Curitiba

Toda toda

Na esquina da Comendador, o sinal fecha para nós, os pedestres. Duas moças saem da farmácia. Maquiagem pesada, cosméticos na sacolinha. Nem percebem o quanto falam alto, culpa da academia na sobreloja, aquela música absurda. De repente, o susto, o choque, a dupla paralisada.

— Olha, é ele.

— Não acredito.

— É ele.

— Que grande babaca.

— É ele. E com ela.

— Vai lá. Vai lá e fala com o cara.

— Não, melhor não.

— Vai, sua boba.

— Capaz. Ele com a mulher.

— Pois então. Vai lá assim, toda toda, e diz oi. Só pra ver a cara de tacho dela.

— Toda toda? Com este uniforme do colégio?

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Respeito é bom

Na calçada da Saldanha, diante da lavanderia, o homenzinho brabo. Já velho, mas a roupa justa, o brinco de brilhantes, o cinto de tachinhas, o cabelo preto pintado, a costeleta bem aparada, botinhas de caubói sobre a barra da calça. Vai contando à dona do estabelecimento um drama recente, uma discussão qualquer, vencida com glórias, só não sei contra que inimigo.

— Eu disse pra ele, você não me conhece, você me respeite.

— Boa.

— Você me respeite, tenho história, mereço respeito, eu disse pra ele, não sou respeitável?

— Que eu saiba.

— Tenho idade, respeito é bom.

— Sem dúvida.

— Sou bisavô seis vezes, eu disse pra ele, você me respeite. E mandei tomar no cu.

Musas de ferro

MusasPracaOsorioFotoEduardo

Imagem: Eduardo Aguiar

“Eu já quis ser menino de rua só para nadar sem roupa entre as sereias de ferro da Osório. As mil crianças que desde pequeno vi por lá, sempre nuas, ainda se banham no repuxo francês, e jamais cresceram. Mesmo mortas e invisíveis, algo delas restou na água turva, permanece entre nós e as feras da praça. Não sei o que é, talvez um desejo de perenidade. Faz de conta que sobreviveram à infância ruim, ou que nós, do lado de fora do chafariz, viveremos indefinidamente, no eterno ímpeto do mergulho.”

Este é o parágrafo inicial de “Musas de ferro”, uma das crônicas do meu livro “Asa de sereia”. O jornalista Eduardo Aguiar, meu amigo dos tempos de escola, conseguiu registrar exatamente um desses momentos de que falo no texto: “Será que não há ninguém pulando ali de cima, sem medo de injúria alguma, nos exibindo sua nudez sem sobras e uma saúde insuspeitada?”.

Grande foto do Eduardo, que me fez lembrar uma pequena frase do Dalton Trevisan: “O repuxo rococó na Praça Osório é o mar, o grande mar de Curitiba”.