Bendita blusinha

bus

Imagem: Eduardo Aguiar

 

Ela atravessou a rua na pior hora, o ônibus já abrindo pra fazer a curva e a Cândido Lopes vazia diante dele. Vi que o motorista estava tranquilo, a cara descongestionada como o tráfego, negócio raro, um homem sozinho e aquele asfalto todo só pra ele, seus passageiros silenciosos, gente boa, e o reflexo do sinal verde riscando o para-brisa, tudo favorável.

Menos pra ela. A mulher errou, confiou demais nas pernas e nas forças, não devia, mas confiou. Se corresse, ela tinha a certeza, estaria tudo bem, e por isso mandou um trote curto, sequer olhou pros lados, só pra calçada ali em frente, questão de cinco passos e um pulo, dois, três segundos em linha reta e pronto.

Mas não, pena que não era tão simples, nada é, e ela carregava muita coisa além da meia-idade e uns quilos a mais. Falo somente do que pude ver e registrar, claro, pois sei que há cargas ainda maiores, absolutamente invisíveis.

Era uma manhã gelada, e a mulher vinha de cachecol e cacharrel subindo a Marechal, de sobretudo e calça colante, botas de cano alto, saltos idem. Não estava fácil pra ela, não: trazia uma sombrinha fechada presa ao punho, e a mochila pendurada ao contrário, sobre os peitos, pra evitar ladrão, e mais duas sacolas de butique numa só mão, das ruins de segurar, e uma pasta gorda de papéis debaixo do braço. Tudo isso fora a maçaroca de panos sobre os ombros e ao redor do pescoço, mantas, xales, roupas sobressalentes, sei lá, impossível entender o arranjo. Só sei que era inevitável que algo, daquilo tudo, caísse durante a travessia da Cândido Lopes, e bem no meio da rua, diante do ônibus que já abria pra fazer a curva.

Não deu outra. A mulher seguiu o plano, deu cinco passos e um pulo, chegou à calçada, mas, esperem, algo ficou pra trás: no asfalto, largada, restou uma blusa pequena, vermelha, de tricô, pontos grossos, um trabalho refinado prestes a ser destruído, que dó, já era.

Ou não: ao perceber que a tinha perdido, a mulher deu meia-volta e voou apanhá-la. Coragem ou desatenção? Abaixou-se ali, a inocente, sem tomar conhecimento do veículo que avançava sobre ela. Meia dúzia de passantes gritou cuidado, meu deus, olha o ônibus, e o motorista, aquele da cara descongestionada, pisou no freio até quase partir o joelho, coitado, o solavanco amontoando os passageiros uns sobre os outros, mas todos se chocando em silêncio, quase organizadamente, pois eram curitibanos acidentados, e fazemos nossos cálculos antes de gritar de dor ou de medo, temos vergonha até de sangrar, tão ridículo é ferir-se.

Só que tudo bem, ninguém se machucou, não dessa vez, nenhum sangue à vista, nenhum osso exposto, e a mulher foi salva do atropelamento por um palmo de distância, não é exagero, eu juro. Blusa vermelha recuperada, atirou-a sobre o ombro e caiu fora, nem agradeceu ao motorista, nem se desculpou, um absurdo. Apenas saltou de novo em direção à calçada e sumiu na Praça Tiradentes, bem viva e ilesa, quem sabe imortal, não duvido de nada.

O povo à porta dos comércios não a perdoou, mas que idiota, essa daí merecia ter morrido, ah, merecia sim. Por uma blusa, diziam todos, por uma bendita blusinha vermelha de tricô, quem diria, vê se tem cabimento, por uma blusa, e teve até quem berrasse, ao vê-la desaparecer entre as figueiras da praça, ó sua louca, o tipo dessa imbecil, abre o olho, bicho burro irresponsável, tinha que ser mulher, só podia, afinal, por uma blusa, lançar-se assim, desvairada, sob os eixos de um ônibus?

Débil mental, nada menos que isso, ela era uma débil mental, a suicida que nasceu de novo e acabou rebatizada pelo povo, a louca, a retardada perfeita, diziam todos, uns na porta do hotel, outros na entrada do banco, no ponto de táxi, sob o toldo das lanchonetes. Cem juízes de pastel na mão, duzentos promotores com a boca cheia de farelos, todos proferiam seus duros vereditos, pois essa merecia, ah, mas tinha que ser é virada do avesso, precisava mesmo de ser internada, melhor estivesse ali mesmo, bem esmagada, e não à solta pela cidade, já imaginaram, o corpinho sendo arrastado defronte à escadaria da Biblioteca Pública, a marca horripilante dos pneus, aquela freada dupla com cabelos, já imaginaram, e de que adianta uma pessoa assim viver no mundo, um risco à segurança de todos, antes ela do que nós, já pensaram nisso?

Sim, todos já haviam pensado em tudo, mas a ninguém ocorreu, e nem a mim, buscar entender que blusa era aquela. Ah, a bendita blusinha, tricô dos anjos, a quem será que vestiria logo mais, talvez ainda naquele mesmo dia de frio em Curitiba? A quem a mulher maluca, tão agasalhada, já a teria destinado, aonde corria com tanta pressa? Quem a tricotou, bendita blusinha, e há quantos anos, ou meses, ou noites, e com que fim? O de vendê-la numa feira de artesanato, presentear um neto ou uma filha, doá-la a um menino sem futuro, a uma instituição de outros doidos?

Não, ninguém notou, naquela blusa, a sua trama de mistérios. Ninguém viu que, ao apanhá-la do asfalto, o ônibus já a dois metros de seu coração, sua cabeleira ondulando conforme a respiração quente do motor, aquela mulher logo mergulhou nela o rosto pálido, viciada, e aspirou profundamente a sua lã de fios vermelhos, e pensou que, nossa, essa foi por pouco, por muito pouco mesmo, quase perco esta blusinha querida e, ah, eu não me perdoaria jamais.

E a ninguém ali ocorreu, e nem a mim, que o motorista do ônibus também não mereceria carregar aquela morte nas costas até o fim de sua trajetória de homem de bem. Pois a cada noite, deitado em sua cama de casal, ao lado da esposa adormecida, é certo que se lembraria não do cadáver da mulher apressada, tralha presa ao para-choque dos seus sonhos e pesadelos, mas sim dos contornos já lasseados daquela bendita blusinha vermelha atropelada.

E sempre que a visse por aí, aquela peça de roupa tão comum, encontrável em qualquer balaio do Centro, sempre que a descobrisse, sei lá, vestindo sua filha, sua mãe ou sua esposa, cobrindo os seios de uma bela artista de novela ou o colo de uma cantora sertaneja famosa, aquecendo a respeitável mulher do pastor ou a nova cobradora de sua nova linha, aquele motorista sentiria mais uma vez a perna esticar-se, longa e incontrolável, e seriam dez quilômetros de perna numa cãibra mortal, irreversível, à procura do freio de todas as coisas.

E a ninguém ocorreu, nem a mim, naquela hora ruim em que a mulher decidiu atravessar a rua, aquele momento em que todos nos unimos numa fraternidade de bom senso, ódio e precipitação, que a blusa vermelha daquela mulher era, na verdade, a sua asa de sereia, a parte indecifrada de suas posses, o apêndice secreto de cada um, e que, como tal, permaneceria para sempre intocada, protegida, inviolável.

Ninguém percebeu, e eu muito menos, que aquela mulher, ao apanhar sua blusa e debruçar-se diante da morte, não corria risco algum.

 

 

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