Gazeta do Povo

O sabiá voltou

vida-breve-14

Ilustra: Simon Ducroquet

Já falei aqui sobre a Maisa Schmitz, excelente professora de Balneário Camboriú, que, junto com o escritor e editor Daniel Rosa dos Santos, criou uma série de 27 livrinhos artesanais — só de crônicas — escritos, editados e confeccionados por 27 crianças de 9 ou 10 anos. Parte desse belo trabalho vocês podem ler neste meu outro post, Pequenos cronistas.

Agora a Maisa me escreveu para contar o seguinte. Ela leu e debateu, com seus alunos, uma crônica que publiquei recentemente na Gazeta do Povo, “Sabiá de guerra”, e, depois de muita leitura e conversa, propôs à turma que escrevesse uma continuação para ela. O resultado segue abaixo. Nem preciso dizer que as hipóteses infantis para a questão levantada no meu texto me emocionaram, e bastante.

Para quem quiser entender a história toda, republico, primeiro, a minha crônica. E, depois dela, as 20 sequências criadas pelos alunos da Maisa.

 

SABIÁ DE GUERRA

(crônica publicada na Gazeta do Povo, no dia 22 de junho de 2014)

Era tão comum menino matar passarinho. Hoje vocês vão dizer que não, mas era. Entre meninos e passarinhos parecia haver certa atração ancestral, uma inveja recíproca, uma dor que vinha de longe e com tanta força que não podia ser relevada. Não sei, era como se disputassem um mesmo trono na natureza, a criança e a ave, o canto de um sabiá pela manhã lembrando um chamado de guerra, uma convocação ao combate. Os meninos o ouviam e já saltavam apanhar a setra, botar no ombro a espingarda de pressão, os chumbinhos esquentando no bolso. Corriam sondar a arapuca armada na tarde de ontem, aquele pequeno prisioneiro na neblina. O que fazer com ele, soltá-lo ou submetê-lo? Não, os meninos não tinham o céu, mas decidiam que destino dar aos pássaros.

Hoje vocês vão dizer que não, e realmente as coisas mudaram, o convívio entre crianças e passarinhos se tornou raro, são mínimas as chances de confronto. Por isso me espantei ao encontrar, semana passada, na Pracinha do Amor, um menino debruçado sobre o cadáver de um laranjeira. Já tinha visto o piá por ali antes, andando de bicicleta ou jogando bola sozinho, praticando embaixadas, driblando uma zaga de vento. Devia ter dez anos, não mais que isso e, quando nos cruzamos, sustentamos o olhar por uns quatro, cinco segundos, uma eternidade para a concentração infantil. Eu estava curioso e ele, logo vi, ansioso para falar comigo, revelar algum prodígio.

Oi, eu o cumprimentei, e ele me respondeu, circunspecto, oi. Era óbvio que vivia um momento solene, e fazia questão de demonstrá-lo, era fácil ler em seu rosto o respeito que sentia pela morte estendida diante de nós.

Perguntei o que tinha acontecido com o passarinho e, sem rodeios, ele falou: “Morreu”. Fiquei quieto, e me mantive assim por um bom tempo, na esperança de que ele me explicasse como e por que o bicho havia morrido. Queria que me apontasse um culpado, me contasse a história de um crime, pois aquele também parecia ser o seu desejo. O menino entendeu o meu silêncio e as minhas intenções, mas tudo que disse foi: “Não fui eu”.

Continuei na minha, embora tivesse mais perguntas engatilhadas. Por exemplo, o que o menino planejava fazer com o sabiá, enterrá-lo? Ele me ouviu sem olhar para mim. Puxou do bolso uma fita vermelha, bem fina e cacheada, dessas de enfeitar presente. Com a fita, enlaçou uma das pernas do animal. Enquanto dava o nó, com delicadeza, respondeu: “Não, não vou enterrar”. Levantou-se, limpou a calça gasta, o pó dos joelhos, apanhou o sabiá amolecido, aquele pescoço pendurado e tão triste, e o escondeu dentro da jaqueta de náilon. Depois assoprou a penugem presa entre seus dedos e anunciou, muito sério e seguro: “Vou pra casa, ressuscitar esse passarinho”.

Consegui disfarçar a minha surpresa, mas não a minha incredulidade. Quis saber como ele faria aquilo. É segredo, rebateu o menino. Mas me pediu atenção: se nos próximos dias eu avistasse algum sabiá laranjeira voando pelo Centro de Curitiba, com uma fita vermelha na perna, eu saberia que o procedimento havia dado certo.

Não sei se funcionou, e repasso a vocês a minha expectativa. Duvidei dos poderes do menino, confesso, mas isso não significa que eu não esteja torcendo por ele. É um milagre que espero sem ansiedade, sem fé, sem preocupação. Mas com sinceridade. E torço para que, na madrugada de amanhã, ou depois, ou ainda mais tarde, daqui a mil anos, tanto faz, aquele mesmo sabiá me acorde no meio da noite, com o seu doce canto de guerra, sua voz de flauta prenunciando novas luzes e lutas, num mundo onde os meninos ressuscitam passarinhos.

sabiá benett

Ilustra: Benett

 

MAS O QUE ACONTECEU COM O SABIÁ? 

Hipóteses levantadas por 20 crianças

 

1

Tecnicamente é impossível, mas talvez o passarinho estivesse vivo, só nocauteado, e o menino, depois de tê-lo alimentado, conseguiu acordá-lo…

Então, no outro dia ele o soltou com a fita no pé e o Luís o viu: estava voando feliz pela cidade afora, vivendo contente. E o menino, alegre, continuou a brincar.

 

2

O sabiá sobreviveu. Viveu muitos anos com a fita na sua perna. O menino devolveu a vida do coitadinho.

 

3

O menino levou-o para casa, pegou o desfibrilador e reviveu o pássaro, o pobre coitado!

E o menino ficou muito feliz e viveu muito tempo com seu pássaro. Mas um dia o pássaro morreu. E era seu melhor amigo… Ainda bem que antes, o menino tinha levado o passarinho para sua casinha, para descansar. Agora estava em paz com sua família, no céu.

O menino viveu feliz até o último dia de sua vida.

 

4

O menino levou o sabiá para casa e disse:

— Mãe, tem alguma coisa para ressuscitar esse sabiá?

A mãe disse:

— Filho, eu acho que não dá para ressuscitar. Pergunta para seu pai.

O pai disse:

— Filho, a gente pode levar para o veterinário, para ver o que ele pode fazer para ajudar esse sabiá.

Os pais e o filho levaram para a veterinária, a doutora Alexandra. Passou uma hora. Ele ficou mais nervoso. Passou outra hora ele ficou ainda mais nervoso.

Daí, chegou a doutora Alexandra. Ela disse:

— Você pode levá-lo ainda hoje!

O menino disse:

— Obrigado, doutora!

Daí, o Luis Pellanda viu aquele sabiá com a fita vermelha…

 

5

Ele levou o sabiá ferido para o hospital. O veterinário disse que ele estava bem machucado, mas tinha pulso. E deu uma coisa boa para ele beber. Depois, ele melhorou. Só que ficou um pouco sujo.

Depois, o menino foi até o lugar onde o havia encontrado e disse:

— Pronto! Agora você está livre!

 

6

O menino Evandro levou o sabiá para casa. Ele esperava uma noite com vários raios para subir no telhado, fazer o pássaro tomar um e ressuscitar depois.

A noite chegou e os raios também. Ele levantou o pássaro, que tomou um raio. Então, o Evandro viu que o pássaro estava se debatendo. Estava vivo!

 

7

Quando o menino chegou em casa, levou o sabiá diretamente para o quarto. E lá o menino fez um ritual para reviver seres vivos. Quando o menino terminou o ritual, soltou o sabiá na natureza.

Daí, o Luís, que estava andando pelas ruas, avistou um sabiá com uma fita vermelha e viu que era o sabiá que tinha morrido. O Luís não pôde acreditar que o menino tinha conseguido reviver o sabiá!!!!!!!

        

8

Quando o menino levou o sabiá pra casa, chamou a benzedeira pra ajudá-lo. Ela benzeu e o sabiá reviveu.

O menino resolveu ficar com ele, pediu para a mãe e ela deixou. Não tinha gaiola e o menino foi comprar uma. Comprou uma gaiola de prata. Voltou para casa. Depois mostrou o pássaro para o cronista.

E todos viveram felizes para sempre!

 

9

O menino levou o pássaro para a casa dele. E ressuscitou o pássaro. Depois levou-o para uma prisão, sem motivo. O pássaro fugiu. Ele era forte, pegou o menino e levou-o para bem longe e falou:

— Rouba a Dilma, que te libero, seu… Vai lá, seu coiso! Tem que roubar 1 bilhão! Daí eu te libero! Agora vai lá, vai!

O menino entra no banco, explode o caixa, rouba a grana e sai fugindo dos policiais. Dança funk, depois vai até o pássaro e dá a grana e fala:

— Quero ir para casa agora. Mas antes vou mostrar um truque que aprendi… explodir!!! Bummmm!

O pássaro morreu.

O menino volta para casa. Pega um avião. Está com a grana toda… Mas o avião cai e ele vira um The Forest. Fica locão, mata os canibais, dá tiro neles.

 

10

O passarinho não ressuscitou. Só o espírito dele ficou voando pelo ar… O menino tentou de tudo e não funcionou. Ficou triste e enterrou-o no jardim.

                        

11

O sabiá morreu de acidente. O menino levou no médico, mas não adiantou.

 

12

O menino levou o sabiá para a sua casa, mas o que ninguém sabia é que sua família participava de uma facção criminosa ligada ao tráfico de sabiás.

Ele usou magia negra para ressuscitar o sabiá, mas a polícia descobriu isto! E pediu para evacuar a casa onde estava o sabiá, já ressuscitado. Os bombeiros encontraram o sabiá cheio de maus tratos: sem asas, sem patas. Eles o soltaram no parque e o homem encontrou-o. Não sabia o que tinha acontecido, mas ficou feliz em ver o pássaro!!!!!!!!!

 

13

Primeiro ele catou vela e poeira. Chegou em casa e foi para o quarto com o pássaro. Colocou o pó, acendeu as velas e começou a macumba da cura. A mãe estava com ele, desesperada. Mas o menino curou o pássaro, que reviveu e tudo voltou ao normal na vida do pássaro e de todos.

 

14

Eu acho que o passarinho ressuscitou. O menino levou o passarinho ao veterinário e falou:

— Eu quero saber o que aconteceu com ele, doutor!

O veterinário falou:

— Ele está vivo, mas está em coma. Então ele levou o passarinho para casa e fez uma cama, cuidou dele.

 

15

O menino levou o passarinho para casa, escondeu-o num lugar e foi perguntar e pedir, a um bruxo, para reviver o pobre passarinho. Depois ele foi pegar o passarinho e levou-o para o bruxo.

Alguns dias depois, o bruxo trouxe o passarinho morto para o menino e disse que não conseguira reviver o passarinho. O menino perguntou para o pai dele se ele podia fazer alguma coisa com o passarinho. O pai disse que sabia de uma pessoa que podia fazer algo pelo passarinho…

Depois de um mês, o homem trouxe o passarinho vivo! O menino disse:

— Muito obrigado!

Depois soltou o pássaro, que voou com muita alegria!

 

16

Chegando em casa, sua mãe perguntou:

— Onde você estava? Eu estava te procurando, que susto levei!

O filho respondeu:

— Estava brincando perto daqui.

A mãe respondeu:

— Da próxima vez, me avise!

O menino disse:

— Desculpa!

E foi para quarto. Colocou o pássaro no armário e deixou aberto. E orou para Deus: que ele fosse ressuscitado!

Mas não funcionou na hora. Então fechou o armário e esperou. No outro dia, ele ouviu um barulho no armário. Parecia um canto lindo!

Quando abriu o armário, o passarinho voou para fora do quarto. Voou livre! Quando anoiteceu, o menino, triste pela perda de seu amigo, olhava para fora toda hora…

Quando foi deitar, olhou e viu um pássaro na janela, com uma fita no pé.

E o pássaro cantou uma linda canção de dormir. Depois disto, voltava toda noite e de manhã sumia.

 

17

O passarinho ressuscitou!

O menino levou-o no bolso e quando chegou em casa não mostrou o passarinho para a mãe. Entrou reto no seu quarto, tirou uma pena do passarinho; colocou-o em uma gaveta e orou para Deus revivê-lo.

O menino foi dormir e no outro dia foi ver o passarinho. O passarinho não estava na gaveta! Foi olhar lá fora… o passarinho estava voando!

 

18

O sabiá ressuscitou. Foi para casa, cantar. Os sabiás gostam de cantar muito! Eles têm bicos, tem asas e fazem ninhos com muitos galhos, gravetos. Comem muitas minhocas e botam muitos ovos! Com muitos passarinhos.

 

19

Daí, o menino levou o sabiá para a casa dele. Mas o pai e a mãe dele não sabiam que o sabiá estava ali, estavam viajando. Ele pediu ajuda para sua irmã mais velha, que tinha 25 anos. De repente, os pais voltaram da viagem, viram o sabiá morto na mão do menino… Daí, o pai dele falou:

— Que bonitinho esse sabiá!

A mãe do menino perguntou:

— O sabiá está morto?

O menino falou:

— Sim, mãe! Ele está morto.

Daí, o pai e a mãe do menino ficaram com muito dozinho do sabiá… Depois enterraram, para ele não feder tanto que nem lixo. E foi assim que terminou a historia do menino e do sabiá.

 

20

Menino e sabiá-laranjeira; homem e passarinho: sempre foram rivais, eu sei disso. Meu pai fazia isso, pegar passarinho; era brincadeira de menino…

Mas agora não. O menino acredita em ressurreição, estilo deus, mas… não acho que dê pra reviver o passarinho. Eu espero e desejo:

— Boa sorte menino, que Deus te ajude!

Eu queria ser como você, Luís Pellanda: fazer poesias e crônicas. Tenho minhas poesias na mente, prontas para escrever.

 

 

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Sambas eruditos

Paulo Vanzolini Por Ele Mesmo

Não é de hoje que o professor e tradutor Christian Schwartz é louco pelo Paulo Vanzolini. Paixão antiga. Mas só há duas semanas ele conseguiu estrear, no Teatro Paiol, em Curitiba, o espetáculo musical Samba erudito, com o Trio Quintina. É um projeto que o Christian já vinha elaborando faz tempo, um grande tributo ao Vanzolini (morto no ano passado), mas, como diz o seu próprio idealizador, “com cara de sarau literário”.

Samba erudito tem direção cênica do Márcio Abreu e da Nadja Naira. Além do pessoal do Trio Quintina, o show conta com as participações da cantora Virgínia Rosa, do baterista Luís Rolim, do violeiro Leandro Delmonico. E do Christian, claro, que assina o roteiro do espetáculo, e também canta, toca baixo e atua como uma espécie de mestre de cerimônias da noite, encaixando aqui e ali algumas referências a outros bambas de sua predileção, como Lou Reed e Dalton Trevisan.

Pois foi falando com o Christian a respeito desse show que lembrei de uma conversa que tive com o próprio Paulo Vanzolini, em janeiro de 2003. Na época eu era repórter da Gazeta do Povo e ele lançava a monumental caixa Acerto de contas, que reunia em quatro CDs quase todas as suas composições.

Abaixo, aproveito para reproduzir alguns trechos desse encontro, coisas que resgatei aqui, no meu velho arquivo. É mais um diálogo do que uma entrevista (o cara odiava entrevistas).

•••

— Você e o Adoniran são sempre citados como os maiores cronistas populares daquela São Paulo que, nos anos 50, se tornava uma megalópole. Você imaginava que seria lembrado por isso?

— Nunca. Minha intenção era fazer música dentro da minha roda de amigos. Não tinha intenções artísticas nem sociais. Depois, a coisa extravasou. O Adoniran, inclusive, era muito meu amigo.

Ele foi uma celebridade da época, enquanto você sempre fugiu da mídia, se dizendo mais zoólogo do que músico. Por quê?

— Eu não sou mais zoólogo do que músico. Sou apenas zoólogo. Música, para mim, era só um hobby.

Mas não há nada em sua obra que você considere importante?

— Importante, não. São apenas coisas que fiz para me divertir. Minhas músicas, na verdade, ficaram escondidas por muito tempo. O que calhou foi que, um dia, a Inezita Barroso precisava gravar um lado B para “Moda da pinga” e, por acaso, gravou “Ronda”. Foi aí que começou. Mas nunca desejei construir uma carreira musical. E nem quero.

É verdade que a Inezita não quis gravar “Volta por cima”?

— É lenda. Um dia, encontrei a Inezita e ela perguntou: “Tem feito alguma coisa nova?”. Eu disse: “Tenho”. E ela: “O que é?”. E cantei “Volta por cima”. Ela disse: “É muito bom. Mas não é comercial”.

— E “Ronda”? Você a compôs quando estava no Exército? Como é que foi?

— Sim, foi em 1945. Aconteceu a partir de uma série de experiências que foram se acumulando. Porque não existe essa coisa de um “fato que desencadeia uma música”. Isso é romantismo de repórter. Falam demais. Não existe uma situação ou um fato. Acontece que, quando você tem vontade de fazer uma música, olha para os lados, procura um tema e vai fazendo. Quanto a tal “cena de sangue”, tinha cena todo dia.

Mas é verdade que você não gosta dessa música?

— Ela é muito piegas. Eu tinha só 20 anos. Mas o povo gostou…

Sobre a caixa de CDs, você participou da escolha do repertório?

— Não, porque eles escolheram todas as minhas músicas.

— Mas você não compôs só 52 músicas. Tinha outras.

— Umas três ou quatro que ficaram perdidas.

— Por quê?

— Porque eu não lembro mais delas.

(Perguntei por que o Toquinho e o Noite Ilustrada não participavam da caixa, mas ele não quis comentar. Passamos a falar das cantoras, algo que o animava)

— A melhor intérprete para suas músicas é mesmo Cristina Buarque?

— Há diversas. Cada uma tem o seu gênero. A Cristina, a Márcia, a Ana Bernardo, a Virgínia Rosa. Mas eu conheço a Cristininha desde que ela nasceu. E é uma grande cantora mesmo. Um dia, o Cartola me telefonou só para dizer: “Você tem razão, Paulo. A Cristina é uma cantora para o compositor, não é uma cantora para o povão. Ela entende o que o compositor quer”. E é perfeita. Tem muita cultura. Você não pode comparar a Cristininha com a Aracy de Almeida, por exemplo, que veio de um subúrbio do Rio.

— Mas você não gostava da Aracy?

— A Aracy era um tipo. Quando a coisa dava certo para o seu tipo, ela era grande. Se não desse, era um desastre.

— Como foi trabalhar com ela na TV Record?

— Eu estava precisando de dinheiro. Fui contratado para produzir a Aracy porque ninguém queria trabalhar com ela. Era uma boa pessoa, mas tinha uma psicologia complicada. Era uma protestante que caiu na boemia. Mas eu gostava muito dela. Era simplesmente uma moça de subúrbio carioca. E as mulheres, naquele tempo, sofriam muito. Eram muito exploradas. Tinha uma turma de homens inteligentes no ambiente artístico que… A Isaura Garcia, por exemplo, foi muito explorada pelos homens. Explorada sentimentalmente.

— E a Aracy se protegia disso?

— Sim. Ela aprendeu a cantar em um coro protestante!

(Mais adiante, uma pergunta entusiasmou o Vanzolini)

— E a participação dos seus velhos parceiros em Acerto de contas?

— O Paulinho Nogueira (violonista) cantou no meu disco! Quando eu o convidei, ele fez uma exigência: “Quero o Izaías (bandolinista)”. Eu falei: “Já está no disco”. Os dois tocando juntos no show de lançamento foi a coisa mais bonita que eu já vi na minha vida. São dois gênios.

— Depois de ver esse show, você não sentiu vontade de voltar a compor?

— Não. Pelo contrário. Considerei o episódio encerrado.

Como é que você compunha?

— Eu não compunha. Nem sei tocar violão. Não toco nada. Não sei nem a diferença entre um tom maior e um tom menor. Fazia as músicas dentro da minha cabeça. Não tem harmonia nem nada. É tudo muito fácil. Não tem um grande valor artístico.

(Terminada a entrevista, lembro que o Vanzolini se sentiu aliviado e puxou um assunto que o interessava. Disse que queria falar de sua família e da ligação dela com o Paraná. Pediu que eu perguntasse a respeito. Obedeci, é claro.)

— Qual a história de sua família no Paraná?

— Ela veio da Itália para o Paraná em 1870, em navio de vela. Meu bisavô era um anarquista, dono da Fazenda Palmeira, que depois virou a Colônia Cecília. Eu só não sou anarquista porque não tive tempo de estudar o anarquismo. Mas meu bisavô, o doutor Giuseppe Franco Grillo, era também um grande coletor de História Natural. Ele colecionava para o Museu de Gênova. Convivo muito com a sua memória. Todo dia encontro o rastro dele na literatura científica.

•••

Uma última lembrança: sei que o Christian também é um grande leitor do Carlos Heitor Cony. Por isso me veio à cabeça a epígrafe daquele seu romance, Pilatos: “E assim me rendi ante a força dos fatos:/ Lavei minhas mãos como Pôncio Pilatos”. Os últimos versos de “Samba erudito”, do Vanzolini. Legal, está todo mundo ligado.