Mês: maio 2014

Bendita blusinha

bus

Imagem: Eduardo Aguiar

 

Ela atravessou a rua na pior hora, o ônibus já abrindo pra fazer a curva e a Cândido Lopes vazia diante dele. Vi que o motorista estava tranquilo, a cara descongestionada como o tráfego, negócio raro, um homem sozinho e aquele asfalto todo só pra ele, seus passageiros silenciosos, gente boa, e o reflexo do sinal verde riscando o para-brisa, tudo favorável.

Menos pra ela. A mulher errou, confiou demais nas pernas e nas forças, não devia, mas confiou. Se corresse, ela tinha a certeza, estaria tudo bem, e por isso mandou um trote curto, sequer olhou pros lados, só pra calçada ali em frente, questão de cinco passos e um pulo, dois, três segundos em linha reta e pronto.

Mas não, pena que não era tão simples, nada é, e ela carregava muita coisa além da meia-idade e uns quilos a mais. Falo somente do que pude ver e registrar, claro, pois sei que há cargas ainda maiores, absolutamente invisíveis.

Era uma manhã gelada, e a mulher vinha de cachecol e cacharrel subindo a Marechal, de sobretudo e calça colante, botas de cano alto, saltos idem. Não estava fácil pra ela, não: trazia uma sombrinha fechada presa ao punho, e a mochila pendurada ao contrário, sobre os peitos, pra evitar ladrão, e mais duas sacolas de butique numa só mão, das ruins de segurar, e uma pasta gorda de papéis debaixo do braço. Tudo isso fora a maçaroca de panos sobre os ombros e ao redor do pescoço, mantas, xales, roupas sobressalentes, sei lá, impossível entender o arranjo. Só sei que era inevitável que algo, daquilo tudo, caísse durante a travessia da Cândido Lopes, e bem no meio da rua, diante do ônibus que já abria pra fazer a curva.

Não deu outra. A mulher seguiu o plano, deu cinco passos e um pulo, chegou à calçada, mas, esperem, algo ficou pra trás: no asfalto, largada, restou uma blusa pequena, vermelha, de tricô, pontos grossos, um trabalho refinado prestes a ser destruído, que dó, já era.

Ou não: ao perceber que a tinha perdido, a mulher deu meia-volta e voou apanhá-la. Coragem ou desatenção? Abaixou-se ali, a inocente, sem tomar conhecimento do veículo que avançava sobre ela. Meia dúzia de passantes gritou cuidado, meu deus, olha o ônibus, e o motorista, aquele da cara descongestionada, pisou no freio até quase partir o joelho, coitado, o solavanco amontoando os passageiros uns sobre os outros, mas todos se chocando em silêncio, quase organizadamente, pois eram curitibanos acidentados, e fazemos nossos cálculos antes de gritar de dor ou de medo, temos vergonha até de sangrar, tão ridículo é ferir-se.

Só que tudo bem, ninguém se machucou, não dessa vez, nenhum sangue à vista, nenhum osso exposto, e a mulher foi salva do atropelamento por um palmo de distância, não é exagero, eu juro. Blusa vermelha recuperada, atirou-a sobre o ombro e caiu fora, nem agradeceu ao motorista, nem se desculpou, um absurdo. Apenas saltou de novo em direção à calçada e sumiu na Praça Tiradentes, bem viva e ilesa, quem sabe imortal, não duvido de nada.

O povo à porta dos comércios não a perdoou, mas que idiota, essa daí merecia ter morrido, ah, merecia sim. Por uma blusa, diziam todos, por uma bendita blusinha vermelha de tricô, quem diria, vê se tem cabimento, por uma blusa, e teve até quem berrasse, ao vê-la desaparecer entre as figueiras da praça, ó sua louca, o tipo dessa imbecil, abre o olho, bicho burro irresponsável, tinha que ser mulher, só podia, afinal, por uma blusa, lançar-se assim, desvairada, sob os eixos de um ônibus?

Débil mental, nada menos que isso, ela era uma débil mental, a suicida que nasceu de novo e acabou rebatizada pelo povo, a louca, a retardada perfeita, diziam todos, uns na porta do hotel, outros na entrada do banco, no ponto de táxi, sob o toldo das lanchonetes. Cem juízes de pastel na mão, duzentos promotores com a boca cheia de farelos, todos proferiam seus duros vereditos, pois essa merecia, ah, mas tinha que ser é virada do avesso, precisava mesmo de ser internada, melhor estivesse ali mesmo, bem esmagada, e não à solta pela cidade, já imaginaram, o corpinho sendo arrastado defronte à escadaria da Biblioteca Pública, a marca horripilante dos pneus, aquela freada dupla com cabelos, já imaginaram, e de que adianta uma pessoa assim viver no mundo, um risco à segurança de todos, antes ela do que nós, já pensaram nisso?

Sim, todos já haviam pensado em tudo, mas a ninguém ocorreu, e nem a mim, buscar entender que blusa era aquela. Ah, a bendita blusinha, tricô dos anjos, a quem será que vestiria logo mais, talvez ainda naquele mesmo dia de frio em Curitiba? A quem a mulher maluca, tão agasalhada, já a teria destinado, aonde corria com tanta pressa? Quem a tricotou, bendita blusinha, e há quantos anos, ou meses, ou noites, e com que fim? O de vendê-la numa feira de artesanato, presentear um neto ou uma filha, doá-la a um menino sem futuro, a uma instituição de outros doidos?

Não, ninguém notou, naquela blusa, a sua trama de mistérios. Ninguém viu que, ao apanhá-la do asfalto, o ônibus já a dois metros de seu coração, sua cabeleira ondulando conforme a respiração quente do motor, aquela mulher logo mergulhou nela o rosto pálido, viciada, e aspirou profundamente a sua lã de fios vermelhos, e pensou que, nossa, essa foi por pouco, por muito pouco mesmo, quase perco esta blusinha querida e, ah, eu não me perdoaria jamais.

E a ninguém ali ocorreu, e nem a mim, que o motorista do ônibus também não mereceria carregar aquela morte nas costas até o fim de sua trajetória de homem de bem. Pois a cada noite, deitado em sua cama de casal, ao lado da esposa adormecida, é certo que se lembraria não do cadáver da mulher apressada, tralha presa ao para-choque dos seus sonhos e pesadelos, mas sim dos contornos já lasseados daquela bendita blusinha vermelha atropelada.

E sempre que a visse por aí, aquela peça de roupa tão comum, encontrável em qualquer balaio do Centro, sempre que a descobrisse, sei lá, vestindo sua filha, sua mãe ou sua esposa, cobrindo os seios de uma bela artista de novela ou o colo de uma cantora sertaneja famosa, aquecendo a respeitável mulher do pastor ou a nova cobradora de sua nova linha, aquele motorista sentiria mais uma vez a perna esticar-se, longa e incontrolável, e seriam dez quilômetros de perna numa cãibra mortal, irreversível, à procura do freio de todas as coisas.

E a ninguém ocorreu, nem a mim, naquela hora ruim em que a mulher decidiu atravessar a rua, aquele momento em que todos nos unimos numa fraternidade de bom senso, ódio e precipitação, que a blusa vermelha daquela mulher era, na verdade, a sua asa de sereia, a parte indecifrada de suas posses, o apêndice secreto de cada um, e que, como tal, permaneceria para sempre intocada, protegida, inviolável.

Ninguém percebeu, e eu muito menos, que aquela mulher, ao apanhar sua blusa e debruçar-se diante da morte, não corria risco algum.

 

 

Pedágios e invocações

 

Invocações

Imagem: Eduardo Aguiar

 

Um homem igual a mim, e que atende pelo meu nome, passa três vezes por semana, às segundas, quartas e sextas, pelo calçadão da Monsenhor Celso, bem ali onde a rua desemboca, ruidosa, na correnteza da Praça Tiradentes. É uma encruzilhada típica, um triste ponto de pedágios e invocações, compras e vendas. E sempre que enfrenta o velho cruzamento, pela manhã, o homem que usa o meu nome, assim como toda gente, é obrigado a deixar no local uma dádiva, uma oferenda, uma paga. Ele deixa. Mas até hoje não descobriu exatamente o quê.

Uma mulher atarracada e sem pescoço, vestindo blusa e gorro de lã, é a primeira a abordá-lo. Ela o elege entre tantos pedestres, é aquele, o macho de meia idade, nunca falha. Estende ao homem um panfleto em papel brilhante, ilustração e legendas coloridas. O conteúdo varia, mas a mensagem, em geral, é a mesma. No panfleto retangular, o que se lê é algo como SÓ FERAS, ou GATAS D4, as letras e os números de telefone em amarelo, rosa e roxo, acompanhando fotos reais e sem retoques de belas moças nuas, em posição invariavelmente quadrúpede.

O homem diz não, obrigado, despreza a isca da mulher atarracada, que no fundo não dá a mínima para ele, sequer o olhou nos olhos. Aquela é só mais uma rejeição em sua vida, e dessa vez a rejeitada nem foi ela, ela está de pé, vejam, o corpo ereto, e não rastejante, como a beleza irretocável nos papéis que distribui.

Mais adiante, o homem que usa o meu nome é chamado por outra mulher, que não sabe o nome dele, e por isso o chama de amigo. Ela é bonita, não tanto quanto a moça de quatro do panfleto, mas é alta e loura, bem maquiada, e veste roupas sóbrias, parece confiável, por que não parar para ouvi-la? Ela posa ao lado de um cavalete cheio de revistas, sentinela, despertai, renasçamos, coisas assim, e diz bom dia, amigo, você já conhece nossas publicações, pode pegar uma, vem cá, vem que é de graça, olha a oportunidade.

Mas o homem diz não, obrigado, e a mulher bonita se ressente um pouco, normal, e até desiste de sorrir. Recusar uma oferta sua é como dizer não à própria pureza, reclamar de uma manhã de sol, de um céu azul, e puxa, foi para ele que ela se vestiu ao acordar, foi para ele que se perfumou, e lavou os cabelos, e redesenhou a boca com um batom claro, discreto, mas atraente. Afinal, o que quer este homem que segue impassível, para onde ele vai, quem o espera, por que não me compra, e para quem já terá se vendido?

Ninguém sabe, nem ele. Dois, três, quatro passos mais e uma terceira mulher lhe aparece, uma senhora em roupas menores, desprotegida no outono curitibano, coitada, as pernas finas e a cintura tão larga, os ombros caídos e o rosto rude, o tédio em meias-arrastão. Ela emparelha com o homem que usa o meu nome e cochicha assim, sem convicção nenhuma, vontade zero, vamos lá? É uma pergunta mecânica, e sua voz, ao perguntar, soa como se saísse de um robô anacrônico, sim, ela é tecnologia ultrapassada e se comporta como tal, uma máquina sem fé, lampadinhas pifadas, produzindo um sussurro metálico, vamos lá? E é com ouvidos de lata e ferrugem que essa terceira mulher escuta um terceiro não, obrigado.

Agora é a vez do cara da agência de empregos, um sujeito grande e sanguíneo. Ele vai seco, confiante, na direção de sua caça, e pretende atacá-la com seus punhados de filipetas vagabundas, armadilhas em papel-jornal, e melhor seria se fossem tecidas em papel pega-moscas, esses recadinhos em preto e branco para quem perdeu não a esperança, mas o direito de exigi-la em papel de qualidade. O cara da agência de empregos estica um de seus panfletos para o homem que usa o meu nome, seu imenso braço tipo uma cancela a lhe barrar a passagem. Mas não, o outro não lhe dá atenção alguma, e passa batido por ele, não diz não nem agradece, já está de saco cheio daquilo, cai fora.

E só então o último da fila, o moço-sanduíche do restaurante popular. Um rapaz miúdo que garante, aos berros, que a comida preparada logo ali é muito boa, barata e caseira, e nos promete que seremos atendidos como reis e rainhas, embora nosso reinado, infelizmente, tenha de durar pouco, pois o serviço por lá é rápido e eficiente, e quando você vê, já está na rua de novo, a digestão bem adiantada, satisfação absoluta e felicidade à vontade, e felicidade, acreditem, por somente seis reais, é pegar ou largar, você me dá seis reais e eu te dou lasanha, feijão e frango frito, garçonete, televisão e cafezinho, adoçante ou açúcar, você escolhe, tudo de bandeja para nós.

Sem saber por que razão, o homem que usa o meu nome recolhe a filipeta do moço-sanduíche, é possível que goste do sujeito, e agora é ele quem age como um autômato. Estica a mão, os dedos em pinça, e apanha o papel (brilhante) que o moço-sanduíche lhe oferece, mas apenas para atirá-lo na lixeira ali em frente, sempre cuidando, é claro, para que o rapaz não o veja se desfazendo de suas ofertas de alegria, poder e paraíso, pois não quer ofendê-lo, ninguém quer, mas, engraçado, todo mundo o ofende, pobre menino.

***

Nas terças e quintas, porém, outro homem igual a mim passa por aquela mesma encruzilhada. E ele também usa o meu nome. A diferença é que este homem, sempre disposto, ainda forte, tão forte quanto eu, traz na garupa uma menina, sua filha.

A mulher atarracada não o detecta, a paternidade é o seu manto da invisibilidade, e ele a trespassa incólume, somente um tanto incomodado, uma coceirinha nos olhos, outra no nariz; ele a trespassa não como se fosse o vento entre as Arcadas do Pelourinho, mas como se a mulher atarracada fosse uma teia de aranha inútil, sem cola, à espera do espanador. Já a mulher bonita se dirige não ao homem com a menina na garupa, mas à própria menina, quer ganhar uma revistinha, minha princesa? E a terceira mulher, a velha senhora oferecida, nestas manhãs de terça e quinta nem se oferece mais, não a este cliente, apenas se contenta em acenar para a filha dele, que amor que ela é, e trocam beijos entre si, a senhora e a criança, e os sopram no ar frio, os beijos quentes fumaceando, e os capturam feito borboletas apetitosas, com a delicadeza, a fome, a precisão dos passarinhos.

O cara da agência de empregos se recolhe à passagem da dupla, dá as costas ao seu avanço e se afasta apressado, o que adianta? Os papéis vagabundos em suas mãos se incendeiam, ele tenta escondê-los, guardá-los no bolso, mas suas calças também se queimam, suas unhas faíscam, e em poucos segundos ele vira uma tocha subumana, uma fogueira sem vaidades consumindo a si mesma, adeus, braseiro miserável, apagando-se num redemoinho de cinzas.

O moço-sanduíche não, é de outra estirpe, orgulhoso. Ele se mantém inteiro, e reage naturalmente, parece íntegro, e talvez até o seja, guarda um sorriso sincero para a menina, que sorri de volta. É para ela que o rapaz dirige o seu papelzinho colorido e brilhante, o pai não interessa, jamais interessou. A menina apanha o panfleto e agradece, obrigada, e o moço-sanduíche diz de nada, embora não prometa mais coisa alguma, nem comida boa, barata e caseira, nem felicidade à vontade, pois sabe que para uma criança não se mente impunemente, e sabe disso porque ainda se lembra: ontem mesmo ele era um menino, a quem mentimos tantas e tantas vezes.

***

O homem das segundas, quartas e sextas segue sozinho por ali, tem poucos medos e, mesmo assim, todos eles vagos e meio estúpidos. A possibilidade remota de um câncer no intestino, a suspeita do fígado minado por tumores, as infecções galopantes, uma pinta escura nas costas, e aquela fisgada no pescoço, que já dura três semanas, o que seria?

Já o homem das terças e quintas tem muitos medos, temores incontáveis, e todos eles de alguma forma ligados à menina que traz na garupa. O pior deles: que, um dia, pai e filha encontrem, na encruzilhada das almas e dos anjos da Monsenhor Celso, o homem das segundas, quartas e sextas, e que, a partir deste encontro, a menina não mais o reconheça.

 

 

Pensavam no amor feito a ponte

Pensavam no amor feito a ponte
Pedra suspensa entre os homens
E tudo aquilo que os anos
Debaixo dela rolassem
Peixe, lixo ou canoa
Da ponte eterna levaria
Apenas a sombra nas águas

No fim essa ponte não houve
Cada qual cavou o seu túnel
Todo dia um ou dois baldes
De terra, lama e tijolo
Ninguém chegou a ir longe
Que eu saiba ninguém se encontrou
Perderam-se muitos no escuro
E a parte boa da coisa
É que estes, há tanto sumidos,
Ninguém precisou enterrá-los

 

Minha guardinha querida

Praça Santos Andrade, mãe e filho na fila do Piraquara. O piá, boné pra trás, esbraveja:

— A assistente me avisou, uma palavra que eu disser e você não é mais minha guarda.

Ela quieta, nem se defende. Ele não alivia, parte pra cima:

— Perde tudo, até os outros.

Em volta, o mundo impassível, o silêncio dos ônibus. Meio minuto e a mulher, uma carranca remoendo ideias, enfim se pronuncia:

— Nunca imaginei, quem diria.

O piá se irrita, desde quando você tem imaginação, imaginou o quê? E ela, pedra falante:

— Ser mãe é cuidar de um presídio.

 

 

 

Os gatos do guapuruvu

gatos

Imagem: Eduardo Aguiar

Não faz muito tempo, em Curitiba, ainda era possível dormir na rua. Eu mesmo, antes dos vinte anos, recorri algumas vezes a esse expediente emergencial. O madrugueiro demorava a chegar, e as marquises, os gramados, os bancos de praça pernoitavam vazios, sempre limpos, uma tentação para tantos bêbados pedestres. Era outro século, e a cidade, uma paisagem de poucos zumbis, raros assassinos. Ou talvez já fossem muitos, não sei, e apenas se recolhessem mais cedo, para matar ou morrer no seio da família, vocês sabem como podem ser absorventes as fantasias domésticas.

Mas lembro que uma noite, vindo não sei de que bar ali na Amintas, eu descia a rua em direção à Praça Santos Andrade quando precisei parar, as pernas não respondendo mais, trançadas, pedindo descanso. Olhei para o grande guapuruvu ao lado do Guaíra, imenso e sólido como o próprio teatro, e de pronto percebi estar diante do esconderijo ideal. Era deitar entre suas raízes, as costas coladas ao tronco largo, e me deixar apagar, sereno, escondido dos carros que minguavam ladeira acima.

Curitiba, tão quieta, não reclamou do meu cansaço, não nos incomodávamos, ela e eu. A única preocupação era despistar a polícia, ficar bem mocado, e evitar o perigo das hipotermias. Naquela madrugada o frio era moderado, não tinha jeito de homicida, e assim adormeci depressa, de vez em quando ouvindo o ronco manso de algum automóvel atrás de mim, seus faróis jogando uma luz enviesada contra a árvore, a sombra do gigante correndo nas paredes do teatro.

Não sei dizer se dormi muito ou nada, e isso, agora, nem faz diferença. O que sei é que fui despertado por um ruído misterioso, uma cantoria aguda, chorosa, e que vinha do alto, de algum lugar acima de mim, feito um coro de duendes. Firmei a vista com dificuldade, a ressaca instalada antes mesmo do fim da bebedeira, o corpo mais rígido que o esperado para uma noite de outono. E o que vi, entre os galhos do guapuruvu, foi uma coleção de olhos brilhantes me observando, misturados às folhas miúdas da árvore. Nenhum deles piscava, nenhum se movia, apenas emitiam o seu código intermitente, aquela chata melodia de gemidos.

Me acostumei ao escuro da copa e não custei a decifrar a visão. Era uma turma de seis ou sete gatos brancos, pendurados aqui e ali, seus miados insistindo em parecer uma mensagem. Não tive dúvida de que tentavam me dizer alguma coisa, pensei que provavelmente me ofendiam, talvez criticassem meu mau comportamento, reclamassem da invasão de seu espaço. Finalmente irritado, a testa doendo, perguntei, engrossando a voz:

— O que é que vocês querem?

Os gatos do guapuruvu emudeceram, mas satisfeitos, como se tivessem atingido um objetivo. Um deles, o mais graúdo, desceu de ponta-cabeça pelo tronco, com inegável elegância, as unhas firmes e reluzentes, até se acomodar num galho relativamente baixo, mais próximo de mim. Dali ele me olhou com o que a princípio julguei ser uma expressão de gravidade, mas que logo interpretei como ironia, pois, tenho certeza, o gato sorriu. Foi um sorriso meio de lado, sofrido, uma luta do felino contra as limitações de sua anatomia, mas foi um sorriso.

Quando se tornou evidente que me diria alguma coisa, talvez o seu nome, a boca e os bigodes já se desenhando para o milagre da palavra, sua língua rosada subindo ao palato, fomos interrompidos por um estrondo pavoroso. Levantei assustado, num pulo, instantaneamente sóbrio. A poucos metros de nós, no cruzamento da Amintas com a Tibagi, dois carros fumegavam, abraçados um ao outro, o asfalto salpicado de vidro. Quando me refiz da surpresa e voltei a olhar para a copa do guapuruvu, todos os gatos já haviam fugido. Para onde, não sei.

Mais de duas décadas depois, continuo a passar por ali, de manhãzinha, com minha filha, rumo à natação, e encontro a árvore ainda em seu posto, mais bonita do que nunca. Sei que estamos bem mais velhos, o guapuruvu e eu, ambos plantados em Curitiba no início dos anos 70, só que ele, agora protegido pelas leis ambientais, goza a garantia de que jamais será derrubado.

A gataria decerto já morreu. Mas não a impressão daquele sorriso louco que registrei, faz vinte e tantos anos, num simples sonho de bêbado. O sorriso do gato do guapuruvu deve ser o tal sorriso de Curitiba, um repuxar desta velha Boca Maldita. A careta de um bicho irônico, interrompido, calado bem na hora de dizer a que viemos.

 

 

ABC do decorador de labirintos – Parte final

W

Ilustras: Benett

 

W. C.: fonte dos desejos encanada.

 

X

 

Xadrez: esporte muito apreciado pelos pensadores. Jogo de concentração, mistura estátua com vaca-amarela. Ganha quem mantiver, por mais tempo, a melhor pose narcísica.

Xarope: chato com xis. Disponível nas versões adulto e pediátrico.

 

Y

 

Yin-yang: bola bonita e bipolar que, quando posta no chão, não rola.

 

Z

 

Zumbi: ser humano em estado póstumo e excepcional, no qual finalmente aprende a valorizar os cérebros ao seu redor. 

Zzzzz: derradeira onomatopeia da civilização, representando o encerramento de nossos trabalhos e a conclusão de todos os debates.

 

 

ABC do decorador de labirintos – Parte 5

S

Ilustras: Benett

 

Saudade: pano de chão muito usado, mas tecido com material precioso, ainda retendo os restos da grande festa de ontem.

Segunda-feira: tiro de largada que nos soa a tiro de misericórdia.

Sexta-feira: fantasia leve que vestimos já no fim do baile. Acompanha máscara sorridente. Precede o pijama de sábado e a mortalha dominical.

Sinceridade: defeito dos perfeitos.

Sonho: 1 terreno baldio das nossas vontades 2 lixão das liberdades pessoais 3 linha reta entre o desejo e a frustração.

Subcelebridade: na sociedade contemporânea, pária criado para substituir as elites como alvo fundamental de nossa inveja, nossa troça e nosso ódio.

 

T

 

Tempo: rio bonito e caudaloso que ninguém quer ver passar. Promovido a esgoto, acabou canalizado.

Traidor: 1 mestre que age à revelia de nosso amor por ele 2 discípulo que age à revelia de nosso amor por nós mesmos 3 mariposa cuja lagarta foi o bajulador.

 

U

 

 

Urubu: indivíduo de destaque no viveiro de pavões.

 

V

 

Verme: criatura que, para realizar seu sonho de voar, deixa-se engolir pelos pássaros. A maioria, porém, acaba no papo das galinhas.

Vida: 1 labirinto sem chão 2 vale de lágrimas com status de parque aquático (ou vice-versa) 3 tobogã áspero com destino certo (ver Morte)

Vina: embutido ordinário, mas autoindulgente, considera-se uma salsicha de primeiro mundo.

 

O homem vendado

ebano

Imagem: Eduardo Aguiar

Na Pracinha do Amor, encontro um homem vendado. Está de costas para a relojoaria da Saldanha, sentado num banco de madeira. Sua venda é branca, muito limpa, e não sou capaz de reconhecer o tecido de que é feita. Na nuca, um nó simples, firme, se perde entre os cabelos oleosos. O homem respira com calma, como se evitasse mover o tronco, mas sem dor. É um sujeito tão convencional que, fora o fato de estar vendado, nada nele me chama a atenção. Não vejo na cena nenhum mistério. É domingo, a cidade está quieta, e ali estamos nós, dois homens: um enxerga, o outro não, e isso é tudo.

Sigo adiante, normal, e subo a escadinha da sinagoga. Avanço pela Saldanha em busca de um almoço. Tenho planos de comer fartamente, sem pressa, apesar do trabalho que preciso concluir à tarde. É o que faço. Visito um restaurante da região, peço uma costela, me demoro entre seus ossos. O movimento é pequeno, poucos casais, nenhuma família. Tudo tão quieto, melhor assim, penso, e mato dois cafés aguados, com gosto de sabão. Pago a conta, a refeição é barata, e volto para casa, pelo mesmo caminho, quase duas horas depois.

Chego à praça e nada mudou. Ou melhor, mudou apenas a minha disposição para os enigmas. Porque o homem ainda está lá, imóvel, a mesma venda limpa nos olhos, se é que tem olhos debaixo dela. Só que agora, não sei por que, sinto por ele uma ponta de curiosidade, quem sabe é o efeito da gordura em meu fígado, o cérebro incomodado, vazando óleo.

Investigo o desconhecido: ordinário da cabeça aos pés, não se trata de um artista performático. É uma figura prática. Talvez seja um homem sério em busca de emprego, e seu martírio faça parte de algum teste, tudo aqui é parte de um abominável processo seletivo, o quanto de medo e insegurança você suportaria, o quanto de humilhação num mês?

Mas pode ser que este homem seja apenas um gincaneiro abandonado por seu grupo, ou um desses jogadores compulsivos, viciados em apostas exóticas. Certamente não é um cínico, daqueles que andam sob o sol com uma lamparina acesa, à procura de um cidadão honesto. Vai que é só um inocente, um puro que, para não ver mais homens impiedosos, preferiu simplificar e não ver mais nada?

Não sei. Só sei que me sinto pesado e preciso descansar. Sento no banco ao lado dele, para melhor espioná-lo. Será que ele sabe que estou aqui? Cruzo as pernas, jogo a cabeça para trás e deixo o tempo passar, meia hora, quarenta minutos, esqueço que tenho um trabalho a fazer, e bocejo, tusso de leve, e bocejo de novo, estou sonolento e descuidado, cabeceio de sono, mas o homem vendado não reage a nada, muito menos a mim.

Até que, de repente, algo acontece. O homem ergue do colo uma das mãos. Com ela, retira a venda do rosto, sem qualquer preparação ou suspense. Olha ao seu redor e, levantando-se, anuncia com voz alta, potente:

— Pronto, lá vou eu!

Só então percebo que a praça, na verdade, não está tão vazia quanto eu supunha. Há várias pessoas ali conosco, tão convencionais quanto o homem que eu observava. Elas estão parcialmente escondidas, são meio diáfanas, mas é possível vê-las sim, uma aqui, outra ali, atrás das tipuanas e da araucária, atrás do acrílico encardido do ponto de táxi, atrás da banca de revistas, do pedestal do capitão Ébano Pereira, do busto de Santos Dumont.

São muitos além de nós, e todos estão escondidos, menos eu e este homem. É por isso que ele me localiza assim, facilmente, eu tão desprevenido, a barriga cheia. Com a venda entre os dedos, branca e limpa, o homem me encara nos olhos, os dele da mesma cor que os meus, e me diz, cheio de cordialidade e simpatia:

— Bem-vindo.

 

 

ABC do decorador de labirintos – Parte 4

N

Ilustras: Benett

 

Narcisista: glutão de duzentos quilos a desejar os próprios pernis.

 

O

 

Ostentação: tara que nos impele a quebrar vidraças e vitrines com pedras preciosas.

Otimista: trabalhador obstinado que aproveita a lama ao seu redor para construir um imenso chiqueiro. Depois, serviço concluído, senta à sombra e fica esperando os porcos brotarem.

 

P

 

Palhaço: ator cômico, muito maquiado, pouco levado a sério. De cara limpa, todo mundo vira um.

Passado: época tão imutável quanto nossa memória é infalível.

Plateia: constelação de olhos.

Poder: rede de rabos presos.

Poeta: bandido de estrada especializado em desviar a própria carga.

Política: carrossel de muitos cavalos que se perseguem. Fixos, jamais mudam de posição, somente sobem e descem, e quem se move, na verdade, é a máquina a que estão atrelados. Feitos todos do mesmo material, diferem apenas superficialmente, nas cores com que foram pintados. Promíscuos, aceitam diversos jóqueis. Melhor não apostar em nenhum.

Posteridade: período da História que ama e privilegia a incapacidade e a insensatez de nossos piores contemporâneos.

Profeta: ilusionista cujo maior poder é convencer os outros a realizar suas visões (p.ex.: Ao bom p., o futuro nunca chega).

Predadores: carência maior da humanidade atual.

Progresso: objeto de estudo e desejo dos retrógrados do futuro.

 

Q

 

Quiromaníaco: autor que escreve para satisfazer a si próprio. Seu forte é a fantasia, em geral subliterária e autoficcional.

 

R

 

Rancor: gigante doméstico que se alimenta dos refugos de nossa grande inteligência. Para continuar crescendo, precisa consumi-la gradativamente.

Redes sociais: camelódromos virtuais onde botamos para vender tudo o que temos e somos. Como ideia comercial, caracteriza-se por uma incongruência prática: todos são vendedores e ninguém tem dinheiro.

Relógio: 1 no pulso, algema psicológica 2 na parede, janela de onde vemos o sol morrer quadrado 3 máquina que nos mede o atraso (p.ex.: Você pensa que usa r., mas é exatamente o contrário).

 

 

ABC do decorador de labirintos – Parte 3

I

Ilustras: Benett

Inferninho: pequena construção erigida para conter nossas maiores tentações.

Inimigo: entidade muito cultuada em igrejinhas literárias. Felizmente, não faz milagre.

Internet: 1 madrasta dos burros 2 habitat ideal de uma espécie cada vez menos rara: o cordeiro em pele de lobo.

J

 

Jornalista: profissional de comunicação cujos maiores talentos tendem a ser administrativos. Contratado, administra a esmola; empreendedor, administra o calote; frila, administra o vento.

Jornal literário: nas peixarias, papel vagabundo usado para embrulhar traíras.

K

 

Kafkiano: adjetivo que designa tudo aquilo de que Kafka definitivamente não gostava, inclusive sua própria obra. Nesse sentido, reservamos a ele uma posteridade também kafkiana.

L

 

Leitor: 1 carregador de bagagens que ganhou o direito de abri-las e revirá-las 2 expert em ruminação.

Leitura: ato de jogar sombras sobre um livro ao nos debruçarmos sobre ele.

Literatura: 1 instrumento impreciso de observação da humanidade. Às vezes é janela. Às vezes, espelho. Às vezes, penteadeira 2 forma mais adequada de registrar o que temos de melhor: nossa capacidade de registrar o que temos de pior.

Livro: objeto tão conveniente que foi necessário produzir, por meio de seu conteúdo, alguma inconveniência.

M

 

Mar: régua de medir horizontes.

Maturidade: condição preferencial do ser humano, em que ele já aprendeu a se contentar com pouco.

Megalomania: impulso que nos leva a lutar, até a morte, pelo trono de Lilipute.

Morte: piscina vazia onde as almas vão veranear.

Motel: ambiente seguro aonde se levar desaforos.

Mundo: do ponto de vista dos vivos, uma coisa rasteira.