Itajaí

Pequenos cronistas

Crônicas crianças 1

Os livrinhos de Balneário Camboriú.

Vou ser breve, não preciso explicar muito, vocês vão ver. No ano passado estive em Itajaí, pelo Sesc, onde dei uma longa oficina de crônica. Foi ótimo. Na turma, estavam a Maisa Schmitz, professora de Balneário Camboriú, e o escritor Daniel Rosa dos Santos, dono da Butecanis Editora Cabocla. Uma editora de livros artesanais, marrenta, cujo slogan é “Feito a facão”.

Como extensão natural da oficina, a Maisa, boa professora que é, resolveu levar nossas conversas e leituras sobre a crônica brasileira para a sala de aula. E criou, lá na sua escola em Balneário, um projeto simples e bacana: seus alunos, crianças de 9 anos, mais ou menos, também leram e escreveram crônicas; e, depois, inspirados pelo trabalho do Daniel, produziram seus próprios livros.

27 crianças, 27 livrinhos. Cada uma cuidou da sua capa, da sua encadernação. Abaixo, vão algumas crônicas que selecionei. Incrível como o cotidiano desses pequenos cronistas é, realmente, uma sucessão de espantos. Um trabalho que me deu a certeza de que a crônica é mesmo um gênero dos grandes.

Parabéns, Maisa; excelente Daniel. Com a palavra, a criançada.

UMA AVENTURA EM ZIMBROS

Cheguei em Zimbros pensando na trilha. No dia seguinte, fomos e estávamos na metade da mesma quando vimos um casal e eles disseram que viram um leão-marinho. Nós achamos que era mentira.

Chegamos na segunda praia e vimos uma pedra bem comprida, onde minha irmã quase tropeçou, e a Flora, minha amiga, quis sentar. Quase sentou! A pedra era um leão-marinho!

Ele levantou a cabeça e as duas saíram correndo, achando que ele estava correndo atrás delas! Mas não, ele estava muito machucado.

No outro dia, meu tio foi com a gente e ligou para o veterinário e foi comprar peixe para dar ao leão-marinho. Depois levaram ele para outro lugar, não sei onde, mas levaram. Fiquei feliz porque sabia que iam cuidar dele.

No fim, tive um sonho onde eu era o leão-marinho. Esquisito, né?

MUITO MEDO

Nesta semana, eu, a Duda, a Gabi, a Helô e a Mariana fizemos o teste da Maria Sangrenta.

Na primeira vez, nós saímos correndo. Na segunda, gritamos bem alto. E na terceira, nós botamos um lápis para ver se ela sugava.

Nós passamos a tarde toda sem ir no banheiro. Depois, em casa, minha mãe teve que ficar no banheiro comigo.

Teste da Maria Sangrenta: abrir 3 vezes a torneira, ligar e apagar a luz 3 vezes, e escrever, com batom vermelho, 3 vezes, o nome dela.

Ela vai te sugar pelo espelho.

UM SONHO

Eu sonhei que eu era um menino com asas.

Eu voava pelo céu, de vez em quando. Eu pousava num galho, pensando na vida.

Tinha uma menina comigo: ela também tinha asas, a gente sempre voava junto!

De repente, eu acordei e fiquei decepcionado. Eu queria que fosse verdade.

AS MANOBRAS

As minhas manobras são bacanas e não quero e não consigo esquecê-las!

Um dia eu peguei um tubo. Dizem que muda sua vida. Um tubo é quando a onda cai e você está debaixo dela. Daí fica um tubo e você fica dentro. E realmente muda! Eu sonhava em pegar. É lindo! Você vê a água caindo e fica batendo na onda. Quando você faz uma batida é como se você batesse mesmo na onda. Minha primeira batida eu achei tão legal, foi impressionante!

As minhas manobras são incríveis! Pena que meus pais não veem ou não acreditam… Mas eu e meus amigos sabemos. É legal e sempre será!

ANIMALZINHO ESPECIAL

Um dia, no verão, eu fui para o sítio do meu dindo. Tinha um gato que nos adorava e se chamava Farofa. Ele vivia nos seguindo.

Um dia, eu, meu irmão e meu pai fomos pescar, e ele nos seguiu. Daí nós ficamos muito tempo lá esperando e o gato só ficava comendo as iscas.

Quando nós conseguimos pegar um peixe, o Farofa foi lá e comeu o peixe.

UM MICO VIVIDO

Eu estava na casa da avó da Giulia, com a Isadora, e fizemos macarrão caseiro com molho, que estava ótimo!

No meio da noite, nós não conseguíamos dormir; então ficamos conversando até ficarmos com fome, quando resolvemos ir à cozinha.

No fim, olhamos pro lado e lá estava a porta escura e sombria do banheiro… Saímos correndo! Depois resolvemos ir de novo e de novo, até ficarmos com medo e então corremos para debaixo das cobertas, com a almofada tampando o rosto…

Eu e a Isadora saímos correndo e deixamos a Giulia sozinha.  Ela veio atrás de nós, acendemos a luz. Ouvimos um barulho no quarto dos avós da Giulia e nos escondemos na área de serviço.

A Isadora pegou um tomate pensando que era uma maçã e mordeu. Quando ela percebeu que era um tomate, ela colocou na fruteira de novo. No fim, pegamos o bolinho de chuva que estava no micro-ondas.

No outro dia, a avó da Giulia disse que nós podíamos ter acendido todas as luzes e acordado ela, para irmos até a cozinha.

O PISO

Ele era um piso que era bem pisado, era o piso da cozinha. Era um piso culpado, porque muitos garçons reclamavam dele; porque às vezes ficava molhado e assim os garçons escorregavam e derrubavam muitos pratos de comida.

O piso nunca foi elogiado nem amado. Toda semana era limpo e, quando quebrava, ninguém o arrumava. Ele era branco e cinza, mas já perdera a cor.

O dono do restaurante morreu, então seu neto de 13 anos demoliu o prédio, porque não sabia o que fazer. Então o piso foi reciclado, reutilizado, reformado, ajustado e usado numa outra obra de restaurante.

E este dono também morreu! E como não tinha ninguém para herdar, ficou ali… Ninguém entrava, porque o governo o fechou.

Assim, o piso, num mau dia, acordou e ouviu um barulho na porta:

— Bam! Bam! Bam! — três vezes.

Então, alguém abriu a porta e quatro ladrões entraram e levaram tudo o que havia no caixa: R$ 2.500,00 e todas as coisas, menos ele, o piso.

Uma semana depois a polícia já tinha pego os ladrões e o governo reciclou tudo, inclusive o piso!