David Bowie

Turno da manhã

Minha filha acorda e toma o café, sem fome, com preguiça. Pede pra por a roupa de bailarina, faz questão de me ajudar com a barba. Momento tenso, delicado. Depois quer ver um DVD do David Bowie, que bom, eu coloco. Começo a responder e-mails mais ou menos antigos, atrasados. Ela me interrompe, quer que eu veja a coreografia que ensaiou para Starman. Eu volto uma faixa, assisto ao balé, está ótimo, aplaudo, quando sua mãe chegar, mostre pra ela. Corro ao computador, dia louco pela frente. Ela pega a lupa e vai procurar insetos pelo apartamento, investigar sua rotina minúscula. Eu escaneio um talão do IPTU, pedido urgente do contador. Ela logo reaparece no escritório, eficiente, encontrou uma traça na biblioteca, uma vespa no terraço, vem, pai. Vamos, não há tempo a perder. Expulsamos a vespa, era enorme, que perigo. Já a traça não, nada a ver, foi alarme falso, uma mariposinha inofensiva, deixe ela aí, coitada. Ela vai dançar, eu vou ler um texto chato, uma pesquisa que estou fazendo. Não demora, a bailarina está aqui de novo, a cara triste, um bico. Está enjoada, diz que rodopiou demais. Quer vomitar? Não, quero um chiclete, um chiclete já me ajuda, só um chiclete. Nada feito, eu digo, serve uma carambola? Ela topa, eu corto a fruta em fatias. Ela aprova, gosta de carambola, as estrelas combinam com o David Bowie. Volto ao trabalho, a manhã avança. Há algum cansaço, uma ternura que supera as preocupações e, sobretudo, a grande certeza de estar vivendo o melhor momento da minha vida.