Os casais

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Imagem: LHP

 

Ah, os casais que brigam em seus quartos de hotel, os casais que gritam, choram e se ofendem em seus quartos de hotel, saibam que eu, do lado de cá desta parede fina, torço por vocês com fé e sinceridade, e espero que até as cinco da manhã tudo se resolva da melhor forma, e que antes da alvorada, ao contrário do que ocorre comigo, vocês já estejam dormindo em paz e abraçados, sem que seja necessário, como os ouvi sugerirem há pouco, acabar com tudo e ir cada um para o seu canto do ringue, lá onde só a morte nos espera.

Ah, esses casais que brigam em seus quartos de hotel, são tantos e tão frágeis, eu os perdoo por me manterem acordado até esta hora, meus ouvidos atentos no escuro desta cova de aluguel, no aguardo do tiro, do pedido de socorro, da acusação de assassinato, estupro, traição, o ronco do frigobar antes insuportável agora encoberto pelo rugido do monstro de um ciúme que não me diz respeito, e pelo pregão do desamor alheio, e pelos pés gelados da mágoa, sem falar da promessa que pela vigésima sexta vez não se cumpriu, hoje não vou beber, amanhã será o nosso dia, minha atenção toda tua, só que não, não foi bem assim que aconteceu.

O que houve foi só um jantar que era para ser romântico, mas faliu, como faliram as velas e os violinos, as flores e os assuntos, e aquela comida semipronta, congelada meses atrás, à espera de vocês na cozinha fria do restaurante caro, dois reles pratos de macarrão levados ao micro-ondas, foram eles que puseram tudo a perder, tantos anos de investimento amoroso, tanto sacrifício emocional, tudo culpa do guia gastronômico, como vocês poderiam ter adivinhado?

Sim, eu os perdoo, ó casais briguentos de hotel, eu os perdoo e até os amo, pobres irmãos que gritam e choram na noite de uma cidade que não é a nossa, e os perdoo porque, apesar de me fazerem padecer de dores que não são minhas, eu sei que, embora pareçam sofrer aos pares, vocês sofrem sozinhos, e sequer precisam, sequer tomam conhecimento da tristezinha deste seu cordial vizinho de quarto, uma tristeza tão quieta e envergonhada perto da de vocês.

É por isso que eu os abraço, e lamento, e rezo para que fiquem bem, e que Deus os proteja, ó casais que brigam e se ferem em seus quartos de hotel, pois vocês não precisam da ajuda de mais ninguém para erigir o grande monumento de seus transtornos, ou para fazer soar e escandir o seu sofrimento por dois, três, quatro andares de corredores acarpetados de insônia, por onde vocês mesmos caminharam ainda ontem, ainda amorosos, ainda cheios de esperança, lembram dela, a esperança?

Ela é a última que dorme.

 

 

 

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5 comentários

  1. Em breve escolherei um de seus contos, no qual eu vou me inspirar pra escrever o roteiro do curta-metragem de conclusão do meu curso de audiovisual. Muito obrigado. Não o conhecia, mas depois que o professor nos indicou seus contos, li e gostei muito.

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