dicionário

ABC do decorador de labirintos – Parte final

W

Ilustras: Benett

 

W. C.: fonte dos desejos encanada.

 

X

 

Xadrez: esporte muito apreciado pelos pensadores. Jogo de concentração, mistura estátua com vaca-amarela. Ganha quem mantiver, por mais tempo, a melhor pose narcísica.

Xarope: chato com xis. Disponível nas versões adulto e pediátrico.

 

Y

 

Yin-yang: bola bonita e bipolar que, quando posta no chão, não rola.

 

Z

 

Zumbi: ser humano em estado póstumo e excepcional, no qual finalmente aprende a valorizar os cérebros ao seu redor. 

Zzzzz: derradeira onomatopeia da civilização, representando o encerramento de nossos trabalhos e a conclusão de todos os debates.

 

 

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ABC do decorador de labirintos – Parte 5

S

Ilustras: Benett

 

Saudade: pano de chão muito usado, mas tecido com material precioso, ainda retendo os restos da grande festa de ontem.

Segunda-feira: tiro de largada que nos soa a tiro de misericórdia.

Sexta-feira: fantasia leve que vestimos já no fim do baile. Acompanha máscara sorridente. Precede o pijama de sábado e a mortalha dominical.

Sinceridade: defeito dos perfeitos.

Sonho: 1 terreno baldio das nossas vontades 2 lixão das liberdades pessoais 3 linha reta entre o desejo e a frustração.

Subcelebridade: na sociedade contemporânea, pária criado para substituir as elites como alvo fundamental de nossa inveja, nossa troça e nosso ódio.

 

T

 

Tempo: rio bonito e caudaloso que ninguém quer ver passar. Promovido a esgoto, acabou canalizado.

Traidor: 1 mestre que age à revelia de nosso amor por ele 2 discípulo que age à revelia de nosso amor por nós mesmos 3 mariposa cuja lagarta foi o bajulador.

 

U

 

 

Urubu: indivíduo de destaque no viveiro de pavões.

 

V

 

Verme: criatura que, para realizar seu sonho de voar, deixa-se engolir pelos pássaros. A maioria, porém, acaba no papo das galinhas.

Vida: 1 labirinto sem chão 2 vale de lágrimas com status de parque aquático (ou vice-versa) 3 tobogã áspero com destino certo (ver Morte)

Vina: embutido ordinário, mas autoindulgente, considera-se uma salsicha de primeiro mundo.

 

ABC do decorador de labirintos – Parte 4

N

Ilustras: Benett

 

Narcisista: glutão de duzentos quilos a desejar os próprios pernis.

 

O

 

Ostentação: tara que nos impele a quebrar vidraças e vitrines com pedras preciosas.

Otimista: trabalhador obstinado que aproveita a lama ao seu redor para construir um imenso chiqueiro. Depois, serviço concluído, senta à sombra e fica esperando os porcos brotarem.

 

P

 

Palhaço: ator cômico, muito maquiado, pouco levado a sério. De cara limpa, todo mundo vira um.

Passado: época tão imutável quanto nossa memória é infalível.

Plateia: constelação de olhos.

Poder: rede de rabos presos.

Poeta: bandido de estrada especializado em desviar a própria carga.

Política: carrossel de muitos cavalos que se perseguem. Fixos, jamais mudam de posição, somente sobem e descem, e quem se move, na verdade, é a máquina a que estão atrelados. Feitos todos do mesmo material, diferem apenas superficialmente, nas cores com que foram pintados. Promíscuos, aceitam diversos jóqueis. Melhor não apostar em nenhum.

Posteridade: período da História que ama e privilegia a incapacidade e a insensatez de nossos piores contemporâneos.

Profeta: ilusionista cujo maior poder é convencer os outros a realizar suas visões (p.ex.: Ao bom p., o futuro nunca chega).

Predadores: carência maior da humanidade atual.

Progresso: objeto de estudo e desejo dos retrógrados do futuro.

 

Q

 

Quiromaníaco: autor que escreve para satisfazer a si próprio. Seu forte é a fantasia, em geral subliterária e autoficcional.

 

R

 

Rancor: gigante doméstico que se alimenta dos refugos de nossa grande inteligência. Para continuar crescendo, precisa consumi-la gradativamente.

Redes sociais: camelódromos virtuais onde botamos para vender tudo o que temos e somos. Como ideia comercial, caracteriza-se por uma incongruência prática: todos são vendedores e ninguém tem dinheiro.

Relógio: 1 no pulso, algema psicológica 2 na parede, janela de onde vemos o sol morrer quadrado 3 máquina que nos mede o atraso (p.ex.: Você pensa que usa r., mas é exatamente o contrário).

 

 

ABC do decorador de labirintos – Parte 3

I

Ilustras: Benett

Inferninho: pequena construção erigida para conter nossas maiores tentações.

Inimigo: entidade muito cultuada em igrejinhas literárias. Felizmente, não faz milagre.

Internet: 1 madrasta dos burros 2 habitat ideal de uma espécie cada vez menos rara: o cordeiro em pele de lobo.

J

 

Jornalista: profissional de comunicação cujos maiores talentos tendem a ser administrativos. Contratado, administra a esmola; empreendedor, administra o calote; frila, administra o vento.

Jornal literário: nas peixarias, papel vagabundo usado para embrulhar traíras.

K

 

Kafkiano: adjetivo que designa tudo aquilo de que Kafka definitivamente não gostava, inclusive sua própria obra. Nesse sentido, reservamos a ele uma posteridade também kafkiana.

L

 

Leitor: 1 carregador de bagagens que ganhou o direito de abri-las e revirá-las 2 expert em ruminação.

Leitura: ato de jogar sombras sobre um livro ao nos debruçarmos sobre ele.

Literatura: 1 instrumento impreciso de observação da humanidade. Às vezes é janela. Às vezes, espelho. Às vezes, penteadeira 2 forma mais adequada de registrar o que temos de melhor: nossa capacidade de registrar o que temos de pior.

Livro: objeto tão conveniente que foi necessário produzir, por meio de seu conteúdo, alguma inconveniência.

M

 

Mar: régua de medir horizontes.

Maturidade: condição preferencial do ser humano, em que ele já aprendeu a se contentar com pouco.

Megalomania: impulso que nos leva a lutar, até a morte, pelo trono de Lilipute.

Morte: piscina vazia onde as almas vão veranear.

Motel: ambiente seguro aonde se levar desaforos.

Mundo: do ponto de vista dos vivos, uma coisa rasteira.

 

 

ABC do decorador de labirintos – Parte 2

E

Ilustras: Benett

Eleição: artifício que, nas sociedades mais evoluídas, tem por fim viabilizar a prática de pedir votos, exótica modalidade de mendicância.

Erudição: vedete radical, extremista; ou se deita de cara, já nua, ou dança a noite toda, combinando penacho, plataforma e maiô de paetês.

Escritor: decorador de labirintos.

Esperança: 1 leve bagagem de mão que, ao contrário do que foi dito a Dante, só largaremos no dia em que formos aceitos no céu (p.ex.: Toda e. é infernal. Todo inferno pressupõe uma e.) 2 forma menos agressiva de loucura.

Ética: fonte de orgulho que, quando o tempo esquenta, é a primeira a secar.

Eternidade: grossa parede sem ouvidos.

Expectativa: espécie invisível de pássaro rapinante que, aos gritos, sobrevoa nossas cidades.

F

 

Fé: força que nos leva a rezar e acender velas mesmo sabendo que os santos não existem.

Felicidade: 1 resultado que se espera obter, a longo prazo, após o exercício diário da desesperança 2 gorda e fabulosa galinha que botava ovos de ouro. Foi morta pelo próprio granjeiro, na Grécia do século VI a.C. Ainda há quem jure ouvir o seu fantasma cacarejar, ao longe, em certas noites especialmente estreladas.

Ficção: a única saída que nos resta, já que a verdade não existe e mentir é pecado.

G

 

Glória: tipo de fumaça tóxica e colorida que se pode respirar, por alguns segundos, nas proximidades de pódios e linhas de chegada. Dissolve-se rapidamente, mas seus resíduos ainda poderão ser encontrados na necropsia. Confundida com os gases lacrimogêneo e hilariante, é sua irmã do meio.

H

 

Homem: 1 bicho de estimação do diabo, dado a ele por Deus, como prêmio por seu bom comportamento 2 animal que se torna infeliz para poder buscar a felicidade 3 único animal que se perde em sua própria floresta.

 

 

ABC do decorador de labirintos

ABC-Pellanda

Ilustras: Benett

 

A partir de hoje publico aqui, em partes, o meu ABC do Decorador de Labirintos. Um dicionário de incertezas, ruínas em constante reforma, com capitulares ilustradas pelo Benett. Pra começar, alguns verbetes das quatro primeiras letras.

A

Amor: cul-de-sac na estrada evolutiva. Chegando a ele, a humanidade ou se estabelece ou engata uma ré.

Amor-próprio: artigo que só percebemos que nos falta quando tentamos amar ao próximo como a nós mesmos.

Arrogância: móvel grande e pesado, feito de material barato, madeira verde. Exige interiores amplos, mas absolutamente vazios. Tem incontáveis gavetas, todas emperradas.

Artista: categoria tão perturbada que sente inveja até de gente morta.

 

B

Biblioteca: miragem que se desenha conforme o interesse, as capacidades ou o delírio de quem a elabora. Pode ser um labirinto, um poleiro, um parque de diversões, uma sucessão suicida de trampolins.

Bofetada: fortificante que, assim como os vermífugos, se aconselha tomar uma ou outra vez durante a vida; os cristãos recomendam as doses duplas.

Bom gosto: nome dado à carapuça favorita dos classistas.

Brasil: país cujos habitantes se destacam por sua esperteza e determinação. O brasileiro burro nasce morto, mas teima em não admitir.

 

C

Cadáver: o melhor aforista. Seu silêncio é a expressão final da nossa única certeza.

Calendário: miragem de parede, tabuleiro por correm não os dias, mas os nossos olhos.

Celebridade: estado ideal da reputação de um brasileiro, perfeito para se vender cerveja, planos telefônicos e financiamentos bancários.

Celibatário: atleta que, mesmo no calor da corrida de revezamento, se recusa a passar o bastão.

Coice: a melhor oferta do burro.

Credibilidade: qualidade que conferimos a certos mentirosos que não conhecemos.

Crítica literária: modalidade mais radical da autoficção.

Cristianismo: seita que nos aconselha a vigiar o próximo mais que a nós mesmos.

Cronista: de todos os tipos de escritor, o que mais depende da gentileza de estranhos.

Curitibano: cidadão cosmopolita indoors.

 

D

 

Destino: gato de rua, hidrófobo, que teimamos em galopar.

Deus: molde original do homem; logo após o uso, foi quebrado pela cópia.

Diabo: o funcionário mais inventivo de Deus, introdutor de grandes sucessos mundanos, como o carro de som, o cachimbo de crack, as botas pata-de-bode e os cargos de gerência.

Dinheiro: 1 abstração fantástica, paixão impossível de administrar. De todas as nossas criações, é a mais mimada. Quanto mais atenção damos a ele, mais ele nos desvaloriza. Como as flores, murcha logo após ser colhido 2 principal motivador dos crimes passionais.