Visita envergonhada (2)

Imagem: LHP

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Foi o Rubem Braga quem disse. Entre as dez coisas que fazem a vida valer a pena, está a seguinte: sair pela primeira vez pelas ruas de uma cidade estranha, achando que ali vão acontecer coisas surpreendentes e lindas. Concordo e acrescento: toda cidade é estranha, e toda vez será sempre a primeira. É que, na verdade, não conheço cidade que possamos chamar de nossa, e nem existe chão familiar. Tente tomar posse de uma única pedra, branca e portuguesa, na calçada da sua velha esquina. Ela reagirá, feito um dente brilhando ao sol. Você pode levá-la pra casa, trancá-la numa gaveta, é sua e acabou. Mas não: você abre a gaveta e lá está ela, a cidade, rosnando pra você. O canino eternamente sujo.

 

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Não há força mais bonita que a das resistências solitárias. Toda cidade é meio que o conjunto dessas forças.

 

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Tudo em Lages me lembra as pedras que, dizem, deram nome ao lugar. Saio do hotel e subo a Frei Rogério, em direção ao Centro, e é como se eu mesmo fosse uma estrutura de rochas mal animadas, frias, envoltas em lã. Duas quadras já bastam pra fazer esta estátua suar, água escorrendo na pedra. Ando por Lages e me sinto atravessado por uma pequena catarata, uma bica na serra catarinense, cristal gelado.

 

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Encontro uma escola antiga, rosada, toda coberta por uma imensa malha azul. Está em reformas. E o azul daquela malha é o exato azul do céu. A imagem me choca, me obriga a parar, o prédio e sua mortalha, meu deus, que coisa linda. Leio sobre a grande porta: Grupo Escolar Vidal Ramos, 1912. As letras quase escondidas pela ondulação da rede, lembrando uma vela, um navio em apuros, justamente por estar tão longe de qualquer mar. Não resisto e tiro uma foto. Encostado num automóvel em frente ao prédio, um homem tranquilo comenta comigo: “É, agosto é mês de vento, você sabe”. Não, não sei, mas finjo que sim. Na verdade, não faço a menor ideia. Ventos, desgostos, cachorros loucos, tanto faz, tudo tem dentes, tudo nos morde. Pra dizer alguma coisa, faço um comentário igualmente avoado: “Parece até que o céu caiu em cima dessa escola, veja”. Ele olha: primeiro pro azul da malha, depois pro azul do céu e, finalmente, pra mim. Está meio cabreiro. E pergunta: “O senhor é poeta?”. O senhor — notem que o sujeito já abandonou o tratamento informal.

 

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Não reconheço as árvores podadas às margens do Rio Cará. Não sobrou um galho, uma folha, só restaram os caules. E ficaram assim, parecendo uma paliçada quilométrica a separar água e asfalto. Dezenas de mãos contorcidas enfileiradas, dedos atorados, mas ainda súplices, eretos, segurando o céu lageano.

 

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Sento no Parque Jonas Ramos, quero apreciar o sobe-e-desce do repuxo. É bonito. O tanque está cheio de carpas, os peixes dourando a superfície quase sólida das águas. Há um barco vazio diante de mim, e duas garrafas plásticas querendo abordá-lo, beijando o casco da embarcação. Perco alguns minutos tentando decidir se os bichos esculpidos nos pedalinhos são gansos-canadenses ou cisnes-de-pescoço-preto, e essa dúvida me alegra. Perder tempo com ela me dá uma comovente sensação de felicidade.

 

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Um homem se aproxima de mim, carregado de revistas antigas. Senta ao meu lado. Desprezou todos os bancos desocupados ao redor do tanque; ou seja, o melhor é eu me preparar para o baque. Aí vem coisa. Ele assopra a franja grisalha sobre a testa. Afasta dos olhos uma mecha mais rebelde e me diz querer um conselho, é de graça? Eu digo que depende. E ele decide arriscar. Conta que a mulher já tem mais de cinquenta e, ainda assim, continua engravidando duas vezes por ano, o que eu devo fazer, meu amigo? Pergunto quantos filhos eles têm e o cara me diz que não, nenhum, eles não têm nenhum filho, nunca tiveram, imagina, você entendeu mal. Nenhuma gravidez vingou, em mais de três décadas.

 

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Aquele homem sem filhos vê em mim o conselheiro ideal. O forasteiro ao sol, admirando gansos ou cisnes moldados em fibra de vidro. E insiste comigo, quer mesmo um conselho. Quer saber se deve continuar tentando, ou se deve desistir de ser pai. Eu digo que não sei, e peço desculpas por não saber. Ele agradece a minha sinceridade, pergunta meu nome, eu digo, e ele me garante que seu primogênito vai se chamar Luís. Antes de ir embora, porém, uma nova dúvida o atormenta: Luís com S ou com Z? Com S e acento agudo. Ele faz uma anotação na capa de uma de suas revistas, e meu nome vai embora com ele, debaixo de seu braço.

 

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Boto o celular no silencioso e entro na catedral de pedra de Lages. Os vitrais alemães me emocionam, fazem de mim um homem colorido e inesperadamente leve, apesar das roupas escuras, do casaco pesado, do suor ruim sob a lã molhada. Caminho até o caixão de vidro de Cristo e leio a inscrição numa placa triste: Senhor Morto. Uma mulher loura, já entrando na velhice, reza no banco de madeira ao lado da imagem. Sopra no ar uma sequência de sílabas e fonemas embolados, como bolhas envenenadas de sabão. Meus ouvidos se acostumam àqueles sussurros e, sem querer, decifram o que ela diz, quase que sem mexer os lábios: acorda, acorda, acorda, acorda.

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Um celular toca e nos assusta, interrompe a ladainha da senhora. É o toque da Nokia reverberando pela catedral de luz e pedra. Levo as mãos ao bolso, é automático, mas o meu telefone está no silencioso, estou inocente. O dela também está quieto, o som não vem da sua bolsa, nem de perto de nós. Olho em volta e não vejo ninguém, a igreja deserta. De repente, tudo se esclarece. Descubro de onde vem o chamado, só pode ser dali. Tem alguém no confessionário. E lá dentro é sempre noite.

 

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Acho que o Braga não era bem um otimista, e nem eu o sou. Mas concordo com ele: coisas lindas e surpreendentes acontecem. Apesar das nossas expectativas.

 

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4 comentários

  1. Qual de nós não se surpreendeu ao visitar uma cidade até então desconhecida? Quem já não descobriu, nas ruas da própria cidade, algo novo e diferente, mas que sempre esteve ali?

    Concordo com você: nem tudo precisamos levar para casa, possuir, pois há coisas que simplesmente pertencem a todos, são livres!

    Dizem que muitas situações são neutras e que é nossa interpretação que dá a elas uma cor, uma forma. Sua crônica se baseia nesse olhar especial do cronista, sempre pronto a se deixar encantar.

    Uma amiga minha falou dos seus textos. Então comecei a ler e virei sua fã, porque a cada texto percebo um convite à reflexão. Além disso, eu me identifico com seus comentários e me pego falando sozinha durante a leitura: “Olha, ele também acha isso!”.

    Belo texto!

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