar algum prodígio.

Oi, eu o cumprimentei, e ele me respondeu, circunspecto, oi. Era óbvio que vivia um momento solene, e fazia questão de demonstrá-lo, era fácil ler em seu rosto o respeito que sentia pela morte estendida diante de nós.

Perguntei o que tinha acontecido com o passarinho e, sem rodeios, ele falou: “Morreu”. Fiquei quieto, e me mantive assim por um bom tempo, na esperança de que ele me explicasse como e por que o bicho havia morrido. Queria que me apontasse um culpado, me contasse a história de um crime, pois aquele também parecia ser o seu desejo. O menino entendeu o meu silêncio e as minhas intenções, mas tudo que disse foi: “Não fui eu”.

Continuei na minha, embora tivesse mais perguntas engatilhadas. Por exemplo, o que o menino planejava fazer com o sabiá, enterrá-lo? Ele me ouviu sem olhar para mim. Puxou do bolso uma fita vermelha, bem fina e cacheada, dessas de enfeitar presente. Com a fita, enlaçou uma das pernas do animal. Enquanto dava o nó, com delicadeza, respondeu: “Não, não vou enterrar”. Levantou-se, limpou a calça gasta, o pó dos joelhos, apanhou o sabiá amolecido, aquele pescoço pendurado e tão triste, e o escondeu dentro da jaqueta de náilon. Depois assoprou a penugem presa entre seus dedos e anunciou, muito sério e seguro: “Vou pra casa, ressuscitar esse passarinho”.

Consegui disfarçar a minha surpresa, mas não a minha incredulidade. Quis saber como ele faria aquilo. É segredo, rebateu o menino. Mas me pediu atenção: se nos próximos dias eu avistasse algum sabiá laranjeira voando pelo Centro de Curitiba, com uma fita vermelha na perna, eu saberia que o procedimento havia dado certo.

Não sei se funcionou, e repasso a vocês a minha expectativa. Duvidei dos poderes do menino, confesso, mas isso não significa que eu não esteja torcendo por ele. É um milagre que espero sem ansiedade, sem fé, sem preocupação. Mas com sinceridade. E torço para que, na madrugada de amanhã, ou depois, ou ainda mais tarde, daqui a mil anos, tanto faz, aquele mesmo sabiá me acorde no meio da noite, com o seu doce canto de guerra, sua voz de flauta prenunciando novas luzes e lutas, num mundo onde os meninos ressuscitam passarinhos.

sabiá benett

Ilustra: Benett

 

MAS O QUE ACONTECEU COM O SABIÁ? 

Hipóteses levantadas por 20 crianças

 

1

Tecnicamente é impossível, mas talvez o passarinho estivesse vivo, só nocauteado, e o menino, depois de tê-lo alimentado, conseguiu acordá-lo…

Então, no outro dia ele o soltou com a fita no pé e o Luís o viu: estava voando feliz pela cidade afora, vivendo contente. E o menino, alegre, continuou a brincar.

 

2

O sabiá sobreviveu. Viveu muitos anos com a fita na sua perna. O menino devolveu a vida do coitadinho.

 

3

O menino levou-o para casa, pegou o desfibrilador e reviveu o pássaro, o pobre coitado!

E o menino ficou muito feliz e viveu muito tempo com seu pássaro. Mas um dia o pássaro morreu. E era seu melhor amigo… Ainda bem que antes, o menino tinha levado o passarinho para sua casinha, para descansar. Agora estava em paz com sua família, no céu.

O menino viveu feliz até o último dia de sua vida.

 

4

O menino levou o sabiá para casa e disse:

— Mãe, tem alguma coisa para ressuscitar esse sabiá?

A mãe disse:

— Filho, eu acho que não dá para ressuscitar. Pergunta para seu pai.

O pai disse:

— Filho, a gente pode levar para o veterinário, para ver o que ele pode fazer para ajudar esse sabiá.

Os pais e o filho levaram para a veterinária, a doutora Alexandra. Passou uma hora. Ele ficou mais nervoso. Passou outra hora ele ficou ainda mais nervoso.

Daí, chegou a doutora Alexandra. Ela disse:

— Você pode levá-lo ainda hoje!

O menino disse:

— Obrigado, doutora!

Daí, o Luis Pellanda viu aquele sabiá com a fita vermelha…

 

5

Ele levou o sabiá ferido para o hospital. O veterinário disse que ele estava bem machucado, mas tinha pulso. E deu uma coisa boa para ele beber. Depois, ele melhorou. Só que ficou um pouco sujo.

Depois, o menino foi até o lugar onde o havia encontrado e disse:

— Pronto! Agora você está livre!

 

6

O menino Evandro levou o sabiá para casa. Ele esperava uma noite com vários raios para subir no telhado, fazer o pássaro tomar um e ressuscitar depois.

A noite chegou e os raios também. Ele levantou o pássaro, que tomou um raio. Então, o Evandro viu que o pássaro estava se debatendo. Estava vivo!

 

7

Quando o menino chegou em casa, levou o sabiá diretamente para o quarto. E lá o menino fez um ritual para reviver seres vivos. Quando o menino terminou o ritual, soltou o sabiá na natureza.

Daí, o Luís, que estava andando pelas ruas, avistou um sabiá com uma fita vermelha e viu que era o sabiá que tinha morrido. O Luís não pôde acreditar que o menino tinha conseguido reviver o sabiá!!!!!!!

        

8

Quando o menino levou o sabiá pra casa, chamou a benzedeira pra ajudá-lo. Ela benzeu e o sabiá reviveu.

O menino resolveu ficar com ele, pediu para a mãe e ela deixou. Não tinha gaiola e o menino foi comprar uma. Comprou uma gaiola de prata. Voltou para casa. Depois mostrou o pássaro para o cronista.

E todos viveram felizes para sempre!

 

9

O menino levou o pássaro para a casa dele. E ressuscitou o pássaro. Depois levou-o para uma prisão, sem motivo. O pássaro fugiu. Ele era forte, pegou o menino e levou-o para bem longe e falou:

— Rouba a Dilma, que te libero, seu… Vai lá, seu coiso! Tem que roubar 1 bilhão! Daí eu te libero! Agora vai lá, vai!

O menino entra no banco, explode o caixa, rouba a grana e sai fugindo dos policiais. Dança funk, depois vai até o pássaro e dá a grana e fala:

— Quero ir para casa agora. Mas antes vou mostrar um truque que aprendi… explodir!!! Bummmm!

O pássaro morreu.

O menino volta para casa. Pega um avião. Está com a grana toda… Mas o avião cai e ele vira um The Forest. Fica locão, mata os canibais, dá tiro neles.

 

10

O passarinho não ressuscitou. Só o espírito dele ficou voando pelo ar… O menino tentou de tudo e não funcionou. Ficou triste e enterrou-o no jardim.

                        

11

O sabiá morreu de acidente. O menino levou no médico, mas não adiantou.

 

12

O menino levou o sabiá para a sua casa, mas o que ninguém sabia é que sua família participava de uma facção criminosa ligada ao tráfico de sabiás.

Ele usou magia negra para ressuscitar o sabiá, mas a polícia descobriu isto! E pediu para evacuar a casa onde estava o sabiá, já ressuscitado. Os bombeiros encontraram o sabiá cheio de maus tratos: sem asas, sem patas. Eles o soltaram no parque e o homem encontrou-o. Não sabia o que tinha acontecido, mas ficou feliz em ver o pássaro!!!!!!!!!

 

13

Primeiro ele catou vela e poeira. Chegou em casa e foi para o quarto com o pássaro. Colocou o pó, acendeu as velas e começou a macumba da cura. A mãe estava com ele, desesperada. Mas o menino curou o pássaro, que reviveu e tudo voltou ao normal na vida do pássaro e de todos.

 

14

Eu acho que o passarinho ressuscitou. O menino levou o passarinho ao veterinário e falou:

— Eu quero saber o que aconteceu com ele, doutor!

O veterinário falou:

— Ele está vivo, mas está em coma. Então ele levou o passarinho para casa e fez uma cama, cuidou dele.

 

15

O menino levou o passarinho para casa, escondeu-o num lugar e foi perguntar e pedir, a um bruxo, para reviver o pobre passarinho. Depois ele foi pegar o passarinho e levou-o para o bruxo.

Alguns dias depois, o bruxo trouxe o passarinho morto para o menino e disse que não conseguira reviver o passarinho. O menino perguntou para o pai dele se ele podia fazer alguma coisa com o passarinho. O pai disse que sabia de uma pessoa que podia fazer algo pelo passarinho…

Depois de um mês, o homem trouxe o passarinho vivo! O menino disse:

— Muito obrigado!

Depois soltou o pássaro, que voou com muita alegria!

 

16

Chegando em casa, sua mãe perguntou:

— Onde você estava? Eu estava te procurando, que susto levei!

O filho respondeu:

— Estava brincando perto daqui.

A mãe respondeu:

— Da próxima vez, me avise!

O menino disse:

— Desculpa!

E foi para quarto. Colocou o pássaro no armário e deixou aberto. E orou para Deus: que ele fosse ressuscitado!

Mas não funcionou na hora. Então fechou o armário e esperou. No outro dia, ele ouviu um barulho no armário. Parecia um canto lindo!

Quando abriu o armário, o passarinho voou para fora do quarto. Voou livre! Quando anoiteceu, o menino, triste pela perda de seu amigo, olhava para fora toda hora…

Quando foi deitar, olhou e viu um pássaro na janela, com uma fita no pé.

E o pássaro cantou uma linda canção de dormir. Depois disto, voltava toda noite e de manhã sumia.

 

17

O passarinho ressuscitou!

O menino levou-o no bolso e quando chegou em casa não mostrou o passarinho para a mãe. Entrou reto no seu quarto, tirou uma pena do passarinho; colocou-o em uma gaveta e orou para Deus revivê-lo.

O menino foi dormir e no outro dia foi ver o passarinho. O passarinho não estava na gaveta! Foi olhar lá fora… o passarinho estava voando!

 

18

O sabiá ressuscitou. Foi para casa, cantar. Os sabiás gostam de cantar muito! Eles têm bicos, tem asas e fazem ninhos com muitos galhos, gravetos. Comem muitas minhocas e botam muitos ovos! Com muitos passarinhos.

 

19

Daí, o menino levou o sabiá para a casa dele. Mas o pai e a mãe dele não sabiam que o sabiá estava ali, estavam viajando. Ele pediu ajuda para sua irmã mais velha, que tinha 25 anos. De repente, os pais voltaram da viagem, viram o sabiá morto na mão do menino… Daí, o pai dele falou:

— Que bonitinho esse sabiá!

A mãe do menino perguntou:

— O sabiá está morto?

O menino falou:

— Sim, mãe! Ele está morto.

Daí, o pai e a mãe do menino ficaram com muito dozinho do sabiá… Depois enterraram, para ele não feder tanto que nem lixo. E foi assim que terminou a historia do menino e do sabiá.

 

20

Menino e sabiá-laranjeira; homem e passarinho: sempre foram rivais, eu sei disso. Meu pai fazia isso, pegar passarinho; era brincadeira de menino…

Mas agora não. O menino acredita em ressurreição, estilo deus, mas… não acho que dê pra reviver o passarinho. Eu espero e desejo:

— Boa sorte menino, que Deus te ajude!

Eu queria ser como você, Luís Pellanda: fazer poesias e crônicas. Tenho minhas poesias na mente, prontas para escrever.

 

 

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Visita envergonhada (2)

Imagem: LHP

15

Foi o Rubem Braga quem disse. Entre as dez coisas que fazem a vida valer a pena, está a seguinte: sair pela primeira vez pelas ruas de uma cidade estranha, achando que ali vão acontecer coisas surpreendentes e lindas. Concordo e acrescento: toda cidade é estranha, e toda vez será sempre a primeira. É que, na verdade, não conheço cidade que possamos chamar de nossa, e nem existe chão familiar. Tente tomar posse de uma única pedra, branca e portuguesa, na calçada da sua velha esquina. Ela reagirá, feito um dente brilhando ao sol. Você pode levá-la pra casa, trancá-la numa gaveta, é sua e acabou. Mas não: você abre a gaveta e lá está ela, a cidade, rosnando pra você. O canino eternamente sujo.

 

16

Não há força mais bonita que a das resistências solitárias. Toda cidade é meio que o conjunto dessas forças.

 

17

Tudo em Lages me lembra as pedras que, dizem, deram nome ao lugar. Saio do hotel e subo a Frei Rogério, em direção ao Centro, e é como se eu mesmo fosse uma estrutura de rochas mal animadas, frias, envoltas em lã. Duas quadras já bastam pra fazer esta estátua suar, água escorrendo na pedra. Ando por Lages e me sinto atravessado por uma pequena catarata, uma bica na serra catarinense, cristal gelado.

 

18

Encontro uma escola antiga, rosada, toda coberta por uma imensa malha azul. Está em reformas. E o azul daquela malha é o exato azul do céu. A imagem me choca, me obriga a parar, o prédio e sua mortalha, meu deus, que coisa linda. Leio sobre a grande porta: Grupo Escolar Vidal Ramos, 1912. As letras quase escondidas pela ondulação da rede, lembrando uma vela, um navio em apuros, justamente por estar tão longe de qualquer mar. Não resisto e tiro uma foto. Encostado num automóvel em frente ao prédio, um homem tranquilo comenta comigo: “É, agosto é mês de vento, você sabe”. Não, não sei, mas finjo que sim. Na verdade, não faço a menor ideia. Ventos, desgostos, cachorros loucos, tanto faz, tudo tem dentes, tudo nos morde. Pra dizer alguma coisa, faço um comentário igualmente avoado: “Parece até que o céu caiu em cima dessa escola, veja”. Ele olha: primeiro pro azul da malha, depois pro azul do céu e, finalmente, pra mim. Está meio cabreiro. E pergunta: “O senhor é poeta?”. O senhor — notem que o sujeito já abandonou o tratamento informal.

 

19

Não reconheço as árvores podadas às margens do Rio Cará. Não sobrou um galho, uma folha, só restaram os caules. E ficaram assim, parecendo uma paliçada quilométrica a separar água e asfalto. Dezenas de mãos contorcidas enfileiradas, dedos atorados, mas ainda súplices, eretos, segurando o céu lageano.

 

20

Sento no Parque Jonas Ramos, quero apreciar o sobe-e-desce do repuxo. É bonito. O tanque está cheio de carpas, os peixes dourando a superfície quase sólida das águas. Há um barco vazio diante de mim, e duas garrafas plásticas querendo abordá-lo, beijando o casco da embarcação. Perco alguns minutos tentando decidir se os bichos esculpidos nos pedalinhos são gansos-canadenses ou cisnes-de-pescoço-preto, e essa dúvida me alegra. Perder tempo com ela me dá uma comovente sensação de felicidade.

 

21

Um homem se aproxima de mim, carregado de revistas antigas. Senta ao meu lado. Desprezou todos os bancos desocupados ao redor do tanque; ou seja, o melhor é eu me preparar para o baque. Aí vem coisa. Ele assopra a franja grisalha sobre a testa. Afasta dos olhos uma mecha mais rebelde e me diz querer um conselho, é de graça? Eu digo que depende. E ele decide arriscar. Conta que a mulher já tem mais de cinquenta e, ainda assim, continua engravidando duas vezes por ano, o que eu devo fazer, meu amigo? Pergunto quantos filhos eles têm e o cara me diz que não, nenhum, eles não têm nenhum filho, nunca tiveram, imagina, você entendeu mal. Nenhuma gravidez vingou, em mais de três décadas.

 

22

Aquele homem sem filhos vê em mim o conselheiro ideal. O forasteiro ao sol, admirando gansos ou cisnes moldados em fibra de vidro. E insiste comigo, quer mesmo um conselho. Quer saber se deve continuar tentando, ou se deve desistir de ser pai. Eu digo que não sei, e peço desculpas por não saber. Ele agradece a minha sinceridade, pergunta meu nome, eu digo, e ele me garante que seu primogênito vai se chamar Luís. Antes de ir embora, porém, uma nova dúvida o atormenta: Luís com S ou com Z? Com S e acento agudo. Ele faz uma anotação na capa de uma de suas revistas, e meu nome vai embora com ele, debaixo de seu braço.

 

23

Boto o celular no silencioso e entro na catedral de pedra de Lages. Os vitrais alemães me emocionam, fazem de mim um homem colorido e inesperadamente leve, apesar das roupas escuras, do casaco pesado, do suor ruim sob a lã molhada. Caminho até o caixão de vidro de Cristo e leio a inscrição numa placa triste: Senhor Morto. Uma mulher loura, já entrando na velhice, reza no banco de madeira ao lado da imagem. Sopra no ar uma sequência de sílabas e fonemas embolados, como bolhas envenenadas de sabão. Meus ouvidos se acostumam àqueles sussurros e, sem querer, decifram o que ela diz, quase que sem mexer os lábios: acorda, acorda, acorda, acorda.

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24

Um celular toca e nos assusta, interrompe a ladainha da senhora. É o toque da Nokia reverberando pela catedral de luz e pedra. Levo as mãos ao bolso, é automático, mas o meu telefone está no silencioso, estou inocente. O dela também está quieto, o som não vem da sua bolsa, nem de perto de nós. Olho em volta e não vejo ninguém, a igreja deserta. De repente, tudo se esclarece. Descubro de onde vem o chamado, só pode ser dali. Tem alguém no confessionário. E lá dentro é sempre noite.

 

25

Acho que o Braga não era bem um otimista, e nem eu o sou. Mas concordo com ele: coisas lindas e surpreendentes acontecem. Apesar das nossas expectativas.

 

Visita envergonhada

Cardeal Arcoverde, Pinheiros/Eduardo Aguiar

1

Cronista em cidade dos outros é visita envergonhada, pra tudo pede licença.

 

2

Ainda não sou íntimo de Pinheiros, e me limito a andar pela Pedroso de Morais, pra cima e pra baixo, atrás de quem me autorize a olhar o bairro. Antes de escrever sobre uma rua, é bom ler no calçamento a história de suas pedras. Calcular a idade do asfalto, a saúde dos fios de luz. No fim, a gente pega o jeito, e extrai de cada poste uma notícia das nossas sombras.

 

3

A figuração em Pinheiros é abundante, mas não demoro a escalar uma protagonista. Aqui está, é linda. Paro debaixo dela, olho pro alto e deixo que a escolhida escureça meu rosto com sua grandeza. É uma falsa-seringueira, deve ter mais ou menos quarenta anos, assim como eu. Aposto que já se acostumou à injustiça dos homens: tristeza chamar de falsa uma criatura assim, tão escandalosa e indiferente. Quem poderá dizer que conheceu as intenções duma planta?

 

4

Sua copa é uma noite portátil na tarde de São Paulo.

 

5

Dos galhos desta árvore descem raízes aéreas, uma fina cabeleira castanha. Ela se precipita no nada, balança ao vento, no suave desespero de alcançar o chão. Os galhos da falsa-seringueira sofrem de saudade e vertigem, até parecem gente louca, descabelada de esperança, quem mandou subirem tanto?

 

6

Mas não, esses cipós não agarram coisa alguma, e nem são cipós de verdade, apenas se lançam lá de cima, no máximo roçam a terra arisca, já saturada de outras madeiras. A cabeleira castanha da árvore forma uma cortina bonita, mas inútil: atrás dela nenhum espetáculo à nossa espera. Nada acontece. E mesmo assim a gente aguarda.

 

7

É agradável debaixo da falsa-seringueira, a sombra é boa. O dia não está quente, mas o sol de inverno incomoda, melhor ficar aqui, já estou suando. Tiro o paletó, vim a trabalho, não posso esquecer, tenho meus horários, as reuniões marcadas. De repente, um pedido de licença: é um carroceiro atarefado, sem camisa, que quer passar. No peito do homem, um crucifixo de plástico. De certo modo ele é também um rebocador de mortos, vai encaminhando à reciclagem a sua montanha de refugos condenados. Hoje em dia até o lixo ressuscita.

 

8

O carrinho deste homem é um carrinho comum, e avança em marcha lenta, a calçada não ajuda. Especial mesmo é a carga que ele transporta. Decerto limpou a lixeira duma grande fábrica de disfarces. O veículo vem carregado de retalhos de fantasias e máscaras, em isopor e espuma, pena e lantejoula. Anjo de luz, dragão descamado, urso sarnento, cabeça de sapo.

 

9

No meio de tudo aquilo, o destaque. A estrela sem brilho da carroça alegórica. A triste mulher vestida de gata. Com orelhinhas, rabo torto e gravata-borboleta, tudo em preto e branco. Está sentada de lado sobre as pernas magras, numa pose de rocha e derrota. Ela se fantasiou de gatinha, mas é uma péssima atriz, não convence. Ou vai ver já nem sabe o que é um gato: em seu rosto, em seu corpo, não se vê sinal de felinidade. Passam por mim, ele e ela, o vagão e a locomotiva, como o vento pela copa da falsa-seringueira. Viram à direita na Navarro e somem. Sigo na direção oposta, até o meu hotel, na esquina da Artur Azevedo. Tenho compromissos, é preciso estar preparado. E sumo.

 

10

O tempo que perdemos temperando a água do banho nos hotéis. É exasperante. Ora muito quente, ora muito fria. As torneiras não nos obedecem, e são tão caprichosas as letras Q e F. Me forço a imaginar novas palavras pra essas mesmas iniciais, novos líquidos pra velhas torneiras, e é assim que exercito minha paciência. Ó céus, o tempo que perdemos, nus e com frio, temperando a água do banho nos hotéis.

 

11

Estou num bom quarto. Bom, mas baixo, no primeiro andar. O trânsito na Artur Azevedo, à noite, às vezes me desperta, mas me acostumo rápido, logo estou dormindo de novo, minha alma anda mais leve que de costume, o cansaço de hoje maior que os incômodos de amanhã. A isso há quem chame de felicidade.

 

Choro

Imagem: Eduardo Aguiar

 

12

De madrugada, acordo com um barulho diferente, um choro de criança, um gemido enjoado, não sei. Levanto e vou à janela verificar a movimentação na esquina. Em frente à portinha da Deus É Amor, vejo a carroça de puxar papel. É a mesma que vi horas antes. E dentro dela, o mesmo casal que encontrei à tarde, debaixo da grande árvore. Agora estão engatados um no outro, e ronronam, e miam, e eriçam o pelo das costas e do rabo enquanto afundam, devagar e ruidosamente, em sua cama de entulho colorido. Transplantada pra debaixo da minha janela, a falsa-seringueira da Pedroso de Morais vela pelo amor dos gatos.

 

13

Acordo e, ainda bem, o sonho é interrompido. Só que aí me vem a dúvida. Sabemos exatamente quando os sonhos acabam. Mas quando começam? Antes ou depois de irmos pra cama?

 

14

Deus é o amor dos gatos.

 

 

 

 

Bendita blusinha

bus

Imagem: Eduardo Aguiar

 

Ela atravessou a rua na pior hora, o ônibus já abrindo pra fazer a curva e a Cândido Lopes vazia diante dele. Vi que o motorista estava tranquilo, a cara descongestionada como o tráfego, negócio raro, um homem sozinho e aquele asfalto todo só pra ele, seus passageiros silenciosos, gente boa, e o reflexo do sinal verde riscando o para-brisa, tudo favorável.

Menos pra ela. A mulher errou, confiou demais nas pernas e nas forças, não devia, mas confiou. Se corresse, ela tinha a certeza, estaria tudo bem, e por isso mandou um trote curto, sequer olhou pros lados, só pra calçada ali em frente, questão de cinco passos e um pulo, dois, três segundos em linha reta e pronto.

Mas não, pena que não era tão simples, nada é, e ela carregava muita coisa além da meia-idade e uns quilos a mais. Falo somente do que pude ver e registrar, claro, pois sei que há cargas ainda maiores, absolutamente invisíveis.

Era uma manhã gelada, e a mulher vinha de cachecol e cacharrel subindo a Marechal, de sobretudo e calça colante, botas de cano alto, saltos idem. Não estava fácil pra ela, não: trazia uma sombrinha fechada presa ao punho, e a mochila pendurada ao contrário, sobre os peitos, pra evitar ladrão, e mais duas sacolas de butique numa só mão, das ruins de segurar, e uma pasta gorda de papéis debaixo do braço. Tudo isso fora a maçaroca de panos sobre os ombros e ao redor do pescoço, mantas, xales, roupas sobressalentes, sei lá, impossível entender o arranjo. Só sei que era inevitável que algo, daquilo tudo, caísse durante a travessia da Cândido Lopes, e bem no meio da rua, diante do ônibus que já abria pra fazer a curva.

Não deu outra. A mulher seguiu o plano, deu cinco passos e um pulo, chegou à calçada, mas, esperem, algo ficou pra trás: no asfalto, largada, restou uma blusa pequena, vermelha, de tricô, pontos grossos, um trabalho refinado prestes a ser destruído, que dó, já era.

Ou não: ao perceber que a tinha perdido, a mulher deu meia-volta e voou apanhá-la. Coragem ou desatenção? Abaixou-se ali, a inocente, sem tomar conhecimento do veículo que avançava sobre ela. Meia dúzia de passantes gritou cuidado, meu deus, olha o ônibus, e o motorista, aquele da cara descongestionada, pisou no freio até quase partir o joelho, coitado, o solavanco amontoando os passageiros uns sobre os outros, mas todos se chocando em silêncio, quase organizadamente, pois eram curitibanos acidentados, e fazemos nossos cálculos antes de gritar de dor ou de medo, temos vergonha até de sangrar, tão ridículo é ferir-se.

Só que tudo bem, ninguém se machucou, não dessa vez, nenhum sangue à vista, nenhum osso exposto, e a mulher foi salva do atropelamento por um palmo de distância, não é exagero, eu juro. Blusa vermelha recuperada, atirou-a sobre o ombro e caiu fora, nem agradeceu ao motorista, nem se desculpou, um absurdo. Apenas saltou de novo em direção à calçada e sumiu na Praça Tiradentes, bem viva e ilesa, quem sabe imortal, não duvido de nada.

O povo à porta dos comércios não a perdoou, mas que idiota, essa daí merecia ter morrido, ah, merecia sim. Por uma blusa, diziam todos, por uma bendita blusinha vermelha de tricô, quem diria, vê se tem cabimento, por uma blusa, e teve até quem berrasse, ao vê-la desaparecer entre as figueiras da praça, ó sua louca, o tipo dessa imbecil, abre o olho, bicho burro irresponsável, tinha que ser mulher, só podia, afinal, por uma blusa, lançar-se assim, desvairada, sob os eixos de um ônibus?

Débil mental, nada menos que isso, ela era uma débil mental, a suicida que nasceu de novo e acabou rebatizada pelo povo, a louca, a retardada perfeita, diziam todos, uns na porta do hotel, outros na entrada do banco, no ponto de táxi, sob o toldo das lanchonetes. Cem juízes de pastel na mão, duzentos promotores com a boca cheia de farelos, todos proferiam seus duros vereditos, pois essa merecia, ah, mas tinha que ser é virada do avesso, precisava mesmo de ser internada, melhor estivesse ali mesmo, bem esmagada, e não à solta pela cidade, já imaginaram, o corpinho sendo arrastado defronte à escadaria da Biblioteca Pública, a marca horripilante dos pneus, aquela freada dupla com cabelos, já imaginaram, e de que adianta uma pessoa assim viver no mundo, um risco à segurança de todos, antes ela do que nós, já pensaram nisso?

Sim, todos já haviam pensado em tudo, mas a ninguém ocorreu, e nem a mim, buscar entender que blusa era aquela. Ah, a bendita blusinha, tricô dos anjos, a quem será que vestiria logo mais, talvez ainda naquele mesmo dia de frio em Curitiba? A quem a mulher maluca, tão agasalhada, já a teria destinado, aonde corria com tanta pressa? Quem a tricotou, bendita blusinha, e há quantos anos, ou meses, ou noites, e com que fim? O de vendê-la numa feira de artesanato, presentear um neto ou uma filha, doá-la a um menino sem futuro, a uma instituição de outros doidos?

Não, ninguém notou, naquela blusa, a sua trama de mistérios. Ninguém viu que, ao apanhá-la do asfalto, o ônibus já a dois metros de seu coração, sua cabeleira ondulando conforme a respiração quente do motor, aquela mulher logo mergulhou nela o rosto pálido, viciada, e aspirou profundamente a sua lã de fios vermelhos, e pensou que, nossa, essa foi por pouco, por muito pouco mesmo, quase perco esta blusinha querida e, ah, eu não me perdoaria jamais.

E a ninguém ali ocorreu, e nem a mim, que o motorista do ônibus também não mereceria carregar aquela morte nas costas até o fim de sua trajetória de homem de bem. Pois a cada noite, deitado em sua cama de casal, ao lado da esposa adormecida, é certo que se lembraria não do cadáver da mulher apressada, tralha presa ao para-choque dos seus sonhos e pesadelos, mas sim dos contornos já lasseados daquela bendita blusinha vermelha atropelada.

E sempre que a visse por aí, aquela peça de roupa tão comum, encontrável em qualquer balaio do Centro, sempre que a descobrisse, sei lá, vestindo sua filha, sua mãe ou sua esposa, cobrindo os seios de uma bela artista de novela ou o colo de uma cantora sertaneja famosa, aquecendo a respeitável mulher do pastor ou a nova cobradora de sua nova linha, aquele motorista sentiria mais uma vez a perna esticar-se, longa e incontrolável, e seriam dez quilômetros de perna numa cãibra mortal, irreversível, à procura do freio de todas as coisas.

E a ninguém ocorreu, nem a mim, naquela hora ruim em que a mulher decidiu atravessar a rua, aquele momento em que todos nos unimos numa fraternidade de bom senso, ódio e precipitação, que a blusa vermelha daquela mulher era, na verdade, a sua asa de sereia, a parte indecifrada de suas posses, o apêndice secreto de cada um, e que, como tal, permaneceria para sempre intocada, protegida, inviolável.

Ninguém percebeu, e eu muito menos, que aquela mulher, ao apanhar sua blusa e debruçar-se diante da morte, não corria risco algum.

 

 

Pedágios e invocações

 

Invocações

Imagem: Eduardo Aguiar

 

Um homem igual a mim, e que atende pelo meu nome, passa três vezes por semana, às segundas, quartas e sextas, pelo calçadão da Monsenhor Celso, bem ali onde a rua desemboca, ruidosa, na correnteza da Praça Tiradentes. É uma encruzilhada típica, um triste ponto de pedágios e invocações, compras e vendas. E sempre que enfrenta o velho cruzamento, pela manhã, o homem que usa o meu nome, assim como toda gente, é obrigado a deixar no local uma dádiva, uma oferenda, uma paga. Ele deixa. Mas até hoje não descobriu exatamente o quê.

Uma mulher atarracada e sem pescoço, vestindo blusa e gorro de lã, é a primeira a abordá-lo. Ela o elege entre tantos pedestres, é aquele, o macho de meia idade, nunca falha. Estende ao homem um panfleto em papel brilhante, ilustração e legendas coloridas. O conteúdo varia, mas a mensagem, em geral, é a mesma. No panfleto retangular, o que se lê é algo como SÓ FERAS, ou GATAS D4, as letras e os números de telefone em amarelo, rosa e roxo, acompanhando fotos reais e sem retoques de belas moças nuas, em posição invariavelmente quadrúpede.

O homem diz não, obrigado, despreza a isca da mulher atarracada, que no fundo não dá a mínima para ele, sequer o olhou nos olhos. Aquela é só mais uma rejeição em sua vida, e dessa vez a rejeitada nem foi ela, ela está de pé, vejam, o corpo ereto, e não rastejante, como a beleza irretocável nos papéis que distribui.

Mais adiante, o homem que usa o meu nome é chamado por outra mulher, que não sabe o nome dele, e por isso o chama de amigo. Ela é bonita, não tanto quanto a moça de quatro do panfleto, mas é alta e loura, bem maquiada, e veste roupas sóbrias, parece confiável, por que não parar para ouvi-la? Ela posa ao lado de um cavalete cheio de revistas, sentinela, despertai, renasçamos, coisas assim, e diz bom dia, amigo, você já conhece nossas publicações, pode pegar uma, vem cá, vem que é de graça, olha a oportunidade.

Mas o homem diz não, obrigado, e a mulher bonita se ressente um pouco, normal, e até desiste de sorrir. Recusar uma oferta sua é como dizer não à própria pureza, reclamar de uma manhã de sol, de um céu azul, e puxa, foi para ele que ela se vestiu ao acordar, foi para ele que se perfumou, e lavou os cabelos, e redesenhou a boca com um batom claro, discreto, mas atraente. Afinal, o que quer este homem que segue impassível, para onde ele vai, quem o espera, por que não me compra, e para quem já terá se vendido?

Ninguém sabe, nem ele. Dois, três, quatro passos mais e uma terceira mulher lhe aparece, uma senhora em roupas menores, desprotegida no outono curitibano, coitada, as pernas finas e a cintura tão larga, os ombros caídos e o rosto rude, o tédio em meias-arrastão. Ela emparelha com o homem que usa o meu nome e cochicha assim, sem convicção nenhuma, vontade zero, vamos lá? É uma pergunta mecânica, e sua voz, ao perguntar, soa como se saísse de um robô anacrônico, sim, ela é tecnologia ultrapassada e se comporta como tal, uma máquina sem fé, lampadinhas pifadas, produzindo um sussurro metálico, vamos lá? E é com ouvidos de lata e ferrugem que essa terceira mulher escuta um terceiro não, obrigado.

Agora é a vez do cara da agência de empregos, um sujeito grande e sanguíneo. Ele vai seco, confiante, na direção de sua caça, e pretende atacá-la com seus punhados de filipetas vagabundas, armadilhas em papel-jornal, e melhor seria se fossem tecidas em papel pega-moscas, esses recadinhos em preto e branco para quem perdeu não a esperança, mas o direito de exigi-la em papel de qualidade. O cara da agência de empregos estica um de seus panfletos para o homem que usa o meu nome, seu imenso braço tipo uma cancela a lhe barrar a passagem. Mas não, o outro não lhe dá atenção alguma, e passa batido por ele, não diz não nem agradece, já está de saco cheio daquilo, cai fora.

E só então o último da fila, o moço-sanduíche do restaurante popular. Um rapaz miúdo que garante, aos berros, que a comida preparada logo ali é muito boa, barata e caseira, e nos promete que seremos atendidos como reis e rainhas, embora nosso reinado, infelizmente, tenha de durar pouco, pois o serviço por lá é rápido e eficiente, e quando você vê, já está na rua de novo, a digestão bem adiantada, satisfação absoluta e felicidade à vontade, e felicidade, acreditem, por somente seis reais, é pegar ou largar, você me dá seis reais e eu te dou lasanha, feijão e frango frito, garçonete, televisão e cafezinho, adoçante ou açúcar, você escolhe, tudo de bandeja para nós.

Sem saber por que razão, o homem que usa o meu nome recolhe a filipeta do moço-sanduíche, é possível que goste do sujeito, e agora é ele quem age como um autômato. Estica a mão, os dedos em pinça, e apanha o papel (brilhante) que o moço-sanduíche lhe oferece, mas apenas para atirá-lo na lixeira ali em frente, sempre cuidando, é claro, para que o rapaz não o veja se desfazendo de suas ofertas de alegria, poder e paraíso, pois não quer ofendê-lo, ninguém quer, mas, engraçado, todo mundo o ofende, pobre menino.

***

Nas terças e quintas, porém, outro homem igual a mim passa por aquela mesma encruzilhada. E ele também usa o meu nome. A diferença é que este homem, sempre disposto, ainda forte, tão forte quanto eu, traz na garupa uma menina, sua filha.

A mulher atarracada não o detecta, a paternidade é o seu manto da invisibilidade, e ele a trespassa incólume, somente um tanto incomodado, uma coceirinha nos olhos, outra no nariz; ele a trespassa não como se fosse o vento entre as Arcadas do Pelourinho, mas como se a mulher atarracada fosse uma teia de aranha inútil, sem cola, à espera do espanador. Já a mulher bonita se dirige não ao homem com a menina na garupa, mas à própria menina, quer ganhar uma revistinha, minha princesa? E a terceira mulher, a velha senhora oferecida, nestas manhãs de terça e quinta nem se oferece mais, não a este cliente, apenas se contenta em acenar para a filha dele, que amor que ela é, e trocam beijos entre si, a senhora e a criança, e os sopram no ar frio, os beijos quentes fumaceando, e os capturam feito borboletas apetitosas, com a delicadeza, a fome, a precisão dos passarinhos.

O cara da agência de empregos se recolhe à passagem da dupla, dá as costas ao seu avanço e se afasta apressado, o que adianta? Os papéis vagabundos em suas mãos se incendeiam, ele tenta escondê-los, guardá-los no bolso, mas suas calças também se queimam, suas unhas faíscam, e em poucos segundos ele vira uma tocha subumana, uma fogueira sem vaidades consumindo a si mesma, adeus, braseiro miserável, apagando-se num redemoinho de cinzas.

O moço-sanduíche não, é de outra estirpe, orgulhoso. Ele se mantém inteiro, e reage naturalmente, parece íntegro, e talvez até o seja, guarda um sorriso sincero para a menina, que sorri de volta. É para ela que o rapaz dirige o seu papelzinho colorido e brilhante, o pai não interessa, jamais interessou. A menina apanha o panfleto e agradece, obrigada, e o moço-sanduíche diz de nada, embora não prometa mais coisa alguma, nem comida boa, barata e caseira, nem felicidade à vontade, pois sabe que para uma criança não se mente impunemente, e sabe disso porque ainda se lembra: ontem mesmo ele era um menino, a quem mentimos tantas e tantas vezes.

***

O homem das segundas, quartas e sextas segue sozinho por ali, tem poucos medos e, mesmo assim, todos eles vagos e meio estúpidos. A possibilidade remota de um câncer no intestino, a suspeita do fígado minado por tumores, as infecções galopantes, uma pinta escura nas costas, e aquela fisgada no pescoço, que já dura três semanas, o que seria?

Já o homem das terças e quintas tem muitos medos, temores incontáveis, e todos eles de alguma forma ligados à menina que traz na garupa. O pior deles: que, um dia, pai e filha encontrem, na encruzilhada das almas e dos anjos da Monsenhor Celso, o homem das segundas, quartas e sextas, e que, a partir deste encontro, a menina não mais o reconheça.

 

 

Minha guardinha querida

Praça Santos Andrade, mãe e filho na fila do Piraquara. O piá, boné pra trás, esbraveja:

— A assistente me avisou, uma palavra que eu disser e você não é mais minha guarda.

Ela quieta, nem se defende. Ele não alivia, parte pra cima:

— Perde tudo, até os outros.

Em volta, o mundo impassível, o silêncio dos ônibus. Meio minuto e a mulher, uma carranca remoendo ideias, enfim se pronuncia:

— Nunca imaginei, quem diria.

O piá se irrita, desde quando você tem imaginação, imaginou o quê? E ela, pedra falante:

— Ser mãe é cuidar de um presídio.

 

 

 

Os gatos do guapuruvu

gatos

Imagem: Eduardo Aguiar

Não faz muito tempo, em Curitiba, ainda era possível dormir na rua. Eu mesmo, antes dos vinte anos, recorri algumas vezes a esse expediente emergencial. O madrugueiro demorava a chegar, e as marquises, os gramados, os bancos de praça pernoitavam vazios, sempre limpos, uma tentação para tantos bêbados pedestres. Era outro século, e a cidade, uma paisagem de poucos zumbis, raros assassinos. Ou talvez já fossem muitos, não sei, e apenas se recolhessem mais cedo, para matar ou morrer no seio da família, vocês sabem como podem ser absorventes as fantasias domésticas.

Mas lembro que uma noite, vindo não sei de que bar ali na Amintas, eu descia a rua em direção à Praça Santos Andrade quando precisei parar, as pernas não respondendo mais, trançadas, pedindo descanso. Olhei para o grande guapuruvu ao lado do Guaíra, imenso e sólido como o próprio teatro, e de pronto percebi estar diante do esconderijo ideal. Era deitar entre suas raízes, as costas coladas ao tronco largo, e me deixar apagar, sereno, escondido dos carros que minguavam ladeira acima.

Curitiba, tão quieta, não reclamou do meu cansaço, não nos incomodávamos, ela e eu. A única preocupação era despistar a polícia, ficar bem mocado, e evitar o perigo das hipotermias. Naquela madrugada o frio era moderado, não tinha jeito de homicida, e assim adormeci depressa, de vez em quando ouvindo o ronco manso de algum automóvel atrás de mim, seus faróis jogando uma luz enviesada contra a árvore, a sombra do gigante correndo nas paredes do teatro.

Não sei dizer se dormi muito ou nada, e isso, agora, nem faz diferença. O que sei é que fui despertado por um ruído misterioso, uma cantoria aguda, chorosa, e que vinha do alto, de algum lugar acima de mim, feito um coro de duendes. Firmei a vista com dificuldade, a ressaca instalada antes mesmo do fim da bebedeira, o corpo mais rígido que o esperado para uma noite de outono. E o que vi, entre os galhos do guapuruvu, foi uma coleção de olhos brilhantes me observando, misturados às folhas miúdas da árvore. Nenhum deles piscava, nenhum se movia, apenas emitiam o seu código intermitente, aquela chata melodia de gemidos.

Me acostumei ao escuro da copa e não custei a decifrar a visão. Era uma turma de seis ou sete gatos brancos, pendurados aqui e ali, seus miados insistindo em parecer uma mensagem. Não tive dúvida de que tentavam me dizer alguma coisa, pensei que provavelmente me ofendiam, talvez criticassem meu mau comportamento, reclamassem da invasão de seu espaço. Finalmente irritado, a testa doendo, perguntei, engrossando a voz:

— O que é que vocês querem?

Os gatos do guapuruvu emudeceram, mas satisfeitos, como se tivessem atingido um objetivo. Um deles, o mais graúdo, desceu de ponta-cabeça pelo tronco, com inegável elegância, as unhas firmes e reluzentes, até se acomodar num galho relativamente baixo, mais próximo de mim. Dali ele me olhou com o que a princípio julguei ser uma expressão de gravidade, mas que logo interpretei como ironia, pois, tenho certeza, o gato sorriu. Foi um sorriso meio de lado, sofrido, uma luta do felino contra as limitações de sua anatomia, mas foi um sorriso.

Quando se tornou evidente que me diria alguma coisa, talvez o seu nome, a boca e os bigodes já se desenhando para o milagre da palavra, sua língua rosada subindo ao palato, fomos interrompidos por um estrondo pavoroso. Levantei assustado, num pulo, instantaneamente sóbrio. A poucos metros de nós, no cruzamento da Amintas com a Tibagi, dois carros fumegavam, abraçados um ao outro, o asfalto salpicado de vidro. Quando me refiz da surpresa e voltei a olhar para a copa do guapuruvu, todos os gatos já haviam fugido. Para onde, não sei.

Mais de duas décadas depois, continuo a passar por ali, de manhãzinha, com minha filha, rumo à natação, e encontro a árvore ainda em seu posto, mais bonita do que nunca. Sei que estamos bem mais velhos, o guapuruvu e eu, ambos plantados em Curitiba no início dos anos 70, só que ele, agora protegido pelas leis ambientais, goza a garantia de que jamais será derrubado.

A gataria decerto já morreu. Mas não a impressão daquele sorriso louco que registrei, faz vinte e tantos anos, num simples sonho de bêbado. O sorriso do gato do guapuruvu deve ser o tal sorriso de Curitiba, um repuxar desta velha Boca Maldita. A careta de um bicho irônico, interrompido, calado bem na hora de dizer a que viemos.

 

 

O homem vendado

ebano

Imagem: Eduardo Aguiar

Na Pracinha do Amor, encontro um homem vendado. Está de costas para a relojoaria da Saldanha, sentado num banco de madeira. Sua venda é branca, muito limpa, e não sou capaz de reconhecer o tecido de que é feita. Na nuca, um nó simples, firme, se perde entre os cabelos oleosos. O homem respira com calma, como se evitasse mover o tronco, mas sem dor. É um sujeito tão convencional que, fora o fato de estar vendado, nada nele me chama a atenção. Não vejo na cena nenhum mistério. É domingo, a cidade está quieta, e ali estamos nós, dois homens: um enxerga, o outro não, e isso é tudo.

Sigo adiante, normal, e subo a escadinha da sinagoga. Avanço pela Saldanha em busca de um almoço. Tenho planos de comer fartamente, sem pressa, apesar do trabalho que preciso concluir à tarde. É o que faço. Visito um restaurante da região, peço uma costela, me demoro entre seus ossos. O movimento é pequeno, poucos casais, nenhuma família. Tudo tão quieto, melhor assim, penso, e mato dois cafés aguados, com gosto de sabão. Pago a conta, a refeição é barata, e volto para casa, pelo mesmo caminho, quase duas horas depois.

Chego à praça e nada mudou. Ou melhor, mudou apenas a minha disposição para os enigmas. Porque o homem ainda está lá, imóvel, a mesma venda limpa nos olhos, se é que tem olhos debaixo dela. Só que agora, não sei por que, sinto por ele uma ponta de curiosidade, quem sabe é o efeito da gordura em meu fígado, o cérebro incomodado, vazando óleo.

Investigo o desconhecido: ordinário da cabeça aos pés, não se trata de um artista performático. É uma figura prática. Talvez seja um homem sério em busca de emprego, e seu martírio faça parte de algum teste, tudo aqui é parte de um abominável processo seletivo, o quanto de medo e insegurança você suportaria, o quanto de humilhação num mês?

Mas pode ser que este homem seja apenas um gincaneiro abandonado por seu grupo, ou um desses jogadores compulsivos, viciados em apostas exóticas. Certamente não é um cínico, daqueles que andam sob o sol com uma lamparina acesa, à procura de um cidadão honesto. Vai que é só um inocente, um puro que, para não ver mais homens impiedosos, preferiu simplificar e não ver mais nada?

Não sei. Só sei que me sinto pesado e preciso descansar. Sento no banco ao lado dele, para melhor espioná-lo. Será que ele sabe que estou aqui? Cruzo as pernas, jogo a cabeça para trás e deixo o tempo passar, meia hora, quarenta minutos, esqueço que tenho um trabalho a fazer, e bocejo, tusso de leve, e bocejo de novo, estou sonolento e descuidado, cabeceio de sono, mas o homem vendado não reage a nada, muito menos a mim.

Até que, de repente, algo acontece. O homem ergue do colo uma das mãos. Com ela, retira a venda do rosto, sem qualquer preparação ou suspense. Olha ao seu redor e, levantando-se, anuncia com voz alta, potente:

— Pronto, lá vou eu!

Só então percebo que a praça, na verdade, não está tão vazia quanto eu supunha. Há várias pessoas ali conosco, tão convencionais quanto o homem que eu observava. Elas estão parcialmente escondidas, são meio diáfanas, mas é possível vê-las sim, uma aqui, outra ali, atrás das tipuanas e da araucária, atrás do acrílico encardido do ponto de táxi, atrás da banca de revistas, do pedestal do capitão Ébano Pereira, do busto de Santos Dumont.

São muitos além de nós, e todos estão escondidos, menos eu e este homem. É por isso que ele me localiza assim, facilmente, eu tão desprevenido, a barriga cheia. Com a venda entre os dedos, branca e limpa, o homem me encara nos olhos, os dele da mesma cor que os meus, e me diz, cheio de cordialidade e simpatia:

— Bem-vindo.

 

 

O velho com a menina no colo

Pracinha do Amor

Imagem: Eduardo Aguiar

Fazemos o mesmo caminho, ele e eu, todo dia, mas nunca juntos. Subimos a Ébano, cruzamos a Pracinha do Amor, pegamos a Saldanha até a Cabral. Depois é cada um para o seu lado, boa tarde, não sei para onde ele vai, não somos amigos. Nossos horários também batem, exatos, a entrada e a saída das escolas, a hora do almoço, o fim do expediente.

Na verdade somos quatro, duas duplas no páreo. Eu com minha filha, ela já apressada, me puxando pela mão, a nova mochila de rodinhas conosco, vencendo calçadas cada vez piores, mais sujas. Já ele não, nada de filha. Vai com a neta no colo, talvez bisneta, é mais provável, umas oito décadas de diferença entre os dois, no mínimo.

O velho se esforça, heroico, patético. A menina dele bem que podia ir andando, tem dois anos e tanto, mas eu sei que não é esse o desejo do avô. Ele a quer no ar, suspensa, bem longe das pedras soltas do calçamento, do mau cheiro das nossas vias, do lixo que se acumula debaixo dos postes. Quer a neta em seus braços e não a libertará jamais, não descuida dela um segundo, e anda assim, torto e cansado, mas irredutível, como quem não se desfaz de um saco de ouro garimpado ao longo de toda uma vida.

Tampouco ela faz questão de palmilhar o chão distante e contaminado, tão tranquila. Apesar de pequenina, é evidente que já pesa muito para o avô, e o sofrimento físico a que o submete é cruel, ruim de ver, me enche de angústias, me faz pensar numa pena autoimposta, uma penitência amorosa, o amor como castigo, a bola de ferro no tornozelo, e, sim, acabo achando que o velho deve ter feito por merecer essa carga, o que terá aprontado, quais crimes?

Vai devagar, meio de lado, usa bons sapatos e manca um pouco da perna direita. Comenta-se que tem dinheiro, farta aposentadoria, automóvel caro. De qualquer maneira, dizem, não está mais autorizado a pilotar, é um risco. Não que ele ligue, descobriu só na velhice o sentido simbólico de ser pedestre, a neta veio ensiná-lo a caminhar, a ler as ruas, reescrever sua história com os pés. E não importa a estação, pode até estar frio, ele sua muito, culpa do quase infalível paletó de lã, os cotovelos remendados com couro e o velho suando, vermelho, mas sem brigar com o suor.

Embora pareça, não está vestido para trabalhar. Decerto quer aparentar alguma produtividade tardia, já o vi até de gravata, um despropósito, penso que com isso pretenda preservar a elegância ou a ilusão de sucesso de tempos passados, dizem que advogou e, em épocas imemoriais, teve um nome. Pode ser. Muito poucas vezes o encontrei apenas de camisa, desobrigado da cerimônia. Mangas arregaçadas só em tardes de calor excessivo, tão raras em Curitiba, mas sim, já aconteceu.

Já o vi livre dessas formalidades, dos panos com que se esconde, já vi partes de seu corpo e posso garantir, é humano, eles estão lá, sim, aqueles braços finos de homem velho, sem musculatura visível, sem nervos viáveis, apenas osso e pele que se adelgaçam, e tremendos hematomas acusando o uso de algum afinador de sangue, e uma arritmia que avança, aquele fole de vaidade se esvaziando, um organismo sem fôlego, sem forças, sem música.

Aliás, um perigo o velho subindo os oito degraus à sombra da sinagoga abandonada, ele quase deixa de respirar durante o percurso e, lá em cima, precisa esperar uns dez, quinze segundos, os olhos fechados, para só então retomar a marcha. Mimada, a menina não ajuda, sequer pensa em ajudar, apenas segue impávida em sua liteira de sonhos, os bracinhos largados de marionete e o olhar majestático sobre um mundo que, para ela, tão elevada, é e será, sempre, submundo e nada mais.

Quando chove, drama corriqueiro, a coisa se torna ainda mais penosa. A neta vai equilibrada no antebraço esquerdo do avô, que escora o guarda-chuva preto, pesado, aberto, em seu ombro direito. O velho segue encharcado e a menina seca, um sacrifício em nome de sei lá o quê, acho que de sua reputação de macho, eu já disse e me garantiram que ele foi alguém um dia, e não somente este carregador de anjos sonolentos. Mas qual o problema? Hoje, mesmo incógnito e até lamentável, não há na vizinhança quem não o admire e, ao mesmo tempo, tema por sua segurança. Eu mesmo sempre os sigo de perto, se acontecer de caírem, estarei ali, tentarei salvar a menina, juro, só não posso prometer nada, não me cobrem.

Ninguém mexe com o velho, e isso merece um parágrafo, uma comemoração. Os bandidos daqui, ao menos os novatos, ainda respeitam os homens adultos que conduzem suas crianças, sei disso por experiência própria. Eles falam mais baixo quando passamos, evitam os palavrões e as fórmulas de ameaça, repreendem-se uns aos outros, nos abrem caminho, dão boa-tarde às meninas, até nos mostram dentes pouco treinados para o sorriso, fazendo com que nos sintamos meio femininos, meio emasculados. Mas está ótimo, admito. Não sei por quanto tempo isso ainda vai durar, essa trégua, acho até que está prestes a acabar, mas sem dúvida é ela que ainda nos permite viver e amar nesta cidade com cada vez menos recursos afetivos.

Ainda há, em todo caso, longos intervalos de paz. E a única vez em que vi o velho sem a menina foi à noite, num desses momentos em que a guerra se dilui em meio às luzes amarelas de Curitiba, ele sozinho, sentado num dos bancos da Pracinha do Amor. Eu passava por lá a caminho da panificadora Fênix, uma boa coincidência, e como notei que havia três estrelas no céu sobre a sinagoga, um luxo para os nossos padrões nublados, decidi me acomodar no banco diante dele e aproveitar o espetáculo noturno.

Era cedo, e o frio, um dos primeiros do ano, mesmo moderado, já bastava para espantar da área os traficantes e os malacos. Tudo estava calmo, o movimento nas ruas ainda intenso, o pessoal empreendendo aquela viagem diária de um sonho a outro sonho, saindo de seus escritórios e indo resgatar seus carros nos estacionamentos da Ébano, da Ermelino, da Saldanha.

Sereno, o velho olhava as moças que passavam. E as olhava com gosto e por hábito, como dizia o querido Ivan Angelo numa de suas crônicas bonitas, olhava porque fazia aquilo desde menino, e porque olhar as moças consertava o seu dia. As moças passavam por ele e por mim, e ele as apreciava, assim como eu, só que ele sem muita atenção ou meta, sem provocar nelas reação alguma, fosse de nojo, medo ou interesse, era somente um senhor de paletó num banco de praça, exercendo com maestria o seu maior poder, o de ser vagamente nebuloso, uma presença quase gasosa, uma vitalidade aerada treinando para a dispersão final.

Creio que só eu visse o velho, e ele não se incomodava com isso. Depois de cinco ou dez minutos, puxou do bolso interno um maço de cigarros. Acendeu um deles, não reconheci a marca, e começou a fumá-lo investigando o céu, o queixo erguido com dificuldade, o pescoço perdendo suas dobras. Sua vista, logo vi, devia estar péssima, pois não demorou muito e me disse, reclamando:

— Não tem mais estrelas nessa cidade.

Eu concordei, não tem mesmo, mas olhei para as três estrelas brilhando sobre nós e pensei que, em breve, eu também não as veria mais, e que importância elas deixariam de ter, então?

O velho fumava com prazer e calma, era outra pessoa, e nela não havia nenhum resquício de pressa ou remorso. Mas eu suspeitava de que ali, naquele banco de madeira, não estava o verdadeiro homem, a carcaça impossível de ser detida, e sim uma fantasia a que ele se entregava quem sabe se uma ou duas vezes por semana, se tanto.

É, o verdadeiro velho era o outro, era o lugar onde estava o seu amor, era aquela máquina engasgada movida a orgulhos e martírios, ladeira acima, barranco abaixo, era o burro, o reles burro, o eterno burro que, à beira dos abismos, ainda precisava transportar os seus bens mais preciosos, o capital da sua alma, as suas últimas esperanças.