O homem vendado

ebano

Imagem: Eduardo Aguiar

Na Pracinha do Amor, encontro um homem vendado. Está de costas para a relojoaria da Saldanha, sentado num banco de madeira. Sua venda é branca, muito limpa, e não sou capaz de reconhecer o tecido de que é feita. Na nuca, um nó simples, firme, se perde entre os cabelos oleosos. O homem respira com calma, como se evitasse mover o tronco, mas sem dor. É um sujeito tão convencional que, fora o fato de estar vendado, nada nele me chama a atenção. Não vejo na cena nenhum mistério. É domingo, a cidade está quieta, e ali estamos nós, dois homens: um enxerga, o outro não, e isso é tudo.

Sigo adiante, normal, e subo a escadinha da sinagoga. Avanço pela Saldanha em busca de um almoço. Tenho planos de comer fartamente, sem pressa, apesar do trabalho que preciso concluir à tarde. É o que faço. Visito um restaurante da região, peço uma costela, me demoro entre seus ossos. O movimento é pequeno, poucos casais, nenhuma família. Tudo tão quieto, melhor assim, penso, e mato dois cafés aguados, com gosto de sabão. Pago a conta, a refeição é barata, e volto para casa, pelo mesmo caminho, quase duas horas depois.

Chego à praça e nada mudou. Ou melhor, mudou apenas a minha disposição para os enigmas. Porque o homem ainda está lá, imóvel, a mesma venda limpa nos olhos, se é que tem olhos debaixo dela. Só que agora, não sei por que, sinto por ele uma ponta de curiosidade, quem sabe é o efeito da gordura em meu fígado, o cérebro incomodado, vazando óleo.

Investigo o desconhecido: ordinário da cabeça aos pés, não se trata de um artista performático. É uma figura prática. Talvez seja um homem sério em busca de emprego, e seu martírio faça parte de algum teste, tudo aqui é parte de um abominável processo seletivo, o quanto de medo e insegurança você suportaria, o quanto de humilhação num mês?

Mas pode ser que este homem seja apenas um gincaneiro abandonado por seu grupo, ou um desses jogadores compulsivos, viciados em apostas exóticas. Certamente não é um cínico, daqueles que andam sob o sol com uma lamparina acesa, à procura de um cidadão honesto. Vai que é só um inocente, um puro que, para não ver mais homens impiedosos, preferiu simplificar e não ver mais nada?

Não sei. Só sei que me sinto pesado e preciso descansar. Sento no banco ao lado dele, para melhor espioná-lo. Será que ele sabe que estou aqui? Cruzo as pernas, jogo a cabeça para trás e deixo o tempo passar, meia hora, quarenta minutos, esqueço que tenho um trabalho a fazer, e bocejo, tusso de leve, e bocejo de novo, estou sonolento e descuidado, cabeceio de sono, mas o homem vendado não reage a nada, muito menos a mim.

Até que, de repente, algo acontece. O homem ergue do colo uma das mãos. Com ela, retira a venda do rosto, sem qualquer preparação ou suspense. Olha ao seu redor e, levantando-se, anuncia com voz alta, potente:

— Pronto, lá vou eu!

Só então percebo que a praça, na verdade, não está tão vazia quanto eu supunha. Há várias pessoas ali conosco, tão convencionais quanto o homem que eu observava. Elas estão parcialmente escondidas, são meio diáfanas, mas é possível vê-las sim, uma aqui, outra ali, atrás das tipuanas e da araucária, atrás do acrílico encardido do ponto de táxi, atrás da banca de revistas, do pedestal do capitão Ébano Pereira, do busto de Santos Dumont.

São muitos além de nós, e todos estão escondidos, menos eu e este homem. É por isso que ele me localiza assim, facilmente, eu tão desprevenido, a barriga cheia. Com a venda entre os dedos, branca e limpa, o homem me encara nos olhos, os dele da mesma cor que os meus, e me diz, cheio de cordialidade e simpatia:

— Bem-vindo.

 

 

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