Mês: agosto 2014

Os casais

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Imagem: LHP

 

Ah, os casais que brigam em seus quartos de hotel, os casais que gritam, choram e se ofendem em seus quartos de hotel, saibam que eu, do lado de cá desta parede fina, torço por vocês com fé e sinceridade, e espero que até as cinco da manhã tudo se resolva da melhor forma, e que antes da alvorada, ao contrário do que ocorre comigo, vocês já estejam dormindo em paz e abraçados, sem que seja necessário, como os ouvi sugerirem há pouco, acabar com tudo e ir cada um para o seu canto do ringue, lá onde só a morte nos espera.

Ah, esses casais que brigam em seus quartos de hotel, são tantos e tão frágeis, eu os perdoo por me manterem acordado até esta hora, meus ouvidos atentos no escuro desta cova de aluguel, no aguardo do tiro, do pedido de socorro, da acusação de assassinato, estupro, traição, o ronco do frigobar antes insuportável agora encoberto pelo rugido do monstro de um ciúme que não me diz respeito, e pelo pregão do desamor alheio, e pelos pés gelados da mágoa, sem falar da promessa que pela vigésima sexta vez não se cumpriu, hoje não vou beber, amanhã será o nosso dia, minha atenção toda tua, só que não, não foi bem assim que aconteceu.

O que houve foi só um jantar que era para ser romântico, mas faliu, como faliram as velas e os violinos, as flores e os assuntos, e aquela comida semipronta, congelada meses atrás, à espera de vocês na cozinha fria do restaurante caro, dois reles pratos de macarrão levados ao micro-ondas, foram eles que puseram tudo a perder, tantos anos de investimento amoroso, tanto sacrifício emocional, tudo culpa do guia gastronômico, como vocês poderiam ter adivinhado?

Sim, eu os perdoo, ó casais briguentos de hotel, eu os perdoo e até os amo, pobres irmãos que gritam e choram na noite de uma cidade que não é a nossa, e os perdoo porque, apesar de me fazerem padecer de dores que não são minhas, eu sei que, embora pareçam sofrer aos pares, vocês sofrem sozinhos, e sequer precisam, sequer tomam conhecimento da tristezinha deste seu cordial vizinho de quarto, uma tristeza tão quieta e envergonhada perto da de vocês.

É por isso que eu os abraço, e lamento, e rezo para que fiquem bem, e que Deus os proteja, ó casais que brigam e se ferem em seus quartos de hotel, pois vocês não precisam da ajuda de mais ninguém para erigir o grande monumento de seus transtornos, ou para fazer soar e escandir o seu sofrimento por dois, três, quatro andares de corredores acarpetados de insônia, por onde vocês mesmos caminharam ainda ontem, ainda amorosos, ainda cheios de esperança, lembram dela, a esperança?

Ela é a última que dorme.

 

 

 

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Visita envergonhada (2)

Imagem: LHP

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Foi o Rubem Braga quem disse. Entre as dez coisas que fazem a vida valer a pena, está a seguinte: sair pela primeira vez pelas ruas de uma cidade estranha, achando que ali vão acontecer coisas surpreendentes e lindas. Concordo e acrescento: toda cidade é estranha, e toda vez será sempre a primeira. É que, na verdade, não conheço cidade que possamos chamar de nossa, e nem existe chão familiar. Tente tomar posse de uma única pedra, branca e portuguesa, na calçada da sua velha esquina. Ela reagirá, feito um dente brilhando ao sol. Você pode levá-la pra casa, trancá-la numa gaveta, é sua e acabou. Mas não: você abre a gaveta e lá está ela, a cidade, rosnando pra você. O canino eternamente sujo.

 

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Não há força mais bonita que a das resistências solitárias. Toda cidade é meio que o conjunto dessas forças.

 

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Tudo em Lages me lembra as pedras que, dizem, deram nome ao lugar. Saio do hotel e subo a Frei Rogério, em direção ao Centro, e é como se eu mesmo fosse uma estrutura de rochas mal animadas, frias, envoltas em lã. Duas quadras já bastam pra fazer esta estátua suar, água escorrendo na pedra. Ando por Lages e me sinto atravessado por uma pequena catarata, uma bica na serra catarinense, cristal gelado.

 

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Encontro uma escola antiga, rosada, toda coberta por uma imensa malha azul. Está em reformas. E o azul daquela malha é o exato azul do céu. A imagem me choca, me obriga a parar, o prédio e sua mortalha, meu deus, que coisa linda. Leio sobre a grande porta: Grupo Escolar Vidal Ramos, 1912. As letras quase escondidas pela ondulação da rede, lembrando uma vela, um navio em apuros, justamente por estar tão longe de qualquer mar. Não resisto e tiro uma foto. Encostado num automóvel em frente ao prédio, um homem tranquilo comenta comigo: “É, agosto é mês de vento, você sabe”. Não, não sei, mas finjo que sim. Na verdade, não faço a menor ideia. Ventos, desgostos, cachorros loucos, tanto faz, tudo tem dentes, tudo nos morde. Pra dizer alguma coisa, faço um comentário igualmente avoado: “Parece até que o céu caiu em cima dessa escola, veja”. Ele olha: primeiro pro azul da malha, depois pro azul do céu e, finalmente, pra mim. Está meio cabreiro. E pergunta: “O senhor é poeta?”. O senhor — notem que o sujeito já abandonou o tratamento informal.

 

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Não reconheço as árvores podadas às margens do Rio Cará. Não sobrou um galho, uma folha, só restaram os caules. E ficaram assim, parecendo uma paliçada quilométrica a separar água e asfalto. Dezenas de mãos contorcidas enfileiradas, dedos atorados, mas ainda súplices, eretos, segurando o céu lageano.

 

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Sento no Parque Jonas Ramos, quero apreciar o sobe-e-desce do repuxo. É bonito. O tanque está cheio de carpas, os peixes dourando a superfície quase sólida das águas. Há um barco vazio diante de mim, e duas garrafas plásticas querendo abordá-lo, beijando o casco da embarcação. Perco alguns minutos tentando decidir se os bichos esculpidos nos pedalinhos são gansos-canadenses ou cisnes-de-pescoço-preto, e essa dúvida me alegra. Perder tempo com ela me dá uma comovente sensação de felicidade.

 

21

Um homem se aproxima de mim, carregado de revistas antigas. Senta ao meu lado. Desprezou todos os bancos desocupados ao redor do tanque; ou seja, o melhor é eu me preparar para o baque. Aí vem coisa. Ele assopra a franja grisalha sobre a testa. Afasta dos olhos uma mecha mais rebelde e me diz querer um conselho, é de graça? Eu digo que depende. E ele decide arriscar. Conta que a mulher já tem mais de cinquenta e, ainda assim, continua engravidando duas vezes por ano, o que eu devo fazer, meu amigo? Pergunto quantos filhos eles têm e o cara me diz que não, nenhum, eles não têm nenhum filho, nunca tiveram, imagina, você entendeu mal. Nenhuma gravidez vingou, em mais de três décadas.

 

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Aquele homem sem filhos vê em mim o conselheiro ideal. O forasteiro ao sol, admirando gansos ou cisnes moldados em fibra de vidro. E insiste comigo, quer mesmo um conselho. Quer saber se deve continuar tentando, ou se deve desistir de ser pai. Eu digo que não sei, e peço desculpas por não saber. Ele agradece a minha sinceridade, pergunta meu nome, eu digo, e ele me garante que seu primogênito vai se chamar Luís. Antes de ir embora, porém, uma nova dúvida o atormenta: Luís com S ou com Z? Com S e acento agudo. Ele faz uma anotação na capa de uma de suas revistas, e meu nome vai embora com ele, debaixo de seu braço.

 

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Boto o celular no silencioso e entro na catedral de pedra de Lages. Os vitrais alemães me emocionam, fazem de mim um homem colorido e inesperadamente leve, apesar das roupas escuras, do casaco pesado, do suor ruim sob a lã molhada. Caminho até o caixão de vidro de Cristo e leio a inscrição numa placa triste: Senhor Morto. Uma mulher loura, já entrando na velhice, reza no banco de madeira ao lado da imagem. Sopra no ar uma sequência de sílabas e fonemas embolados, como bolhas envenenadas de sabão. Meus ouvidos se acostumam àqueles sussurros e, sem querer, decifram o que ela diz, quase que sem mexer os lábios: acorda, acorda, acorda, acorda.

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Um celular toca e nos assusta, interrompe a ladainha da senhora. É o toque da Nokia reverberando pela catedral de luz e pedra. Levo as mãos ao bolso, é automático, mas o meu telefone está no silencioso, estou inocente. O dela também está quieto, o som não vem da sua bolsa, nem de perto de nós. Olho em volta e não vejo ninguém, a igreja deserta. De repente, tudo se esclarece. Descubro de onde vem o chamado, só pode ser dali. Tem alguém no confessionário. E lá dentro é sempre noite.

 

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Acho que o Braga não era bem um otimista, e nem eu o sou. Mas concordo com ele: coisas lindas e surpreendentes acontecem. Apesar das nossas expectativas.

 

Nossos piores políticos

Carola Saavedra 4_Andrea Marques

Carola Saavedra (imagem: Andrea Marques)

Acaba de sair a terceira edição da revista Mapa, uma publicação da editora Arte & Letra. Nela, publico um texto sobre o romance O inventário das coisas ausentes, de Carola Saavedra. Abaixo, vão os primeiros parágrafos da resenha. Para ler tudo, é só escrever para a revista Mapa (mapa@arteeletra.com.br), mandar seu endereço e esperar. Você vai receber a publicação em casa, gratuitamente.

Um homem muito religioso, líder de certa Igreja Presbiteriana Fundamentalista, descobre que está morrendo. Minado por uma doença misteriosa, apela aos melhores médicos norte-americanos, que lhe dão somente seis meses de vida. Inconformado, o reverendo, de cerca de 50 anos, parte para a Amazônia, onde planeja consultar um famoso curandeiro, velho conhecido de seus tempos de missionário. Pouco convencional, o pajé acredita que as doenças, todas elas, seriam causadas pela ação espiritual de nossos antepassados, fantasmas que se recusam a nos abandonar, não por afeição, mas por ainda desejarem exercer, sobre o mundo físico, alguma influência política. E pontifica: “Não há políticos piores do que os mortos. Amorais, são capazes de tudo. É preciso convencê-los a partir, o que não é nada fácil”.

É essa dificuldade de cura e de expulsão que habita o cerne do livro O inventário das coisas ausentes, de Carola Saavedra. Nele, um escritor de meia-idade tenta se libertar da incômoda lembrança de Nina, uma garota que conheceu na universidade e com quem viveu um amor efêmero, mas marcante, principalmente pelo modo como se desfez. Numa noite comum, Nina presenteou o namorado com uma caixa contendo uma série de diários íntimos, 17 cadernos cheios de “digressões sem sentido, filosofias baratas, histórias de família”. E, logo em seguida, sem dar qualquer explicação, desapareceu por 14 anos. Ou seja, Nina se tornou um desses fantasmas que precisamos convencer a partir.

O romance de Carola é o relato desse confronto entre um homem e sua história pregressa, um escritor, suas memórias e o uso que se pode fazer delas. Mais que um romance sobre o amor, sua origem e seu desaparecimento, O inventário das coisas ausentes é uma narrativa experimental e alegórica sobre o passado e a maneira como lidamos ou deixamos de lidar com ele — ou, empunhando a faca pela outra ponta, a maneira como o passado nos resolve ou deixa de resolver. Porque Nina, claro, não é apenas uma moça inconsequente. Quando o narrador de Carola reconstrói o episódio em que finalmente a reencontra, num restaurante qualquer, ele a descreve como sendo o próprio “passado que reaparece”. E Nina, por sua vez, o encara “como se examinasse um quadro, uma foto antiga”.

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Leia mais na revista Mapa.

[O inventário das coisas ausentes, Carola Saavedra, Companhia das Letras, 122 págs.]

Visita envergonhada

Cardeal Arcoverde, Pinheiros/Eduardo Aguiar

1

Cronista em cidade dos outros é visita envergonhada, pra tudo pede licença.

 

2

Ainda não sou íntimo de Pinheiros, e me limito a andar pela Pedroso de Morais, pra cima e pra baixo, atrás de quem me autorize a olhar o bairro. Antes de escrever sobre uma rua, é bom ler no calçamento a história de suas pedras. Calcular a idade do asfalto, a saúde dos fios de luz. No fim, a gente pega o jeito, e extrai de cada poste uma notícia das nossas sombras.

 

3

A figuração em Pinheiros é abundante, mas não demoro a escalar uma protagonista. Aqui está, é linda. Paro debaixo dela, olho pro alto e deixo que a escolhida escureça meu rosto com sua grandeza. É uma falsa-seringueira, deve ter mais ou menos quarenta anos, assim como eu. Aposto que já se acostumou à injustiça dos homens: tristeza chamar de falsa uma criatura assim, tão escandalosa e indiferente. Quem poderá dizer que conheceu as intenções duma planta?

 

4

Sua copa é uma noite portátil na tarde de São Paulo.

 

5

Dos galhos desta árvore descem raízes aéreas, uma fina cabeleira castanha. Ela se precipita no nada, balança ao vento, no suave desespero de alcançar o chão. Os galhos da falsa-seringueira sofrem de saudade e vertigem, até parecem gente louca, descabelada de esperança, quem mandou subirem tanto?

 

6

Mas não, esses cipós não agarram coisa alguma, e nem são cipós de verdade, apenas se lançam lá de cima, no máximo roçam a terra arisca, já saturada de outras madeiras. A cabeleira castanha da árvore forma uma cortina bonita, mas inútil: atrás dela nenhum espetáculo à nossa espera. Nada acontece. E mesmo assim a gente aguarda.

 

7

É agradável debaixo da falsa-seringueira, a sombra é boa. O dia não está quente, mas o sol de inverno incomoda, melhor ficar aqui, já estou suando. Tiro o paletó, vim a trabalho, não posso esquecer, tenho meus horários, as reuniões marcadas. De repente, um pedido de licença: é um carroceiro atarefado, sem camisa, que quer passar. No peito do homem, um crucifixo de plástico. De certo modo ele é também um rebocador de mortos, vai encaminhando à reciclagem a sua montanha de refugos condenados. Hoje em dia até o lixo ressuscita.

 

8

O carrinho deste homem é um carrinho comum, e avança em marcha lenta, a calçada não ajuda. Especial mesmo é a carga que ele transporta. Decerto limpou a lixeira duma grande fábrica de disfarces. O veículo vem carregado de retalhos de fantasias e máscaras, em isopor e espuma, pena e lantejoula. Anjo de luz, dragão descamado, urso sarnento, cabeça de sapo.

 

9

No meio de tudo aquilo, o destaque. A estrela sem brilho da carroça alegórica. A triste mulher vestida de gata. Com orelhinhas, rabo torto e gravata-borboleta, tudo em preto e branco. Está sentada de lado sobre as pernas magras, numa pose de rocha e derrota. Ela se fantasiou de gatinha, mas é uma péssima atriz, não convence. Ou vai ver já nem sabe o que é um gato: em seu rosto, em seu corpo, não se vê sinal de felinidade. Passam por mim, ele e ela, o vagão e a locomotiva, como o vento pela copa da falsa-seringueira. Viram à direita na Navarro e somem. Sigo na direção oposta, até o meu hotel, na esquina da Artur Azevedo. Tenho compromissos, é preciso estar preparado. E sumo.

 

10

O tempo que perdemos temperando a água do banho nos hotéis. É exasperante. Ora muito quente, ora muito fria. As torneiras não nos obedecem, e são tão caprichosas as letras Q e F. Me forço a imaginar novas palavras pra essas mesmas iniciais, novos líquidos pra velhas torneiras, e é assim que exercito minha paciência. Ó céus, o tempo que perdemos, nus e com frio, temperando a água do banho nos hotéis.

 

11

Estou num bom quarto. Bom, mas baixo, no primeiro andar. O trânsito na Artur Azevedo, à noite, às vezes me desperta, mas me acostumo rápido, logo estou dormindo de novo, minha alma anda mais leve que de costume, o cansaço de hoje maior que os incômodos de amanhã. A isso há quem chame de felicidade.

 

Choro

Imagem: Eduardo Aguiar

 

12

De madrugada, acordo com um barulho diferente, um choro de criança, um gemido enjoado, não sei. Levanto e vou à janela verificar a movimentação na esquina. Em frente à portinha da Deus É Amor, vejo a carroça de puxar papel. É a mesma que vi horas antes. E dentro dela, o mesmo casal que encontrei à tarde, debaixo da grande árvore. Agora estão engatados um no outro, e ronronam, e miam, e eriçam o pelo das costas e do rabo enquanto afundam, devagar e ruidosamente, em sua cama de entulho colorido. Transplantada pra debaixo da minha janela, a falsa-seringueira da Pedroso de Morais vela pelo amor dos gatos.

 

13

Acordo e, ainda bem, o sonho é interrompido. Só que aí me vem a dúvida. Sabemos exatamente quando os sonhos acabam. Mas quando começam? Antes ou depois de irmos pra cama?

 

14

Deus é o amor dos gatos.