Um baile

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Imagem: reprodução.

Pra ninguém dizer que escritor brasileiro não escreve sobre carnaval, vai aí uma brevíssima antologia temática. Só com cronistas, só com trechos carnavalescos.

Tem Rubem Braga aos 20 anos; tem Paulo Mendes Campos e Clarice, ambos falando de um remoto saco de confete que lhes marcou a infância; tem Otto Lara Resende lamentando a morte do Paulo, nascido num domingo de carnaval; tem João do Rio, Lima BarretoIvan Angelo e Cecília Meireles investigando o sentido de nossas fantasias; tem Manuel Bandeira prevendo o fim do carnaval lá nos anos 50; tem Antonio Maria e Humberto Werneck caprichando nos casos de rua e salão; tem Mário de Andrade enfezado com a chegada do Momo europeu; tem Loyola trazendo lembranças do carnaval da sua velha Araraquara; tem Carlinhos Oliveira buscando definir a festa, antes que a festa acabe; e tem Drummond, pra encerrar, quebrando tudo.

Segue o baile.

BATALHA NO LARGO DO MACHADO, Rubem Braga

A cuíca ronca, ronca, estomacal, horrível, é um ronco que é um soluço, e eu também soluço e canto, e vós também fortemente cantais bem desentoados com este mundo. A cuíca ronca no fundo da massa escura, dos agarramentos suados, do batuque pesadão do bodum. O asfalto está molhado nesta noite de chuvoso domingo. Ameaça chuva, um trovão troveja. A cuíca de São Pedro também está roncando. O céu também sente fome, também ronca e soluça e sua de amargura?

Nesta mormacenta segunda-feira, 11 de fevereiro, um jornal diz que ‘a batalha de confete do Largo do Machado esteve brilhantíssima’.

Repórter cretiníssimo, sabei que não houve lá nem um só miserável confete. O povo não gastou nada, exceto gargantas, e dores e almas, que não custam dinheiro. Eis que ali houve, e eu vi, uma batalha de roncos e soluços, e ali se prepararam batalhões para o Carnaval — nunca jamais a ‘grande festa do Rei Momo’ — porém a grande insurreição armada de soluços.

HOMEM OU MULHER?, Ivan Angelo

Quando menino, aos quatro ou cinco anos, vi o pintor da nossa casa vestido de mulher no Carnaval, dançando na rua, e aquilo foi um espanto, uma perturbação, uma maravilha. A ideia de que ele era as duas coisas, homem quando pintava a nossa casa e mulher quando ia para a rua, pairou algum tempo em meu espírito. Imagino que aquele menino o tenha colocado na categoria dos seres e coisas encantados que povoam a infância, por sortilégio de alguma fada ou malefício de alguma bruxa. Como um sapo que vira príncipe ou uma abóbora que vira carruagem. (…)

Um dia mamãe falou: vamos ver o Carnaval. Naquela tarde de sol, por entre os carros do corso na avenida ele apareceu, para meu espanto, encantado em mulher. Peruca, batom, olhos e faces pintados, acrescentara uma pinta, levava aberta a sombrinha de barbatana quebrada e cantava alegre uma música bem diferente daquelas outras: ‘Mamãe eu quero, mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar; dá a chupeta, dá a chupeta pro bebê não chorar’.

Hoje entendo-o melhor, embora eu esteja ainda longe da verdade: ali, como mulher, ele era outro homem.

UM SACO DE CONFETE, Paulo Mendes Campos

Foi num arraial de Minas nos tempos do café, e lá em casa havia um assustado carnavalesco nas primeiras horas da tarde de domingo. Eu tinha três ou quatro anos, um bigode preto e um saco de confete na mão. A sala rodava cheia de gente que se duelava a confete; éter não havia. Foi quando uma senhora, beijando-me, veio pedir-me emprestado o meu saco de confete, a fim de continuar o seu combate, prometendo-me pagamento dobrado. Não dei, não queria dar, não acreditava que ela me pagasse. Com a mão direita ela arrebatou-me os confetes, enquanto a sua esquerda me acariciava na face. Tive vontade de chorar, mas não chorei, fiquei zanzando pela sala, de mãos vazias, miserável. Ela foi encontrar-se com o seu parceiro naquele torneio de papel, encheu a mão uma, duas, três, quatro vezes, só quatro vezes, e o conteúdo de toda a minha ração carnavalesca se espargiu sobre a cabeça do homem, o seu rosto, a sua roupa, depositando-se o resto, lentamente, sobre o chão de largas tábuas enceradas. (…)

Saí. Fui encostar-me à parede, olhando desconsolado os adultos subitamente selvagens na sua alegria, homens querendo acertar punhados de confete na boca das senhoras, e vice-versa, todo mundo rindo como eu nunca vira rir. Uma imagem absolutamente nova apresentava-se ao meu instinto de conhecimento: entre homem e mulher havia um mistério, uma guerra, uma excitação áspera e cheia de riscos, um desejo de machucar, de rir, de correr, de sofrer, de voltar.

O JOVEM POETA SETENTÃO, Otto Lara Resende

Até onde me lembro, o Carnaval não o empolgava. Em São João del Rei, onde estudou, e depois em Belo Horizonte, não guardo reminiscência carnavalesca do nosso convívio. Nos primeiros tempos do Rio, a gente corria para Minas, serra acima, toda vez que se podia escapar da rotina. (…)

Sua simplicidade, lição para toda a vida. Líamos os poetas para encontrar a nossa própria definição. De dia e de noite, a conversa interminável. A gente ia puxar angústia, que ele definiu assim: descer ao fundo do poço escuro, onde se acham as máscaras abomináveis da solidão, do amor e da morte. Pois é, Paulo Mendes Campos. Num dia assim, em pleno domingo de Carnaval, é que você nasceu. Hoje, quem pode crer?, você estaria chegando aos setenta anos!

ADAMASTOR E O CARNAVAL, Antonio Maria

Pobres moças as dos carros alegóricos (exclama Adamastor)! Aquelas moças, no alto dos carros alegóricos, sentadas em globos terrestres, ou em pé na anca de um cavalo! O corpo a tremer pela trepidação da carroça. O olhar perdido de medo, porque podem cair lá de cima. E, mesmo assim, o sorriso sem graça ao desconforto, ‘oferecendo beijos de amor’. Adamastor esteve muitas vezes para mudar de Paris, depois da passagem dos carros alegóricos. Lembre-se de que, uma vez, passava um carro alegórico e, ao seu lado, havia um menino pelo braço da criada. O menino alvoroçou-se, de repente apontou para a moça que oferecia beijos de amor e gritou:

— Olha mamãe ali!

E gritou mais:

— Olha eu aqui, mamãe! Jogue um beijo para mim também.

Claro, a moça não ouviu. A alegria foi-se acabando no rosto da criança, que ficou muito séria até fazer beicinho de choro.

Desse dia em diante, Adamastor passou todos os carnavais metido em sítios e fazendas. E acha que carnaval é triste, mais que procissão. Às vezes, mais que enterro.

ESTÁ MORRENDO MESMO, Manuel Bandeira

Quem? O carnaval. Com a supressão dos alto-falantes nas ruas o fato se tornou evidente. Esses insuportáveis aparelhos davam aos carnavais anteriores uma animação fictícia. Emudecidos eles, verificou-se que o povo não cantava mais. Não brincava. Espairecia. Esperava a passagem das escolas de samba. (…)

Vale a pena lamentar? Acho que não. O carnaval está morrendo, outras coisas estão nascendo. No tempo dos bons carnavais não tínhamos o espetáculo das praias. A vida é renovação. ‘Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades’, disse o poeta máximo da língua, e outro disse que ‘isto é sem cura’. Quem não estiver contente com o presente, viva, como eu, das saudades do passado.

RESTOS DO CARNAVAL, Clarice Lispector

Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me havia fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias: um lança-perfume e um saco de confete. Ah, se está tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.

E as máscaras? Eu tinha medo mas era um medo vital e necessário porque vinha ao encontro da minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.

BAILES E DIVERTIMENTOS SUBURBANOS, Lima Barreto

Resta-nos o carnaval; é ele, porém, tão igual por toda a parte, que foi impossível, segundo tudo faz crer, ao subúrbio dar-lhe alguma coisa de original. Lá, como na Avenida, como em Niterói, como em Maxambomba, como em todo este Brasil inteiro, são os mesmos cordões, blocos, grupos, os mesmos versos indignos de manicômio, as mesmas músicas indigestas e, enfim, o carnaval em que como lá diz Gamaliel de Mendonça, no seu último livro — Revelação —: Os homens são jograis; as mulheres, bacantes.

O subúrbio não se diverte mais. A vida é cara e as apreensões muitas, não permitindo prazeres simples e suaves, doces diversões familiares, equilibradas e plácidas. Precisa-se de ruído, de zambumba, de cansaço, para esquecer, para espancar as trevas que, em torno da nossa vida, mais densas se fazem, de dia para dia, acompanhando pari passu as suntuosidades republicanas.

MÁSCARAS DE TODO ANO…, João do Rio

O Carnaval é uma crise de alegria neurastênica, é a loucura, é a porneia organizada e cínica, é delicioso ou infame, é o que quiserem os definidores. O máscara, porém, o máscara propriamente, é um caso empolgante de variação de personalidade, um caso de doença. Nas grandes mascaradas, o delírio é idêntico às crises desvairantes da Idade Média e da idade que chamamos Antiga, por mais que ela nos pareça sempre mais moça. No máscara isolado há todo um tratado de patopsicologia. Um homem que trabalha o ano inteiro para se vestir de ‘princez’, ou de ‘rei de diabos’, e que sai por aí convencido na fatiota multicor, não pode ser muito certo, e um pobre rapaz, capaz de se fantasiar de ‘Pai João’ e de te tentar fazer espírito, não é um prodígio de sensatez. Alguém mesmo já descobriu que a fantasia corresponde quase sempre à pequena racha que o tipo tem na mioleira, ou à qualidade predominante da sua alma, contando os dominós pela hipocrisia; os princeses pelo efeminamento, os reis dos diabos pelo desvairamento delirante, os palhaços pela gente sem personalidade ou de personalidade complacente.

REI MOMO, Mário de Andrade

Ora eu soube que chegou a esta cidade de São Paulo, quem? o rei Momo em pessoa. Mas eu não conheço o rei Momo, nunca tive argent pra ir na Europa. Qualquer dia havemos de ter por aí o Bruder Alex, o Sultão T-Tulba e os outros bodes expiatórios, também enlambuzados de alegria, que permitimos reinem por toda uma quarta-feira, pra que, destruindo-os depois, levem consigo o nosso mal humano. É inútil: não levam não e ignoro as cores do rei Momo europeu.

DEPOIS DO CARNAVAL, Cecília Meireles

Terminado o Carnaval, eis que nos encontramos com os seus melancólicos despojos: pelas ruas desertas, os pavilhões, arquibancadas e passarelas são uns tristes esqueletos de madeira; oscilam no ar farrapos de ornamentos sem sentido, magros, amarelos e encarnados, batidos pelo vento, enrodilhados em suas cordas; torres coloridas, como desmesurados brinquedos, sustentam-se de pé, intrusas, anômalas, entre as árvores e os postes. Acabou-se o artifício, desmanchou-se a mágica, volta-se à realidade.

À chamada realidade. Pois, por detrás disto que aparentamos ser, leva cada um de nós a preocupação de um desejo oculto, de uma vocação ou de um capricho que apenas o Carnaval permite que se manifestem com toda a sua força, por um ano inteiro contida.

Somos um povo muito variado e mesmo contraditório: o que para alguns parecerá defeito é, para outros, encanto. Quem diria que tantas pessoas bem comportadas, e aparentemente elegantes e finas, alimentam, durante trezentos dias do ano, o modesto sonho de serem ursos, macacos, onças, gatos e outros bichos?

PERDIDOS & ACHADOS, Humberto Werneck

(…) No Maranhão, contaram-me que num remoto desfile de carnaval causou pasmo uma banda de moços — rapazes da banda, também em outro sentido. Um deles, em especial, de lira em punho, se destacava, menos por seu desempenho como instrumentista do que pelos meneios das gelatinosas cadeiras.

— Aquele ali só pode ser — cravou uma senhora.

— Qual? — indagou a amiga.

— Aquele com a lira.

O bastante para que no Maranhão (e também no Ceará) se passasse a chamar gay de ‘qualira’.

OUTROS CARNAVAIS, Ivan Lessa

Imaginemos que a vida de cada um de nós é um pedaço de serpentina. Tem uma tira de tantos metros, cor-de-rosa, que corresponde aos nossos primeiros sete anos. Outra de alguns centímetros, amarela, que corresponde aos últimos quatro anos. E outra de tal tamanho e outra de tal cor e assim por diante. Tudo espalhado no meio do chão, do salão. Rolo por rolo da serpentina, um após o outro, embrulhadinho e ainda dentro da embalagem, esse é nossa vida completa, esse é aquele que aparece — e apenas aos outros — quando morremos e acabamos.

CARNAVAL E MULHERES LIVRES, Ignácio de Loyola Brandão

No carnaval, valia camisa esporte, bermuda, sandálias, sapato sem meia, descalço, valia tudo. Nem se distinguiam os ricos dos pobres, o carnaval democratizava. Tinha gente que, depois de certa hora, tirava a camisa e sambava diante das mesas onde as mães se postavam vigilantes, para evitar deslizes das filhas, frustrando futuros casamentos. Cães de guarda, ferozes, comandando capatazes, os filhos. Ou seja, os irmãos que avançavam como buldôzers para os engraçadinhos que tiravam casquinhas das irmãs. Quantas vezes vi, errando pela madrugada, perdido, apavorado, olhar esgazeado, um irmão à procura do objeto de sua vigilância?

Pedaços de coxa guardados avaramente o ano inteiro eram desnudados e oferecidos fartamente naqueles quatro dias. Cessavam os limites, as normas severas. Por isso, os fiéis reuniam-se nas igrejas, orando quatro dias seguidos, a fim de empurrar os demônios para fora das portas da cidade. Na Quarta-feira de Cinzas, os demônios retiravam-se, prometendo voltar.

O CARNAVAL POR DENTRO, Carlinhos Oliveira

Bem, o carnaval é estar zonzo no meio da multidão embriagada. E sendo judeu (sou judeu por nostalgia), atacar de folião no Clube Sírio e Libanês. Beber uísque brasileiro legítimo. Proteger as partes pudendas das nossas acompanhantes, sempre visadas pela turma do Eu Sozinho. (…)

Carnaval é acordar com os cigarros amassados dentro do maço. É querer tirar um colar de dentes de onça e não conseguir. É estar com uma camiseta de regata e não saber onde anda a nossa camisa. É ter que mandar a crônica imaginando que o pessoal do JB vai dizer: ‘Nossa! O Carlinhos desta vez bebeu demais!’

A FESTA, Carlos Drummond de Andrade

A decoração desta cidade/ eram mares, montanhas e palmeiras/ convivendo com gente./ Acharam pouco. Há muitos anos/ acrescentaram-se bonecos de plástico, sarrafos/ em fila processional sobre as cabeças,/ brincando no lugar dos que não brincam/ ou mandando brincar, ordem turística.

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4 comentários

  1. Faltaram “Um dia de entrudo” de Machado de Assis, e uma passagem dantesca de Hermilo Borba Filho, sobre 4 dias de carnaval no Recife, nos anos 1940, em “A Porteira do Mundo”!!

  2. O retrato colorido da nossa festa máxima, nas letras de tão importantes escritores nos enriquece e preenche o espaço de nossa infância e adolescência! Oportuníssima e gratificante publicação! Obrigado!l

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