Feitio de fábula

Hidra

Reprodução

 

Houve um tempo em que os homens criavam hidras. Cada pessoa tinha a sua, e o número de cabeças de cada monstro variava muito, dependendo da natureza de sua criação e do arejamento dos cativeiros. Fato é que as hidras, durante milênios, foram animais de hábitos exclusivamente domiciliares, nunca encontrados fora de seu lar de origem. Viviam sob a cama de seus donos, ou dentro de caixas de chapéu, atrás de lindos biombos e cortinas de filó, no fundo de garrafas ornamentais, poços desativados, fontes de jardim, potes de cerâmica. Temperamentais, não raro agressivas, pouco afeitas à vida pública, eram mantidas em casa, sob amorosa vigilância, a fim de evitar constrangimentos e eventuais prejuízos — sociais ou financeiros — a seus proprietários.

Por isso, quando surgiu e se disseminou a ideia de expô-las por aí, falou-se até em revolução. No dia tal, às tantas horas, todo mundo deveria sair às ruas, sem medo e sem vergonha, cada qual com sua hidra de estimação, para uma passeata libertadora. Parecia loucura, é claro, mas os telejornais — e seus anunciantes — compraram o projeto. Celebridades e marqueteiros se engajaram na campanha. Políticos juraram presença. Governantes garantiram a segurança de todos. Haveria trios elétricos, queima de fogos, coral infantil, banheiros químicos, policiamento, paramédicos, desfibriladores, comentaristas de tevê, culto ecumênico, consultoria sentimental gratuita, atendimento psiquiátrico, camas elásticas, massagistas de plantão. Parecia loucura, mas era a aposta do momento, um evento de todos e para todos, que contaria com o apoio das autoridades e com a cobertura da imprensa internacional. Sim, parecia loucura, e era.

No final, vocês conhecem a história, foi aquela carnificina, e até hoje não se sabe ao certo quem ou o que sobreviveu a ela.

Mas isso foi no tempo em que os homens falavam.

 

 

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