Nossos piores políticos

Carola Saavedra 4_Andrea Marques

Carola Saavedra (imagem: Andrea Marques)

Acaba de sair a terceira edição da revista Mapa, uma publicação da editora Arte & Letra. Nela, publico um texto sobre o romance O inventário das coisas ausentes, de Carola Saavedra. Abaixo, vão os primeiros parágrafos da resenha. Para ler tudo, é só escrever para a revista Mapa (mapa@arteeletra.com.br), mandar seu endereço e esperar. Você vai receber a publicação em casa, gratuitamente.

Um homem muito religioso, líder de certa Igreja Presbiteriana Fundamentalista, descobre que está morrendo. Minado por uma doença misteriosa, apela aos melhores médicos norte-americanos, que lhe dão somente seis meses de vida. Inconformado, o reverendo, de cerca de 50 anos, parte para a Amazônia, onde planeja consultar um famoso curandeiro, velho conhecido de seus tempos de missionário. Pouco convencional, o pajé acredita que as doenças, todas elas, seriam causadas pela ação espiritual de nossos antepassados, fantasmas que se recusam a nos abandonar, não por afeição, mas por ainda desejarem exercer, sobre o mundo físico, alguma influência política. E pontifica: “Não há políticos piores do que os mortos. Amorais, são capazes de tudo. É preciso convencê-los a partir, o que não é nada fácil”.

É essa dificuldade de cura e de expulsão que habita o cerne do livro O inventário das coisas ausentes, de Carola Saavedra. Nele, um escritor de meia-idade tenta se libertar da incômoda lembrança de Nina, uma garota que conheceu na universidade e com quem viveu um amor efêmero, mas marcante, principalmente pelo modo como se desfez. Numa noite comum, Nina presenteou o namorado com uma caixa contendo uma série de diários íntimos, 17 cadernos cheios de “digressões sem sentido, filosofias baratas, histórias de família”. E, logo em seguida, sem dar qualquer explicação, desapareceu por 14 anos. Ou seja, Nina se tornou um desses fantasmas que precisamos convencer a partir.

O romance de Carola é o relato desse confronto entre um homem e sua história pregressa, um escritor, suas memórias e o uso que se pode fazer delas. Mais que um romance sobre o amor, sua origem e seu desaparecimento, O inventário das coisas ausentes é uma narrativa experimental e alegórica sobre o passado e a maneira como lidamos ou deixamos de lidar com ele — ou, empunhando a faca pela outra ponta, a maneira como o passado nos resolve ou deixa de resolver. Porque Nina, claro, não é apenas uma moça inconsequente. Quando o narrador de Carola reconstrói o episódio em que finalmente a reencontra, num restaurante qualquer, ele a descreve como sendo o próprio “passado que reaparece”. E Nina, por sua vez, o encara “como se examinasse um quadro, uma foto antiga”.

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Leia mais na revista Mapa.

[O inventário das coisas ausentes, Carola Saavedra, Companhia das Letras, 122 págs.]

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