crônica

Pinóquio na Tiradentes

Pinoquio

Imagem: Eduardo Aguiar

Se alguém o traz até aqui, no colo ou numa caixa, dia sim, dia não, ignoro. Como faz para ir embora, também não sei, apenas suponho que não passe a noite sozinho na Tiradentes, exposto ao sereno e à violência. Ele parece, aliás, estranhamente saudável, descansado, limpo. Sempre que o encontro na praça, já está acomodado em seu banco favorito, perto do marco zero.

É como se um ventríloquo o tivesse esquecido ou abandonado ali. Imagino o homem parando para engraxar os sapatos. Pensou na vida ao contar as poucas moedas, quantas festas infantis ainda suportaria, quantos programas de calouros, e de repente decidiu mudar tudo. Deixou para trás o seu velho e querido boneco, aquelas perninhas condenadas, imóveis e pendentes, um pedacinho de pau à espera do sopro de um novo deus. Tão parecido com a gente.

Não, não se trata de um anão, somente é miúdo. Tem uns setenta anos, ou bem mais que isso. Impressiona pelo paletozinho impecável, xadrez, as botinhas de brinquedo e os olhos azuis, tão abertos e tão claros, olhos de fonte jorrando da pedra, aquela transparência de água mineral engarrafada. Senta-se na ponta direita do banco, não falha, nunca muda de posição, o queixo colado à ombreira direita, as mãos de criança sobre as coxas e as calças de lã, mal segurando a sua bengalinha, único indício de que é vivo, é um de nós, é capaz de caminhar.

Em geral não se move. Pelo menos até conseguir companhia. Porque é só um desavisado ocupar o espaço à sua esquerda, estacionar no banco para um cochilo de cinco minutos no meio da tarde corrida, para que o calor ou a miséria do intruso, tanto faz, acionem no velho alguma engrenagem oculta. Algo dentro dele desperta, ele todo é uma máquina que acorda, movida a esperanças e outros vapores, quem está aí? Sua cabeça perfeita, redonda, de cabelos brancos penteados com gel, gira sobre o pescoço fino, cento e oitenta graus vencidos lentamente, as vértebras estalando, tique-taque, tique-taque, e a boca do boneco enfim se abrindo para falar, ouçam.

Só vemos os seus dentes de baixo. Seus dentes e a língua vívida da criaturinha, uma língua vermelho-morango e sem dúvida jovem, o mais ameaçador dos músculos. É com ela que o homem empreende a sua conversa, fala, fala e dificilmente escuta, deve ter tímpanos de peroba ou imbuia, gosta mesmo é de falar, só falar, e surpreende ou mesmo encanta os caras que o ouvem, primeiro espantados com o fenômeno da madeira falante, animada, e depois, talvez, com o teor de seu discurso.

De tanto vê-lo conversando, um dia caí em tentação, quis escutá-lo. Imprudente, decidi me sentar também ao seu lado, eu à sua esquerda, na imatura intenção de provocar o velho Pinóquio, sei lá, vai que o homenzinho é também uma espécie de oráculo, um gênio roído de cupins? Vai que, brincando, ele dá um jeito em meu futuro, me abre os caminhos, me sugere o tema da crônica da semana que vem? Já seria lucro dos grandes.

Sua reação a mim foi rápida, imediata. Girou o rosto envernizado em minha direção, os cílios curvos subindo e descendo devagar, o nariz pontudo lembrando um relógio de sol, a pele enrugada levemente enrubescida, e, sem qualquer saudação, foi logo me perguntando:

— Gostas de moças bonitas?

Pego no susto, não entendi direito, oi? Ele se irritou, repetiu a pergunta numa ênfase impaciente, diz, diz de uma vez, gostas ou não gostas? Eu disse que gostava, é claro que gosto, e ele apontou com o queixo para um outro banco, bem perto do nosso, onde descansava um mulher de meia-idade, as pernas grossas e cruzadas, corajosamente vestida de azul para os mais sagrados rituais do amor e da beleza, apesar de, verdade seja dita, não ser nada bonita.

— Se gostas, o teu banco é aquele, e não este.

Continuei sem entender, e ele me incentivou, vá, vá lá e depois tu me dizes, e depois tu me contas, vá lá e me conte tudo, vá.

Pensei na crônica por escrever e achei que já tinha assunto o suficiente. Me levantei, dei boa tarde ao amigo, o senhor passe bem, obrigado, e o larguei em seu banquinho, bem morto, como de costume, embora o nariz ereto ainda crescesse, e ele se mantivesse na eterna expectativa da próxima ressurreição, coitado, tão pequenino, tão parecidinho com a gente.

Depois disso, é claro, tudo o que me restava era vir até aqui e contar tudo. Foi o que fiz. Sou grato ao velho boneco da Tiradentes, que me deu uma história e a quem, reconheço, fiquei devendo uma narrativa mais realista, um relato mais caloroso, uma ficção mais verdadeira, uma visita ao amor e à beleza.

 

Pinoquio2

Imagem: Eduardo Aguiar

Anúncios

O torcedor

10003041_628380797234010_1340901097_n

Imagem: Eduardo Aguiar

Na ponta de lá da faixa de segurança, numa esquina da Praça Tiradentes, o Marechal Floriano enferruja em seu chapéu bicorne. Dá uma pena dele, tão duro naquele traje de gala, as botas sem brilho nenhum e a espada morta, para sempre condenada à bainha. Já na extremidade de cá da faixa, do lado oposto da rua, o herói é outro. Ainda vive e, quem sabe, poderá um dia ser temido e amado, liderar algum exército, redefinir nossos conceitos furados de glória e derrota. Porque, protegido da garoa, debaixo deste ponto do Marechal Hermes, bem em frente à banca Triângulo, respira e resplandece o grande velho cor-de-rosa.

De boné, japona de náilon, calça de malha, chinelos de dedo e óculos escuros, ele também é um monumento, um tributo a si mesmo. Raro encontrá-lo ali, deve ser a terceira ou quarta vez que o vejo na vida, no máximo, mas se trata, sem dúvida, de uma presença impressionante. Escorado numa coluna invisível de tempo, imóvel e eterno, o velho chia, estala e sibila sem parar, ruidoso, os braços longos e cruzados abraçando os ombros, como se sentisse os ossos congelando e partindo, ou tivesse medo de escapar do próprio corpo.

Mas não, não é sua alma o objeto da sua vigilância, sei que não. Olho para ele, postado diante daquela inútil faixa de segurança, um sorriso de caveira no asfalto, o sinal luminoso de pedestres passando do vermelho ao verde, do verde ao vermelho, as pessoas de lá para cá e vice-versa, sem descanso e sem cuidado, ouço as freadas e os xingamentos e as buzinas, e só consigo pensar num daqueles míticos guardiões de pontes sagradas, intransponíveis. Sim, o velho cor-de-rosa é mais ou menos isto, um guardião negligenciado, a quem ninguém nunca ouve ou consulta, alguém que tem uma pergunta-chave a nos fazer, mas que não tem a oportunidade de fazê-la, não tem os nossos ouvidos.

Ou melhor, os meus ele tem. Curioso, já me aproximei dele, fingindo esperar o ônibus, apenas para escutá-lo falar. E me espantei. Ele semeava no ar o seu punhadinho de palavras curtas, pega, pega, mata, pega, mata, ordens mastigadas, tristes imperativos sussurrados, morre, vai, mata, morre, agora, vai, vai, agora.

Mas pega o quê, vai aonde, mata quem, morre como? Para entendê-lo, somei a recitação do velho às cenas de trânsito que ele parecia narrar. O sinal abria e fechava, abria e fechava, as pernas do menino de luz se abriam e fechavam, verde, vermelho, não tinha importância, que diferença faziam as cores? O povo não parava, atravessava a rua sem temor, mal olhava para os lados, somente se atirava entre os automóveis, eram peixes na correnteza, peixes saltando entre pedras pontudas, tirando finas dos ônibus, beijando as motos, acariciando os táxis, uma piracema de loucos inconsequentes e o velho cor-de-rosa lá torcendo, torcendo, vai, mata, morre agora, dizia ele, exatamente como continua a dizer hoje, morram, torcendo pelo atropelamento geral.

Ah, é a senhora com as sacolas plásticas, é o jovem na cadeira de rodas, a mãe com seu bebê de colo e a sombrinha virada pelo avesso, um morcego lilás arregaçado pela ventania, e os filhos pequenos ao seu redor, chorando e correndo, olha o carro, e é o aleijado de muletas, o palhaço em pernas de pau, os mendigos bonitos na catedral gótica e o grande velho lá, torcendo e rezando, morre, pega, agora é, agora vai, é hoje, hoje o fim do estudante e dos seus fones de ouvido, hoje o fim da secretária fumante e o adeus da diarista cansada, é hoje o engraxate arrastado pela van dos turistas e o pedinte no para-brisa, ainda enrolado em seu cobertor, é hoje o verdureiro colhido pelo motoboy, hoje as folhas de alface lavadas pela chuva, hoje os tomates no meio-fio, o sangue dos homens e das frutas no bueiro, hoje, tem que ser hoje, só pode ser hoje.

O velho é um torcedor, é isso. Torce pela morte e pelo acidente, pela dor ou pelo alívio, não sei se movido por ódio ou desprezo, e talvez até sinta prazer em sua torcida macabra, sei lá, só sei que este é um velho grande e cor-de-rosa, que usa boné e japona de náilon e chinelos de dedo, e sei que sua barba está sempre crescendo, mas nunca está realmente crescida, e que ele está sempre de óculos de sol, mesmo em tardes chuvosas como esta, e que está sempre abraçado ao próprio corpo, como se quisesse impedir a fuga de sua alma ou a entrada da nossa nele.

Mas não é só isso, há mais. Há um detalhe que só agora percebo e que, no fim das contas, vem a ser o acessório principal deste personagem. É uma bengala, vejam, uma bengala escondida, presa por um elástico a uma de suas mãos vermelhas, graúdas, uma bengala dobrável, retrátil, de alumínio, acomodada debaixo de seu sovaco. Sim, só agora eu percebo, o torcedor está no escuro, vai, mata, morre, é o único na arquibancada de seus desejos, seu jogo acontece em outra dimensão, obedece a regras bem mais íntimas, talvez insondáveis, e é dentro dele, só lá dentro, que suas bandeiras estão sendo agitadas. Se ele reage ao que escuta e pressente à sua volta, ou ao que enxerga e resgata no fundo do poço de si mesmo, é algo que prefiro não saber, nem imaginar, nem perguntar a ele.

Pelo menos não hoje, hoje não perguntarei. Prefiro arriscar, pagar para ver, atravessar a rua, venham comigo, vamos juntos, vamos, é a nossa chance, é hoje, e hoje é tudo o que temos.

 

Toda toda

Na esquina da Comendador, o sinal fecha para nós, os pedestres. Duas moças saem da farmácia. Maquiagem pesada, cosméticos na sacolinha. Nem percebem o quanto falam alto, culpa da academia na sobreloja, aquela música absurda. De repente, o susto, o choque, a dupla paralisada.

— Olha, é ele.

— Não acredito.

— É ele.

— Que grande babaca.

— É ele. E com ela.

— Vai lá. Vai lá e fala com o cara.

— Não, melhor não.

— Vai, sua boba.

— Capaz. Ele com a mulher.

— Pois então. Vai lá assim, toda toda, e diz oi. Só pra ver a cara de tacho dela.

— Toda toda? Com este uniforme do colégio?

Respeito é bom

Na calçada da Saldanha, diante da lavanderia, o homenzinho brabo. Já velho, mas a roupa justa, o brinco de brilhantes, o cinto de tachinhas, o cabelo preto pintado, a costeleta bem aparada, botinhas de caubói sobre a barra da calça. Vai contando à dona do estabelecimento um drama recente, uma discussão qualquer, vencida com glórias, só não sei contra que inimigo.

— Eu disse pra ele, você não me conhece, você me respeite.

— Boa.

— Você me respeite, tenho história, mereço respeito, eu disse pra ele, não sou respeitável?

— Que eu saiba.

— Tenho idade, respeito é bom.

— Sem dúvida.

— Sou bisavô seis vezes, eu disse pra ele, você me respeite. E mandei tomar no cu.

Um baile

028CX17municipal006

Imagem: reprodução.

Pra ninguém dizer que escritor brasileiro não escreve sobre carnaval, vai aí uma brevíssima antologia temática. Só com cronistas, só com trechos carnavalescos.

Tem Rubem Braga aos 20 anos; tem Paulo Mendes Campos e Clarice, ambos falando de um remoto saco de confete que lhes marcou a infância; tem Otto Lara Resende lamentando a morte do Paulo, nascido num domingo de carnaval; tem João do Rio, Lima BarretoIvan Angelo e Cecília Meireles investigando o sentido de nossas fantasias; tem Manuel Bandeira prevendo o fim do carnaval lá nos anos 50; tem Antonio Maria e Humberto Werneck caprichando nos casos de rua e salão; tem Mário de Andrade enfezado com a chegada do Momo europeu; tem Loyola trazendo lembranças do carnaval da sua velha Araraquara; tem Carlinhos Oliveira buscando definir a festa, antes que a festa acabe; e tem Drummond, pra encerrar, quebrando tudo.

Segue o baile.

BATALHA NO LARGO DO MACHADO, Rubem Braga

A cuíca ronca, ronca, estomacal, horrível, é um ronco que é um soluço, e eu também soluço e canto, e vós também fortemente cantais bem desentoados com este mundo. A cuíca ronca no fundo da massa escura, dos agarramentos suados, do batuque pesadão do bodum. O asfalto está molhado nesta noite de chuvoso domingo. Ameaça chuva, um trovão troveja. A cuíca de São Pedro também está roncando. O céu também sente fome, também ronca e soluça e sua de amargura?

Nesta mormacenta segunda-feira, 11 de fevereiro, um jornal diz que ‘a batalha de confete do Largo do Machado esteve brilhantíssima’.

Repórter cretiníssimo, sabei que não houve lá nem um só miserável confete. O povo não gastou nada, exceto gargantas, e dores e almas, que não custam dinheiro. Eis que ali houve, e eu vi, uma batalha de roncos e soluços, e ali se prepararam batalhões para o Carnaval — nunca jamais a ‘grande festa do Rei Momo’ — porém a grande insurreição armada de soluços.

HOMEM OU MULHER?, Ivan Angelo

Quando menino, aos quatro ou cinco anos, vi o pintor da nossa casa vestido de mulher no Carnaval, dançando na rua, e aquilo foi um espanto, uma perturbação, uma maravilha. A ideia de que ele era as duas coisas, homem quando pintava a nossa casa e mulher quando ia para a rua, pairou algum tempo em meu espírito. Imagino que aquele menino o tenha colocado na categoria dos seres e coisas encantados que povoam a infância, por sortilégio de alguma fada ou malefício de alguma bruxa. Como um sapo que vira príncipe ou uma abóbora que vira carruagem. (…)

Um dia mamãe falou: vamos ver o Carnaval. Naquela tarde de sol, por entre os carros do corso na avenida ele apareceu, para meu espanto, encantado em mulher. Peruca, batom, olhos e faces pintados, acrescentara uma pinta, levava aberta a sombrinha de barbatana quebrada e cantava alegre uma música bem diferente daquelas outras: ‘Mamãe eu quero, mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar; dá a chupeta, dá a chupeta pro bebê não chorar’.

Hoje entendo-o melhor, embora eu esteja ainda longe da verdade: ali, como mulher, ele era outro homem.

UM SACO DE CONFETE, Paulo Mendes Campos

Foi num arraial de Minas nos tempos do café, e lá em casa havia um assustado carnavalesco nas primeiras horas da tarde de domingo. Eu tinha três ou quatro anos, um bigode preto e um saco de confete na mão. A sala rodava cheia de gente que se duelava a confete; éter não havia. Foi quando uma senhora, beijando-me, veio pedir-me emprestado o meu saco de confete, a fim de continuar o seu combate, prometendo-me pagamento dobrado. Não dei, não queria dar, não acreditava que ela me pagasse. Com a mão direita ela arrebatou-me os confetes, enquanto a sua esquerda me acariciava na face. Tive vontade de chorar, mas não chorei, fiquei zanzando pela sala, de mãos vazias, miserável. Ela foi encontrar-se com o seu parceiro naquele torneio de papel, encheu a mão uma, duas, três, quatro vezes, só quatro vezes, e o conteúdo de toda a minha ração carnavalesca se espargiu sobre a cabeça do homem, o seu rosto, a sua roupa, depositando-se o resto, lentamente, sobre o chão de largas tábuas enceradas. (…)

Saí. Fui encostar-me à parede, olhando desconsolado os adultos subitamente selvagens na sua alegria, homens querendo acertar punhados de confete na boca das senhoras, e vice-versa, todo mundo rindo como eu nunca vira rir. Uma imagem absolutamente nova apresentava-se ao meu instinto de conhecimento: entre homem e mulher havia um mistério, uma guerra, uma excitação áspera e cheia de riscos, um desejo de machucar, de rir, de correr, de sofrer, de voltar.

O JOVEM POETA SETENTÃO, Otto Lara Resende

Até onde me lembro, o Carnaval não o empolgava. Em São João del Rei, onde estudou, e depois em Belo Horizonte, não guardo reminiscência carnavalesca do nosso convívio. Nos primeiros tempos do Rio, a gente corria para Minas, serra acima, toda vez que se podia escapar da rotina. (…)

Sua simplicidade, lição para toda a vida. Líamos os poetas para encontrar a nossa própria definição. De dia e de noite, a conversa interminável. A gente ia puxar angústia, que ele definiu assim: descer ao fundo do poço escuro, onde se acham as máscaras abomináveis da solidão, do amor e da morte. Pois é, Paulo Mendes Campos. Num dia assim, em pleno domingo de Carnaval, é que você nasceu. Hoje, quem pode crer?, você estaria chegando aos setenta anos!

ADAMASTOR E O CARNAVAL, Antonio Maria

Pobres moças as dos carros alegóricos (exclama Adamastor)! Aquelas moças, no alto dos carros alegóricos, sentadas em globos terrestres, ou em pé na anca de um cavalo! O corpo a tremer pela trepidação da carroça. O olhar perdido de medo, porque podem cair lá de cima. E, mesmo assim, o sorriso sem graça ao desconforto, ‘oferecendo beijos de amor’. Adamastor esteve muitas vezes para mudar de Paris, depois da passagem dos carros alegóricos. Lembre-se de que, uma vez, passava um carro alegórico e, ao seu lado, havia um menino pelo braço da criada. O menino alvoroçou-se, de repente apontou para a moça que oferecia beijos de amor e gritou:

— Olha mamãe ali!

E gritou mais:

— Olha eu aqui, mamãe! Jogue um beijo para mim também.

Claro, a moça não ouviu. A alegria foi-se acabando no rosto da criança, que ficou muito séria até fazer beicinho de choro.

Desse dia em diante, Adamastor passou todos os carnavais metido em sítios e fazendas. E acha que carnaval é triste, mais que procissão. Às vezes, mais que enterro.

ESTÁ MORRENDO MESMO, Manuel Bandeira

Quem? O carnaval. Com a supressão dos alto-falantes nas ruas o fato se tornou evidente. Esses insuportáveis aparelhos davam aos carnavais anteriores uma animação fictícia. Emudecidos eles, verificou-se que o povo não cantava mais. Não brincava. Espairecia. Esperava a passagem das escolas de samba. (…)

Vale a pena lamentar? Acho que não. O carnaval está morrendo, outras coisas estão nascendo. No tempo dos bons carnavais não tínhamos o espetáculo das praias. A vida é renovação. ‘Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades’, disse o poeta máximo da língua, e outro disse que ‘isto é sem cura’. Quem não estiver contente com o presente, viva, como eu, das saudades do passado.

RESTOS DO CARNAVAL, Clarice Lispector

Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me havia fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias: um lança-perfume e um saco de confete. Ah, se está tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.

E as máscaras? Eu tinha medo mas era um medo vital e necessário porque vinha ao encontro da minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.

BAILES E DIVERTIMENTOS SUBURBANOS, Lima Barreto

Resta-nos o carnaval; é ele, porém, tão igual por toda a parte, que foi impossível, segundo tudo faz crer, ao subúrbio dar-lhe alguma coisa de original. Lá, como na Avenida, como em Niterói, como em Maxambomba, como em todo este Brasil inteiro, são os mesmos cordões, blocos, grupos, os mesmos versos indignos de manicômio, as mesmas músicas indigestas e, enfim, o carnaval em que como lá diz Gamaliel de Mendonça, no seu último livro — Revelação —: Os homens são jograis; as mulheres, bacantes.

O subúrbio não se diverte mais. A vida é cara e as apreensões muitas, não permitindo prazeres simples e suaves, doces diversões familiares, equilibradas e plácidas. Precisa-se de ruído, de zambumba, de cansaço, para esquecer, para espancar as trevas que, em torno da nossa vida, mais densas se fazem, de dia para dia, acompanhando pari passu as suntuosidades republicanas.

MÁSCARAS DE TODO ANO…, João do Rio

O Carnaval é uma crise de alegria neurastênica, é a loucura, é a porneia organizada e cínica, é delicioso ou infame, é o que quiserem os definidores. O máscara, porém, o máscara propriamente, é um caso empolgante de variação de personalidade, um caso de doença. Nas grandes mascaradas, o delírio é idêntico às crises desvairantes da Idade Média e da idade que chamamos Antiga, por mais que ela nos pareça sempre mais moça. No máscara isolado há todo um tratado de patopsicologia. Um homem que trabalha o ano inteiro para se vestir de ‘princez’, ou de ‘rei de diabos’, e que sai por aí convencido na fatiota multicor, não pode ser muito certo, e um pobre rapaz, capaz de se fantasiar de ‘Pai João’ e de te tentar fazer espírito, não é um prodígio de sensatez. Alguém mesmo já descobriu que a fantasia corresponde quase sempre à pequena racha que o tipo tem na mioleira, ou à qualidade predominante da sua alma, contando os dominós pela hipocrisia; os princeses pelo efeminamento, os reis dos diabos pelo desvairamento delirante, os palhaços pela gente sem personalidade ou de personalidade complacente.

REI MOMO, Mário de Andrade

Ora eu soube que chegou a esta cidade de São Paulo, quem? o rei Momo em pessoa. Mas eu não conheço o rei Momo, nunca tive argent pra ir na Europa. Qualquer dia havemos de ter por aí o Bruder Alex, o Sultão T-Tulba e os outros bodes expiatórios, também enlambuzados de alegria, que permitimos reinem por toda uma quarta-feira, pra que, destruindo-os depois, levem consigo o nosso mal humano. É inútil: não levam não e ignoro as cores do rei Momo europeu.

DEPOIS DO CARNAVAL, Cecília Meireles

Terminado o Carnaval, eis que nos encontramos com os seus melancólicos despojos: pelas ruas desertas, os pavilhões, arquibancadas e passarelas são uns tristes esqueletos de madeira; oscilam no ar farrapos de ornamentos sem sentido, magros, amarelos e encarnados, batidos pelo vento, enrodilhados em suas cordas; torres coloridas, como desmesurados brinquedos, sustentam-se de pé, intrusas, anômalas, entre as árvores e os postes. Acabou-se o artifício, desmanchou-se a mágica, volta-se à realidade.

À chamada realidade. Pois, por detrás disto que aparentamos ser, leva cada um de nós a preocupação de um desejo oculto, de uma vocação ou de um capricho que apenas o Carnaval permite que se manifestem com toda a sua força, por um ano inteiro contida.

Somos um povo muito variado e mesmo contraditório: o que para alguns parecerá defeito é, para outros, encanto. Quem diria que tantas pessoas bem comportadas, e aparentemente elegantes e finas, alimentam, durante trezentos dias do ano, o modesto sonho de serem ursos, macacos, onças, gatos e outros bichos?

PERDIDOS & ACHADOS, Humberto Werneck

(…) No Maranhão, contaram-me que num remoto desfile de carnaval causou pasmo uma banda de moços — rapazes da banda, também em outro sentido. Um deles, em especial, de lira em punho, se destacava, menos por seu desempenho como instrumentista do que pelos meneios das gelatinosas cadeiras.

— Aquele ali só pode ser — cravou uma senhora.

— Qual? — indagou a amiga.

— Aquele com a lira.

O bastante para que no Maranhão (e também no Ceará) se passasse a chamar gay de ‘qualira’.

OUTROS CARNAVAIS, Ivan Lessa

Imaginemos que a vida de cada um de nós é um pedaço de serpentina. Tem uma tira de tantos metros, cor-de-rosa, que corresponde aos nossos primeiros sete anos. Outra de alguns centímetros, amarela, que corresponde aos últimos quatro anos. E outra de tal tamanho e outra de tal cor e assim por diante. Tudo espalhado no meio do chão, do salão. Rolo por rolo da serpentina, um após o outro, embrulhadinho e ainda dentro da embalagem, esse é nossa vida completa, esse é aquele que aparece — e apenas aos outros — quando morremos e acabamos.

CARNAVAL E MULHERES LIVRES, Ignácio de Loyola Brandão

No carnaval, valia camisa esporte, bermuda, sandálias, sapato sem meia, descalço, valia tudo. Nem se distinguiam os ricos dos pobres, o carnaval democratizava. Tinha gente que, depois de certa hora, tirava a camisa e sambava diante das mesas onde as mães se postavam vigilantes, para evitar deslizes das filhas, frustrando futuros casamentos. Cães de guarda, ferozes, comandando capatazes, os filhos. Ou seja, os irmãos que avançavam como buldôzers para os engraçadinhos que tiravam casquinhas das irmãs. Quantas vezes vi, errando pela madrugada, perdido, apavorado, olhar esgazeado, um irmão à procura do objeto de sua vigilância?

Pedaços de coxa guardados avaramente o ano inteiro eram desnudados e oferecidos fartamente naqueles quatro dias. Cessavam os limites, as normas severas. Por isso, os fiéis reuniam-se nas igrejas, orando quatro dias seguidos, a fim de empurrar os demônios para fora das portas da cidade. Na Quarta-feira de Cinzas, os demônios retiravam-se, prometendo voltar.

O CARNAVAL POR DENTRO, Carlinhos Oliveira

Bem, o carnaval é estar zonzo no meio da multidão embriagada. E sendo judeu (sou judeu por nostalgia), atacar de folião no Clube Sírio e Libanês. Beber uísque brasileiro legítimo. Proteger as partes pudendas das nossas acompanhantes, sempre visadas pela turma do Eu Sozinho. (…)

Carnaval é acordar com os cigarros amassados dentro do maço. É querer tirar um colar de dentes de onça e não conseguir. É estar com uma camiseta de regata e não saber onde anda a nossa camisa. É ter que mandar a crônica imaginando que o pessoal do JB vai dizer: ‘Nossa! O Carlinhos desta vez bebeu demais!’

A FESTA, Carlos Drummond de Andrade

A decoração desta cidade/ eram mares, montanhas e palmeiras/ convivendo com gente./ Acharam pouco. Há muitos anos/ acrescentaram-se bonecos de plástico, sarrafos/ em fila processional sobre as cabeças,/ brincando no lugar dos que não brincam/ ou mandando brincar, ordem turística.

Pequenos cronistas

Crônicas crianças 1

Os livrinhos de Balneário Camboriú.

Vou ser breve, não preciso explicar muito, vocês vão ver. No ano passado estive em Itajaí, pelo Sesc, onde dei uma longa oficina de crônica. Foi ótimo. Na turma, estavam a Maisa Schmitz, professora de Balneário Camboriú, e o escritor Daniel Rosa dos Santos, dono da Butecanis Editora Cabocla. Uma editora de livros artesanais, marrenta, cujo slogan é “Feito a facão”.

Como extensão natural da oficina, a Maisa, boa professora que é, resolveu levar nossas conversas e leituras sobre a crônica brasileira para a sala de aula. E criou, lá na sua escola em Balneário, um projeto simples e bacana: seus alunos, crianças de 9 anos, mais ou menos, também leram e escreveram crônicas; e, depois, inspirados pelo trabalho do Daniel, produziram seus próprios livros.

27 crianças, 27 livrinhos. Cada uma cuidou da sua capa, da sua encadernação. Abaixo, vão algumas crônicas que selecionei. Incrível como o cotidiano desses pequenos cronistas é, realmente, uma sucessão de espantos. Um trabalho que me deu a certeza de que a crônica é mesmo um gênero dos grandes.

Parabéns, Maisa; excelente Daniel. Com a palavra, a criançada.

UMA AVENTURA EM ZIMBROS

Cheguei em Zimbros pensando na trilha. No dia seguinte, fomos e estávamos na metade da mesma quando vimos um casal e eles disseram que viram um leão-marinho. Nós achamos que era mentira.

Chegamos na segunda praia e vimos uma pedra bem comprida, onde minha irmã quase tropeçou, e a Flora, minha amiga, quis sentar. Quase sentou! A pedra era um leão-marinho!

Ele levantou a cabeça e as duas saíram correndo, achando que ele estava correndo atrás delas! Mas não, ele estava muito machucado.

No outro dia, meu tio foi com a gente e ligou para o veterinário e foi comprar peixe para dar ao leão-marinho. Depois levaram ele para outro lugar, não sei onde, mas levaram. Fiquei feliz porque sabia que iam cuidar dele.

No fim, tive um sonho onde eu era o leão-marinho. Esquisito, né?

MUITO MEDO

Nesta semana, eu, a Duda, a Gabi, a Helô e a Mariana fizemos o teste da Maria Sangrenta.

Na primeira vez, nós saímos correndo. Na segunda, gritamos bem alto. E na terceira, nós botamos um lápis para ver se ela sugava.

Nós passamos a tarde toda sem ir no banheiro. Depois, em casa, minha mãe teve que ficar no banheiro comigo.

Teste da Maria Sangrenta: abrir 3 vezes a torneira, ligar e apagar a luz 3 vezes, e escrever, com batom vermelho, 3 vezes, o nome dela.

Ela vai te sugar pelo espelho.

UM SONHO

Eu sonhei que eu era um menino com asas.

Eu voava pelo céu, de vez em quando. Eu pousava num galho, pensando na vida.

Tinha uma menina comigo: ela também tinha asas, a gente sempre voava junto!

De repente, eu acordei e fiquei decepcionado. Eu queria que fosse verdade.

AS MANOBRAS

As minhas manobras são bacanas e não quero e não consigo esquecê-las!

Um dia eu peguei um tubo. Dizem que muda sua vida. Um tubo é quando a onda cai e você está debaixo dela. Daí fica um tubo e você fica dentro. E realmente muda! Eu sonhava em pegar. É lindo! Você vê a água caindo e fica batendo na onda. Quando você faz uma batida é como se você batesse mesmo na onda. Minha primeira batida eu achei tão legal, foi impressionante!

As minhas manobras são incríveis! Pena que meus pais não veem ou não acreditam… Mas eu e meus amigos sabemos. É legal e sempre será!

ANIMALZINHO ESPECIAL

Um dia, no verão, eu fui para o sítio do meu dindo. Tinha um gato que nos adorava e se chamava Farofa. Ele vivia nos seguindo.

Um dia, eu, meu irmão e meu pai fomos pescar, e ele nos seguiu. Daí nós ficamos muito tempo lá esperando e o gato só ficava comendo as iscas.

Quando nós conseguimos pegar um peixe, o Farofa foi lá e comeu o peixe.

UM MICO VIVIDO

Eu estava na casa da avó da Giulia, com a Isadora, e fizemos macarrão caseiro com molho, que estava ótimo!

No meio da noite, nós não conseguíamos dormir; então ficamos conversando até ficarmos com fome, quando resolvemos ir à cozinha.

No fim, olhamos pro lado e lá estava a porta escura e sombria do banheiro… Saímos correndo! Depois resolvemos ir de novo e de novo, até ficarmos com medo e então corremos para debaixo das cobertas, com a almofada tampando o rosto…

Eu e a Isadora saímos correndo e deixamos a Giulia sozinha.  Ela veio atrás de nós, acendemos a luz. Ouvimos um barulho no quarto dos avós da Giulia e nos escondemos na área de serviço.

A Isadora pegou um tomate pensando que era uma maçã e mordeu. Quando ela percebeu que era um tomate, ela colocou na fruteira de novo. No fim, pegamos o bolinho de chuva que estava no micro-ondas.

No outro dia, a avó da Giulia disse que nós podíamos ter acendido todas as luzes e acordado ela, para irmos até a cozinha.

O PISO

Ele era um piso que era bem pisado, era o piso da cozinha. Era um piso culpado, porque muitos garçons reclamavam dele; porque às vezes ficava molhado e assim os garçons escorregavam e derrubavam muitos pratos de comida.

O piso nunca foi elogiado nem amado. Toda semana era limpo e, quando quebrava, ninguém o arrumava. Ele era branco e cinza, mas já perdera a cor.

O dono do restaurante morreu, então seu neto de 13 anos demoliu o prédio, porque não sabia o que fazer. Então o piso foi reciclado, reutilizado, reformado, ajustado e usado numa outra obra de restaurante.

E este dono também morreu! E como não tinha ninguém para herdar, ficou ali… Ninguém entrava, porque o governo o fechou.

Assim, o piso, num mau dia, acordou e ouviu um barulho na porta:

— Bam! Bam! Bam! — três vezes.

Então, alguém abriu a porta e quatro ladrões entraram e levaram tudo o que havia no caixa: R$ 2.500,00 e todas as coisas, menos ele, o piso.

Uma semana depois a polícia já tinha pego os ladrões e o governo reciclou tudo, inclusive o piso!