Curitiba

Bendita blusinha

bus

Imagem: Eduardo Aguiar

 

Ela atravessou a rua na pior hora, o ônibus já abrindo pra fazer a curva e a Cândido Lopes vazia diante dele. Vi que o motorista estava tranquilo, a cara descongestionada como o tráfego, negócio raro, um homem sozinho e aquele asfalto todo só pra ele, seus passageiros silenciosos, gente boa, e o reflexo do sinal verde riscando o para-brisa, tudo favorável.

Menos pra ela. A mulher errou, confiou demais nas pernas e nas forças, não devia, mas confiou. Se corresse, ela tinha a certeza, estaria tudo bem, e por isso mandou um trote curto, sequer olhou pros lados, só pra calçada ali em frente, questão de cinco passos e um pulo, dois, três segundos em linha reta e pronto.

Mas não, pena que não era tão simples, nada é, e ela carregava muita coisa além da meia-idade e uns quilos a mais. Falo somente do que pude ver e registrar, claro, pois sei que há cargas ainda maiores, absolutamente invisíveis.

Era uma manhã gelada, e a mulher vinha de cachecol e cacharrel subindo a Marechal, de sobretudo e calça colante, botas de cano alto, saltos idem. Não estava fácil pra ela, não: trazia uma sombrinha fechada presa ao punho, e a mochila pendurada ao contrário, sobre os peitos, pra evitar ladrão, e mais duas sacolas de butique numa só mão, das ruins de segurar, e uma pasta gorda de papéis debaixo do braço. Tudo isso fora a maçaroca de panos sobre os ombros e ao redor do pescoço, mantas, xales, roupas sobressalentes, sei lá, impossível entender o arranjo. Só sei que era inevitável que algo, daquilo tudo, caísse durante a travessia da Cândido Lopes, e bem no meio da rua, diante do ônibus que já abria pra fazer a curva.

Não deu outra. A mulher seguiu o plano, deu cinco passos e um pulo, chegou à calçada, mas, esperem, algo ficou pra trás: no asfalto, largada, restou uma blusa pequena, vermelha, de tricô, pontos grossos, um trabalho refinado prestes a ser destruído, que dó, já era.

Ou não: ao perceber que a tinha perdido, a mulher deu meia-volta e voou apanhá-la. Coragem ou desatenção? Abaixou-se ali, a inocente, sem tomar conhecimento do veículo que avançava sobre ela. Meia dúzia de passantes gritou cuidado, meu deus, olha o ônibus, e o motorista, aquele da cara descongestionada, pisou no freio até quase partir o joelho, coitado, o solavanco amontoando os passageiros uns sobre os outros, mas todos se chocando em silêncio, quase organizadamente, pois eram curitibanos acidentados, e fazemos nossos cálculos antes de gritar de dor ou de medo, temos vergonha até de sangrar, tão ridículo é ferir-se.

Só que tudo bem, ninguém se machucou, não dessa vez, nenhum sangue à vista, nenhum osso exposto, e a mulher foi salva do atropelamento por um palmo de distância, não é exagero, eu juro. Blusa vermelha recuperada, atirou-a sobre o ombro e caiu fora, nem agradeceu ao motorista, nem se desculpou, um absurdo. Apenas saltou de novo em direção à calçada e sumiu na Praça Tiradentes, bem viva e ilesa, quem sabe imortal, não duvido de nada.

O povo à porta dos comércios não a perdoou, mas que idiota, essa daí merecia ter morrido, ah, merecia sim. Por uma blusa, diziam todos, por uma bendita blusinha vermelha de tricô, quem diria, vê se tem cabimento, por uma blusa, e teve até quem berrasse, ao vê-la desaparecer entre as figueiras da praça, ó sua louca, o tipo dessa imbecil, abre o olho, bicho burro irresponsável, tinha que ser mulher, só podia, afinal, por uma blusa, lançar-se assim, desvairada, sob os eixos de um ônibus?

Débil mental, nada menos que isso, ela era uma débil mental, a suicida que nasceu de novo e acabou rebatizada pelo povo, a louca, a retardada perfeita, diziam todos, uns na porta do hotel, outros na entrada do banco, no ponto de táxi, sob o toldo das lanchonetes. Cem juízes de pastel na mão, duzentos promotores com a boca cheia de farelos, todos proferiam seus duros vereditos, pois essa merecia, ah, mas tinha que ser é virada do avesso, precisava mesmo de ser internada, melhor estivesse ali mesmo, bem esmagada, e não à solta pela cidade, já imaginaram, o corpinho sendo arrastado defronte à escadaria da Biblioteca Pública, a marca horripilante dos pneus, aquela freada dupla com cabelos, já imaginaram, e de que adianta uma pessoa assim viver no mundo, um risco à segurança de todos, antes ela do que nós, já pensaram nisso?

Sim, todos já haviam pensado em tudo, mas a ninguém ocorreu, e nem a mim, buscar entender que blusa era aquela. Ah, a bendita blusinha, tricô dos anjos, a quem será que vestiria logo mais, talvez ainda naquele mesmo dia de frio em Curitiba? A quem a mulher maluca, tão agasalhada, já a teria destinado, aonde corria com tanta pressa? Quem a tricotou, bendita blusinha, e há quantos anos, ou meses, ou noites, e com que fim? O de vendê-la numa feira de artesanato, presentear um neto ou uma filha, doá-la a um menino sem futuro, a uma instituição de outros doidos?

Não, ninguém notou, naquela blusa, a sua trama de mistérios. Ninguém viu que, ao apanhá-la do asfalto, o ônibus já a dois metros de seu coração, sua cabeleira ondulando conforme a respiração quente do motor, aquela mulher logo mergulhou nela o rosto pálido, viciada, e aspirou profundamente a sua lã de fios vermelhos, e pensou que, nossa, essa foi por pouco, por muito pouco mesmo, quase perco esta blusinha querida e, ah, eu não me perdoaria jamais.

E a ninguém ali ocorreu, e nem a mim, que o motorista do ônibus também não mereceria carregar aquela morte nas costas até o fim de sua trajetória de homem de bem. Pois a cada noite, deitado em sua cama de casal, ao lado da esposa adormecida, é certo que se lembraria não do cadáver da mulher apressada, tralha presa ao para-choque dos seus sonhos e pesadelos, mas sim dos contornos já lasseados daquela bendita blusinha vermelha atropelada.

E sempre que a visse por aí, aquela peça de roupa tão comum, encontrável em qualquer balaio do Centro, sempre que a descobrisse, sei lá, vestindo sua filha, sua mãe ou sua esposa, cobrindo os seios de uma bela artista de novela ou o colo de uma cantora sertaneja famosa, aquecendo a respeitável mulher do pastor ou a nova cobradora de sua nova linha, aquele motorista sentiria mais uma vez a perna esticar-se, longa e incontrolável, e seriam dez quilômetros de perna numa cãibra mortal, irreversível, à procura do freio de todas as coisas.

E a ninguém ocorreu, nem a mim, naquela hora ruim em que a mulher decidiu atravessar a rua, aquele momento em que todos nos unimos numa fraternidade de bom senso, ódio e precipitação, que a blusa vermelha daquela mulher era, na verdade, a sua asa de sereia, a parte indecifrada de suas posses, o apêndice secreto de cada um, e que, como tal, permaneceria para sempre intocada, protegida, inviolável.

Ninguém percebeu, e eu muito menos, que aquela mulher, ao apanhar sua blusa e debruçar-se diante da morte, não corria risco algum.

 

 

Anúncios

Pedágios e invocações

 

Invocações

Imagem: Eduardo Aguiar

 

Um homem igual a mim, e que atende pelo meu nome, passa três vezes por semana, às segundas, quartas e sextas, pelo calçadão da Monsenhor Celso, bem ali onde a rua desemboca, ruidosa, na correnteza da Praça Tiradentes. É uma encruzilhada típica, um triste ponto de pedágios e invocações, compras e vendas. E sempre que enfrenta o velho cruzamento, pela manhã, o homem que usa o meu nome, assim como toda gente, é obrigado a deixar no local uma dádiva, uma oferenda, uma paga. Ele deixa. Mas até hoje não descobriu exatamente o quê.

Uma mulher atarracada e sem pescoço, vestindo blusa e gorro de lã, é a primeira a abordá-lo. Ela o elege entre tantos pedestres, é aquele, o macho de meia idade, nunca falha. Estende ao homem um panfleto em papel brilhante, ilustração e legendas coloridas. O conteúdo varia, mas a mensagem, em geral, é a mesma. No panfleto retangular, o que se lê é algo como SÓ FERAS, ou GATAS D4, as letras e os números de telefone em amarelo, rosa e roxo, acompanhando fotos reais e sem retoques de belas moças nuas, em posição invariavelmente quadrúpede.

O homem diz não, obrigado, despreza a isca da mulher atarracada, que no fundo não dá a mínima para ele, sequer o olhou nos olhos. Aquela é só mais uma rejeição em sua vida, e dessa vez a rejeitada nem foi ela, ela está de pé, vejam, o corpo ereto, e não rastejante, como a beleza irretocável nos papéis que distribui.

Mais adiante, o homem que usa o meu nome é chamado por outra mulher, que não sabe o nome dele, e por isso o chama de amigo. Ela é bonita, não tanto quanto a moça de quatro do panfleto, mas é alta e loura, bem maquiada, e veste roupas sóbrias, parece confiável, por que não parar para ouvi-la? Ela posa ao lado de um cavalete cheio de revistas, sentinela, despertai, renasçamos, coisas assim, e diz bom dia, amigo, você já conhece nossas publicações, pode pegar uma, vem cá, vem que é de graça, olha a oportunidade.

Mas o homem diz não, obrigado, e a mulher bonita se ressente um pouco, normal, e até desiste de sorrir. Recusar uma oferta sua é como dizer não à própria pureza, reclamar de uma manhã de sol, de um céu azul, e puxa, foi para ele que ela se vestiu ao acordar, foi para ele que se perfumou, e lavou os cabelos, e redesenhou a boca com um batom claro, discreto, mas atraente. Afinal, o que quer este homem que segue impassível, para onde ele vai, quem o espera, por que não me compra, e para quem já terá se vendido?

Ninguém sabe, nem ele. Dois, três, quatro passos mais e uma terceira mulher lhe aparece, uma senhora em roupas menores, desprotegida no outono curitibano, coitada, as pernas finas e a cintura tão larga, os ombros caídos e o rosto rude, o tédio em meias-arrastão. Ela emparelha com o homem que usa o meu nome e cochicha assim, sem convicção nenhuma, vontade zero, vamos lá? É uma pergunta mecânica, e sua voz, ao perguntar, soa como se saísse de um robô anacrônico, sim, ela é tecnologia ultrapassada e se comporta como tal, uma máquina sem fé, lampadinhas pifadas, produzindo um sussurro metálico, vamos lá? E é com ouvidos de lata e ferrugem que essa terceira mulher escuta um terceiro não, obrigado.

Agora é a vez do cara da agência de empregos, um sujeito grande e sanguíneo. Ele vai seco, confiante, na direção de sua caça, e pretende atacá-la com seus punhados de filipetas vagabundas, armadilhas em papel-jornal, e melhor seria se fossem tecidas em papel pega-moscas, esses recadinhos em preto e branco para quem perdeu não a esperança, mas o direito de exigi-la em papel de qualidade. O cara da agência de empregos estica um de seus panfletos para o homem que usa o meu nome, seu imenso braço tipo uma cancela a lhe barrar a passagem. Mas não, o outro não lhe dá atenção alguma, e passa batido por ele, não diz não nem agradece, já está de saco cheio daquilo, cai fora.

E só então o último da fila, o moço-sanduíche do restaurante popular. Um rapaz miúdo que garante, aos berros, que a comida preparada logo ali é muito boa, barata e caseira, e nos promete que seremos atendidos como reis e rainhas, embora nosso reinado, infelizmente, tenha de durar pouco, pois o serviço por lá é rápido e eficiente, e quando você vê, já está na rua de novo, a digestão bem adiantada, satisfação absoluta e felicidade à vontade, e felicidade, acreditem, por somente seis reais, é pegar ou largar, você me dá seis reais e eu te dou lasanha, feijão e frango frito, garçonete, televisão e cafezinho, adoçante ou açúcar, você escolhe, tudo de bandeja para nós.

Sem saber por que razão, o homem que usa o meu nome recolhe a filipeta do moço-sanduíche, é possível que goste do sujeito, e agora é ele quem age como um autômato. Estica a mão, os dedos em pinça, e apanha o papel (brilhante) que o moço-sanduíche lhe oferece, mas apenas para atirá-lo na lixeira ali em frente, sempre cuidando, é claro, para que o rapaz não o veja se desfazendo de suas ofertas de alegria, poder e paraíso, pois não quer ofendê-lo, ninguém quer, mas, engraçado, todo mundo o ofende, pobre menino.

***

Nas terças e quintas, porém, outro homem igual a mim passa por aquela mesma encruzilhada. E ele também usa o meu nome. A diferença é que este homem, sempre disposto, ainda forte, tão forte quanto eu, traz na garupa uma menina, sua filha.

A mulher atarracada não o detecta, a paternidade é o seu manto da invisibilidade, e ele a trespassa incólume, somente um tanto incomodado, uma coceirinha nos olhos, outra no nariz; ele a trespassa não como se fosse o vento entre as Arcadas do Pelourinho, mas como se a mulher atarracada fosse uma teia de aranha inútil, sem cola, à espera do espanador. Já a mulher bonita se dirige não ao homem com a menina na garupa, mas à própria menina, quer ganhar uma revistinha, minha princesa? E a terceira mulher, a velha senhora oferecida, nestas manhãs de terça e quinta nem se oferece mais, não a este cliente, apenas se contenta em acenar para a filha dele, que amor que ela é, e trocam beijos entre si, a senhora e a criança, e os sopram no ar frio, os beijos quentes fumaceando, e os capturam feito borboletas apetitosas, com a delicadeza, a fome, a precisão dos passarinhos.

O cara da agência de empregos se recolhe à passagem da dupla, dá as costas ao seu avanço e se afasta apressado, o que adianta? Os papéis vagabundos em suas mãos se incendeiam, ele tenta escondê-los, guardá-los no bolso, mas suas calças também se queimam, suas unhas faíscam, e em poucos segundos ele vira uma tocha subumana, uma fogueira sem vaidades consumindo a si mesma, adeus, braseiro miserável, apagando-se num redemoinho de cinzas.

O moço-sanduíche não, é de outra estirpe, orgulhoso. Ele se mantém inteiro, e reage naturalmente, parece íntegro, e talvez até o seja, guarda um sorriso sincero para a menina, que sorri de volta. É para ela que o rapaz dirige o seu papelzinho colorido e brilhante, o pai não interessa, jamais interessou. A menina apanha o panfleto e agradece, obrigada, e o moço-sanduíche diz de nada, embora não prometa mais coisa alguma, nem comida boa, barata e caseira, nem felicidade à vontade, pois sabe que para uma criança não se mente impunemente, e sabe disso porque ainda se lembra: ontem mesmo ele era um menino, a quem mentimos tantas e tantas vezes.

***

O homem das segundas, quartas e sextas segue sozinho por ali, tem poucos medos e, mesmo assim, todos eles vagos e meio estúpidos. A possibilidade remota de um câncer no intestino, a suspeita do fígado minado por tumores, as infecções galopantes, uma pinta escura nas costas, e aquela fisgada no pescoço, que já dura três semanas, o que seria?

Já o homem das terças e quintas tem muitos medos, temores incontáveis, e todos eles de alguma forma ligados à menina que traz na garupa. O pior deles: que, um dia, pai e filha encontrem, na encruzilhada das almas e dos anjos da Monsenhor Celso, o homem das segundas, quartas e sextas, e que, a partir deste encontro, a menina não mais o reconheça.

 

 

Minha guardinha querida

Praça Santos Andrade, mãe e filho na fila do Piraquara. O piá, boné pra trás, esbraveja:

— A assistente me avisou, uma palavra que eu disser e você não é mais minha guarda.

Ela quieta, nem se defende. Ele não alivia, parte pra cima:

— Perde tudo, até os outros.

Em volta, o mundo impassível, o silêncio dos ônibus. Meio minuto e a mulher, uma carranca remoendo ideias, enfim se pronuncia:

— Nunca imaginei, quem diria.

O piá se irrita, desde quando você tem imaginação, imaginou o quê? E ela, pedra falante:

— Ser mãe é cuidar de um presídio.

 

 

 

Os gatos do guapuruvu

gatos

Imagem: Eduardo Aguiar

Não faz muito tempo, em Curitiba, ainda era possível dormir na rua. Eu mesmo, antes dos vinte anos, recorri algumas vezes a esse expediente emergencial. O madrugueiro demorava a chegar, e as marquises, os gramados, os bancos de praça pernoitavam vazios, sempre limpos, uma tentação para tantos bêbados pedestres. Era outro século, e a cidade, uma paisagem de poucos zumbis, raros assassinos. Ou talvez já fossem muitos, não sei, e apenas se recolhessem mais cedo, para matar ou morrer no seio da família, vocês sabem como podem ser absorventes as fantasias domésticas.

Mas lembro que uma noite, vindo não sei de que bar ali na Amintas, eu descia a rua em direção à Praça Santos Andrade quando precisei parar, as pernas não respondendo mais, trançadas, pedindo descanso. Olhei para o grande guapuruvu ao lado do Guaíra, imenso e sólido como o próprio teatro, e de pronto percebi estar diante do esconderijo ideal. Era deitar entre suas raízes, as costas coladas ao tronco largo, e me deixar apagar, sereno, escondido dos carros que minguavam ladeira acima.

Curitiba, tão quieta, não reclamou do meu cansaço, não nos incomodávamos, ela e eu. A única preocupação era despistar a polícia, ficar bem mocado, e evitar o perigo das hipotermias. Naquela madrugada o frio era moderado, não tinha jeito de homicida, e assim adormeci depressa, de vez em quando ouvindo o ronco manso de algum automóvel atrás de mim, seus faróis jogando uma luz enviesada contra a árvore, a sombra do gigante correndo nas paredes do teatro.

Não sei dizer se dormi muito ou nada, e isso, agora, nem faz diferença. O que sei é que fui despertado por um ruído misterioso, uma cantoria aguda, chorosa, e que vinha do alto, de algum lugar acima de mim, feito um coro de duendes. Firmei a vista com dificuldade, a ressaca instalada antes mesmo do fim da bebedeira, o corpo mais rígido que o esperado para uma noite de outono. E o que vi, entre os galhos do guapuruvu, foi uma coleção de olhos brilhantes me observando, misturados às folhas miúdas da árvore. Nenhum deles piscava, nenhum se movia, apenas emitiam o seu código intermitente, aquela chata melodia de gemidos.

Me acostumei ao escuro da copa e não custei a decifrar a visão. Era uma turma de seis ou sete gatos brancos, pendurados aqui e ali, seus miados insistindo em parecer uma mensagem. Não tive dúvida de que tentavam me dizer alguma coisa, pensei que provavelmente me ofendiam, talvez criticassem meu mau comportamento, reclamassem da invasão de seu espaço. Finalmente irritado, a testa doendo, perguntei, engrossando a voz:

— O que é que vocês querem?

Os gatos do guapuruvu emudeceram, mas satisfeitos, como se tivessem atingido um objetivo. Um deles, o mais graúdo, desceu de ponta-cabeça pelo tronco, com inegável elegância, as unhas firmes e reluzentes, até se acomodar num galho relativamente baixo, mais próximo de mim. Dali ele me olhou com o que a princípio julguei ser uma expressão de gravidade, mas que logo interpretei como ironia, pois, tenho certeza, o gato sorriu. Foi um sorriso meio de lado, sofrido, uma luta do felino contra as limitações de sua anatomia, mas foi um sorriso.

Quando se tornou evidente que me diria alguma coisa, talvez o seu nome, a boca e os bigodes já se desenhando para o milagre da palavra, sua língua rosada subindo ao palato, fomos interrompidos por um estrondo pavoroso. Levantei assustado, num pulo, instantaneamente sóbrio. A poucos metros de nós, no cruzamento da Amintas com a Tibagi, dois carros fumegavam, abraçados um ao outro, o asfalto salpicado de vidro. Quando me refiz da surpresa e voltei a olhar para a copa do guapuruvu, todos os gatos já haviam fugido. Para onde, não sei.

Mais de duas décadas depois, continuo a passar por ali, de manhãzinha, com minha filha, rumo à natação, e encontro a árvore ainda em seu posto, mais bonita do que nunca. Sei que estamos bem mais velhos, o guapuruvu e eu, ambos plantados em Curitiba no início dos anos 70, só que ele, agora protegido pelas leis ambientais, goza a garantia de que jamais será derrubado.

A gataria decerto já morreu. Mas não a impressão daquele sorriso louco que registrei, faz vinte e tantos anos, num simples sonho de bêbado. O sorriso do gato do guapuruvu deve ser o tal sorriso de Curitiba, um repuxar desta velha Boca Maldita. A careta de um bicho irônico, interrompido, calado bem na hora de dizer a que viemos.

 

 

O velho com a menina no colo

Pracinha do Amor

Imagem: Eduardo Aguiar

Fazemos o mesmo caminho, ele e eu, todo dia, mas nunca juntos. Subimos a Ébano, cruzamos a Pracinha do Amor, pegamos a Saldanha até a Cabral. Depois é cada um para o seu lado, boa tarde, não sei para onde ele vai, não somos amigos. Nossos horários também batem, exatos, a entrada e a saída das escolas, a hora do almoço, o fim do expediente.

Na verdade somos quatro, duas duplas no páreo. Eu com minha filha, ela já apressada, me puxando pela mão, a nova mochila de rodinhas conosco, vencendo calçadas cada vez piores, mais sujas. Já ele não, nada de filha. Vai com a neta no colo, talvez bisneta, é mais provável, umas oito décadas de diferença entre os dois, no mínimo.

O velho se esforça, heroico, patético. A menina dele bem que podia ir andando, tem dois anos e tanto, mas eu sei que não é esse o desejo do avô. Ele a quer no ar, suspensa, bem longe das pedras soltas do calçamento, do mau cheiro das nossas vias, do lixo que se acumula debaixo dos postes. Quer a neta em seus braços e não a libertará jamais, não descuida dela um segundo, e anda assim, torto e cansado, mas irredutível, como quem não se desfaz de um saco de ouro garimpado ao longo de toda uma vida.

Tampouco ela faz questão de palmilhar o chão distante e contaminado, tão tranquila. Apesar de pequenina, é evidente que já pesa muito para o avô, e o sofrimento físico a que o submete é cruel, ruim de ver, me enche de angústias, me faz pensar numa pena autoimposta, uma penitência amorosa, o amor como castigo, a bola de ferro no tornozelo, e, sim, acabo achando que o velho deve ter feito por merecer essa carga, o que terá aprontado, quais crimes?

Vai devagar, meio de lado, usa bons sapatos e manca um pouco da perna direita. Comenta-se que tem dinheiro, farta aposentadoria, automóvel caro. De qualquer maneira, dizem, não está mais autorizado a pilotar, é um risco. Não que ele ligue, descobriu só na velhice o sentido simbólico de ser pedestre, a neta veio ensiná-lo a caminhar, a ler as ruas, reescrever sua história com os pés. E não importa a estação, pode até estar frio, ele sua muito, culpa do quase infalível paletó de lã, os cotovelos remendados com couro e o velho suando, vermelho, mas sem brigar com o suor.

Embora pareça, não está vestido para trabalhar. Decerto quer aparentar alguma produtividade tardia, já o vi até de gravata, um despropósito, penso que com isso pretenda preservar a elegância ou a ilusão de sucesso de tempos passados, dizem que advogou e, em épocas imemoriais, teve um nome. Pode ser. Muito poucas vezes o encontrei apenas de camisa, desobrigado da cerimônia. Mangas arregaçadas só em tardes de calor excessivo, tão raras em Curitiba, mas sim, já aconteceu.

Já o vi livre dessas formalidades, dos panos com que se esconde, já vi partes de seu corpo e posso garantir, é humano, eles estão lá, sim, aqueles braços finos de homem velho, sem musculatura visível, sem nervos viáveis, apenas osso e pele que se adelgaçam, e tremendos hematomas acusando o uso de algum afinador de sangue, e uma arritmia que avança, aquele fole de vaidade se esvaziando, um organismo sem fôlego, sem forças, sem música.

Aliás, um perigo o velho subindo os oito degraus à sombra da sinagoga abandonada, ele quase deixa de respirar durante o percurso e, lá em cima, precisa esperar uns dez, quinze segundos, os olhos fechados, para só então retomar a marcha. Mimada, a menina não ajuda, sequer pensa em ajudar, apenas segue impávida em sua liteira de sonhos, os bracinhos largados de marionete e o olhar majestático sobre um mundo que, para ela, tão elevada, é e será, sempre, submundo e nada mais.

Quando chove, drama corriqueiro, a coisa se torna ainda mais penosa. A neta vai equilibrada no antebraço esquerdo do avô, que escora o guarda-chuva preto, pesado, aberto, em seu ombro direito. O velho segue encharcado e a menina seca, um sacrifício em nome de sei lá o quê, acho que de sua reputação de macho, eu já disse e me garantiram que ele foi alguém um dia, e não somente este carregador de anjos sonolentos. Mas qual o problema? Hoje, mesmo incógnito e até lamentável, não há na vizinhança quem não o admire e, ao mesmo tempo, tema por sua segurança. Eu mesmo sempre os sigo de perto, se acontecer de caírem, estarei ali, tentarei salvar a menina, juro, só não posso prometer nada, não me cobrem.

Ninguém mexe com o velho, e isso merece um parágrafo, uma comemoração. Os bandidos daqui, ao menos os novatos, ainda respeitam os homens adultos que conduzem suas crianças, sei disso por experiência própria. Eles falam mais baixo quando passamos, evitam os palavrões e as fórmulas de ameaça, repreendem-se uns aos outros, nos abrem caminho, dão boa-tarde às meninas, até nos mostram dentes pouco treinados para o sorriso, fazendo com que nos sintamos meio femininos, meio emasculados. Mas está ótimo, admito. Não sei por quanto tempo isso ainda vai durar, essa trégua, acho até que está prestes a acabar, mas sem dúvida é ela que ainda nos permite viver e amar nesta cidade com cada vez menos recursos afetivos.

Ainda há, em todo caso, longos intervalos de paz. E a única vez em que vi o velho sem a menina foi à noite, num desses momentos em que a guerra se dilui em meio às luzes amarelas de Curitiba, ele sozinho, sentado num dos bancos da Pracinha do Amor. Eu passava por lá a caminho da panificadora Fênix, uma boa coincidência, e como notei que havia três estrelas no céu sobre a sinagoga, um luxo para os nossos padrões nublados, decidi me acomodar no banco diante dele e aproveitar o espetáculo noturno.

Era cedo, e o frio, um dos primeiros do ano, mesmo moderado, já bastava para espantar da área os traficantes e os malacos. Tudo estava calmo, o movimento nas ruas ainda intenso, o pessoal empreendendo aquela viagem diária de um sonho a outro sonho, saindo de seus escritórios e indo resgatar seus carros nos estacionamentos da Ébano, da Ermelino, da Saldanha.

Sereno, o velho olhava as moças que passavam. E as olhava com gosto e por hábito, como dizia o querido Ivan Angelo numa de suas crônicas bonitas, olhava porque fazia aquilo desde menino, e porque olhar as moças consertava o seu dia. As moças passavam por ele e por mim, e ele as apreciava, assim como eu, só que ele sem muita atenção ou meta, sem provocar nelas reação alguma, fosse de nojo, medo ou interesse, era somente um senhor de paletó num banco de praça, exercendo com maestria o seu maior poder, o de ser vagamente nebuloso, uma presença quase gasosa, uma vitalidade aerada treinando para a dispersão final.

Creio que só eu visse o velho, e ele não se incomodava com isso. Depois de cinco ou dez minutos, puxou do bolso interno um maço de cigarros. Acendeu um deles, não reconheci a marca, e começou a fumá-lo investigando o céu, o queixo erguido com dificuldade, o pescoço perdendo suas dobras. Sua vista, logo vi, devia estar péssima, pois não demorou muito e me disse, reclamando:

— Não tem mais estrelas nessa cidade.

Eu concordei, não tem mesmo, mas olhei para as três estrelas brilhando sobre nós e pensei que, em breve, eu também não as veria mais, e que importância elas deixariam de ter, então?

O velho fumava com prazer e calma, era outra pessoa, e nela não havia nenhum resquício de pressa ou remorso. Mas eu suspeitava de que ali, naquele banco de madeira, não estava o verdadeiro homem, a carcaça impossível de ser detida, e sim uma fantasia a que ele se entregava quem sabe se uma ou duas vezes por semana, se tanto.

É, o verdadeiro velho era o outro, era o lugar onde estava o seu amor, era aquela máquina engasgada movida a orgulhos e martírios, ladeira acima, barranco abaixo, era o burro, o reles burro, o eterno burro que, à beira dos abismos, ainda precisava transportar os seus bens mais preciosos, o capital da sua alma, as suas últimas esperanças.

 

 

 

Recado ao desembargador

Ontem testemunhei o encontro entre um famoso vagabundo da Boca Maldita e um desembargador obscuro. Entre eles, o relacionamento era antigo. O desembargador, ao ver o vagabundo, teve um desgaste, irritou-se, coisa deles. Sacou do bolso uma nota de cinquenta.

— Toma! Leva esta nota e gasta tudo em pinga!

O outro foi apanhá-la, esticou a mão, mas o primeiro puxou o prêmio, impôs a condição inesperada:

— Mas olha: é pra você morrer! É pra beber e morrer! Por favor, não se esqueça de morrer!

O vagabundo topou e sumiu Ermelino acima, deixa comigo, a onça no bolso.

Hoje de novo se encontraram, de novo fui testemunha. O desembargador não se conteve, até se enfureceu diante da visão indesejada, deu um tapa na testa alta, você por aqui, é o fim, ou pelo menos deveria ter sido.

— Não mandei você morrer?

O vagabundo, com a serenidade das almas salvas, explicou que na real morreu, morreu, sim, e inclusive subiu aos céus, só precisou voltar para entregar ao doutor um recado, um aviso, um lembrete importante, quer ouvir? Contrariado, o outro disse que sim, mas apressou o espírito mensageiro, diga logo, tenho uma consulta médica, um cafezinho marcado, um cliente à minha espera, os netos lá em casa.

O falecido sentiu que era o seu dia. Sorriu, enchendo o peito, e depois fez uma cara séria, a fisionomia digna dos finados, a monocelha de quem conheceu a grande verdade:

— Do lado de lá, meu pobre, tu não resolve nada com teus cinquenta paus.

 

 

Pinóquio na Tiradentes

Pinoquio

Imagem: Eduardo Aguiar

Se alguém o traz até aqui, no colo ou numa caixa, dia sim, dia não, ignoro. Como faz para ir embora, também não sei, apenas suponho que não passe a noite sozinho na Tiradentes, exposto ao sereno e à violência. Ele parece, aliás, estranhamente saudável, descansado, limpo. Sempre que o encontro na praça, já está acomodado em seu banco favorito, perto do marco zero.

É como se um ventríloquo o tivesse esquecido ou abandonado ali. Imagino o homem parando para engraxar os sapatos. Pensou na vida ao contar as poucas moedas, quantas festas infantis ainda suportaria, quantos programas de calouros, e de repente decidiu mudar tudo. Deixou para trás o seu velho e querido boneco, aquelas perninhas condenadas, imóveis e pendentes, um pedacinho de pau à espera do sopro de um novo deus. Tão parecido com a gente.

Não, não se trata de um anão, somente é miúdo. Tem uns setenta anos, ou bem mais que isso. Impressiona pelo paletozinho impecável, xadrez, as botinhas de brinquedo e os olhos azuis, tão abertos e tão claros, olhos de fonte jorrando da pedra, aquela transparência de água mineral engarrafada. Senta-se na ponta direita do banco, não falha, nunca muda de posição, o queixo colado à ombreira direita, as mãos de criança sobre as coxas e as calças de lã, mal segurando a sua bengalinha, único indício de que é vivo, é um de nós, é capaz de caminhar.

Em geral não se move. Pelo menos até conseguir companhia. Porque é só um desavisado ocupar o espaço à sua esquerda, estacionar no banco para um cochilo de cinco minutos no meio da tarde corrida, para que o calor ou a miséria do intruso, tanto faz, acionem no velho alguma engrenagem oculta. Algo dentro dele desperta, ele todo é uma máquina que acorda, movida a esperanças e outros vapores, quem está aí? Sua cabeça perfeita, redonda, de cabelos brancos penteados com gel, gira sobre o pescoço fino, cento e oitenta graus vencidos lentamente, as vértebras estalando, tique-taque, tique-taque, e a boca do boneco enfim se abrindo para falar, ouçam.

Só vemos os seus dentes de baixo. Seus dentes e a língua vívida da criaturinha, uma língua vermelho-morango e sem dúvida jovem, o mais ameaçador dos músculos. É com ela que o homem empreende a sua conversa, fala, fala e dificilmente escuta, deve ter tímpanos de peroba ou imbuia, gosta mesmo é de falar, só falar, e surpreende ou mesmo encanta os caras que o ouvem, primeiro espantados com o fenômeno da madeira falante, animada, e depois, talvez, com o teor de seu discurso.

De tanto vê-lo conversando, um dia caí em tentação, quis escutá-lo. Imprudente, decidi me sentar também ao seu lado, eu à sua esquerda, na imatura intenção de provocar o velho Pinóquio, sei lá, vai que o homenzinho é também uma espécie de oráculo, um gênio roído de cupins? Vai que, brincando, ele dá um jeito em meu futuro, me abre os caminhos, me sugere o tema da crônica da semana que vem? Já seria lucro dos grandes.

Sua reação a mim foi rápida, imediata. Girou o rosto envernizado em minha direção, os cílios curvos subindo e descendo devagar, o nariz pontudo lembrando um relógio de sol, a pele enrugada levemente enrubescida, e, sem qualquer saudação, foi logo me perguntando:

— Gostas de moças bonitas?

Pego no susto, não entendi direito, oi? Ele se irritou, repetiu a pergunta numa ênfase impaciente, diz, diz de uma vez, gostas ou não gostas? Eu disse que gostava, é claro que gosto, e ele apontou com o queixo para um outro banco, bem perto do nosso, onde descansava um mulher de meia-idade, as pernas grossas e cruzadas, corajosamente vestida de azul para os mais sagrados rituais do amor e da beleza, apesar de, verdade seja dita, não ser nada bonita.

— Se gostas, o teu banco é aquele, e não este.

Continuei sem entender, e ele me incentivou, vá, vá lá e depois tu me dizes, e depois tu me contas, vá lá e me conte tudo, vá.

Pensei na crônica por escrever e achei que já tinha assunto o suficiente. Me levantei, dei boa tarde ao amigo, o senhor passe bem, obrigado, e o larguei em seu banquinho, bem morto, como de costume, embora o nariz ereto ainda crescesse, e ele se mantivesse na eterna expectativa da próxima ressurreição, coitado, tão pequenino, tão parecidinho com a gente.

Depois disso, é claro, tudo o que me restava era vir até aqui e contar tudo. Foi o que fiz. Sou grato ao velho boneco da Tiradentes, que me deu uma história e a quem, reconheço, fiquei devendo uma narrativa mais realista, um relato mais caloroso, uma ficção mais verdadeira, uma visita ao amor e à beleza.

 

Pinoquio2

Imagem: Eduardo Aguiar

Beiradeiros

Ivo 1

Imagem: Eduardo Aguiar

O rastro de pétalas, volumoso, ia da Saldanha Marinho, ali na esquina com a Voluntários, até as primeiras quadras da Fernando Moreira. Era sexta-feira cedo, e eu, vagabundeando, decidi variar e seguir a trilha das rosas, desfazer a trama daquele tapete à toa, tecido na madrugada, até vê-lo despencar no canal do Ivo. Equilibrado na borda de pedra do rio urbano, tive que prender a respiração, um cheiro de praia em alta temporada, só que sem sol nem oceano. E o que vi, é pena, foi um filete de água imóvel, três punhados de flores e tudo represado.

Já é tão de manhã, pensei, o povo do Campina do Siqueira lotando os expressos a caminho do trabalho, e o Ivo ainda adormecido, preguiçoso. Um rio às vezes se cansa, a gente sabe, e é justo que durma até mais tarde. Mas pobre de quem entregou a ele as suas oferendas, o mar nunca chegará a devorá-las, e nem os santos aqui do esgoto, que desperdício de feitiços e providências, natureza e sobrenatureza, ambas fracassadas, insatisfeitas.

Não sei, só os chorões às margens do canal é que devem saber o que acontece com o Ivo. Morrer, não morreu, água sempre tem, e nunca soube que descesse todo para os lados da serra, jamais se deixou tragar pelo chão de Curitiba. Mas ultimamente tem dormido demais. Naquela sexta, por exemplo, uma pobreza, aquela liquidez encabulada, que vergonha, um rio que é quase uma desistência.

Segui a pé mais duas quadras, acompanhando o seu leito estagnado, uma estradinha de lixo e lama, ripas e cacos de tijolo. Mas não só isso. Lá embaixo, era aquele monte de gente acocorada, seis ou sete pessoas à vista, talvez mais, e dois ou três cachimbos acesos, passando de mão em mão, de lá pra cá, fogo vivo cruzando um curso de rio quase seco, mau sinal, de tempos ruins.

Novidade não era. É comum ver por ali essa gente que, no susto, emerge do rio feito seres fantásticos e falidos, trapo sobre trapo, os ossos luminosos debaixo da pele fina, descamando-se, os beiradeiros escalando manilhas e paralelepípedos, escorando-se nas árvores, zumbis d’água, coisa normal.

Naquele dia, entretanto, quando os vi, aquela meia dúzia de criaturas anfíbias, tive outra impressão. Lembrei do que me contava um velho avô: quando um rio dorme, seus afogados se levantam lá do fundo, eles se desvencilham do lodo e vêm passear entre nós. Mas antigamente os rios dormiam apenas à meia-noite, um sono de meio minuto, no máximo, o suficiente para os tristes matarem a saudade do oxigênio e das luzes, mandarem um beijo à noite estrelada. Hoje, sei lá, a gente convive com o fantástico.

Prossegui, rio acima, e no cruzamento do Ivo com a Visconde do Rio Branco, encontrei um casal, acho que de namorados, nem vinte anos cada um, o rapaz içando a moça de uma barranca artificial. Nos olhos da dupla, quatro chamas meio mortas, e aquela brasa já carente de sopro, um olhar que amanhã será de cinza. Saíram navegando tortos pelo asfalto, sorte não passar na hora um biarticulado, os dois sem bússola nem relógio, não sabendo para que lado cair e, cegos, vindo para cima de mim.

Discutiam algum problema pessoal, só que não falavam nem se ouviam, comunicavam-se por gestos bruscos, numa variação exaltada de certa linguagem dos sinais, palavras feitas de punhos, frases que logo viraram toques, tapas, empurrões, grosseria. Brigaram, acredito que um com a sombra do outro. A moça tropeçou para trás, era muito leve, tão desprotegida de si mesma, e assustada se lançou de volta ao rio. Antes de saltar, deu comigo à sua frente e me mostrou os caninos, já chorando, uma menina selvagem, os dentes ainda bons. Mal pisou no leito do Ivo, foi correndo se meter num dos seus túneis, sob a rua. Sem muita pressa, o rapaz a seguiu. Passou por mim evitando me encarar e pulou atrás dela, caiu e fez um rolamento, e depois sumiu com a namorada, no breu do rio subterrâneo.

Fiquei ali, quieto, dez segundos, quinze, sei lá, um minuto, investigando o escuro onde se enfiaram, à espera de uma faísca, a visão de um isqueiro se acendendo lá dentro, uma tragada a iluminar as paredes daquela caverna. E de repente não uma luz, mas um movimento. O fiozinho de água parada começou a se mexer, uma cobrinha parda ganhando musculatura, engrossando, levando consigo, e quem sabe até o mar, o seu precioso carregamento de cascas de frutas, panfletos eróticos, preservativos usados, pétalas atoladas.

O rio acordou, pensei. Sim, devia estar chovendo em alguma cabeceira, porque o Ivo acordou, e já era tempo, acorda, Ivo, maldito riozinho de água salgada, acorda e chora.

Ivo 2

Imagem: Eduardo Aguiar

O torcedor

10003041_628380797234010_1340901097_n

Imagem: Eduardo Aguiar

Na ponta de lá da faixa de segurança, numa esquina da Praça Tiradentes, o Marechal Floriano enferruja em seu chapéu bicorne. Dá uma pena dele, tão duro naquele traje de gala, as botas sem brilho nenhum e a espada morta, para sempre condenada à bainha. Já na extremidade de cá da faixa, do lado oposto da rua, o herói é outro. Ainda vive e, quem sabe, poderá um dia ser temido e amado, liderar algum exército, redefinir nossos conceitos furados de glória e derrota. Porque, protegido da garoa, debaixo deste ponto do Marechal Hermes, bem em frente à banca Triângulo, respira e resplandece o grande velho cor-de-rosa.

De boné, japona de náilon, calça de malha, chinelos de dedo e óculos escuros, ele também é um monumento, um tributo a si mesmo. Raro encontrá-lo ali, deve ser a terceira ou quarta vez que o vejo na vida, no máximo, mas se trata, sem dúvida, de uma presença impressionante. Escorado numa coluna invisível de tempo, imóvel e eterno, o velho chia, estala e sibila sem parar, ruidoso, os braços longos e cruzados abraçando os ombros, como se sentisse os ossos congelando e partindo, ou tivesse medo de escapar do próprio corpo.

Mas não, não é sua alma o objeto da sua vigilância, sei que não. Olho para ele, postado diante daquela inútil faixa de segurança, um sorriso de caveira no asfalto, o sinal luminoso de pedestres passando do vermelho ao verde, do verde ao vermelho, as pessoas de lá para cá e vice-versa, sem descanso e sem cuidado, ouço as freadas e os xingamentos e as buzinas, e só consigo pensar num daqueles míticos guardiões de pontes sagradas, intransponíveis. Sim, o velho cor-de-rosa é mais ou menos isto, um guardião negligenciado, a quem ninguém nunca ouve ou consulta, alguém que tem uma pergunta-chave a nos fazer, mas que não tem a oportunidade de fazê-la, não tem os nossos ouvidos.

Ou melhor, os meus ele tem. Curioso, já me aproximei dele, fingindo esperar o ônibus, apenas para escutá-lo falar. E me espantei. Ele semeava no ar o seu punhadinho de palavras curtas, pega, pega, mata, pega, mata, ordens mastigadas, tristes imperativos sussurrados, morre, vai, mata, morre, agora, vai, vai, agora.

Mas pega o quê, vai aonde, mata quem, morre como? Para entendê-lo, somei a recitação do velho às cenas de trânsito que ele parecia narrar. O sinal abria e fechava, abria e fechava, as pernas do menino de luz se abriam e fechavam, verde, vermelho, não tinha importância, que diferença faziam as cores? O povo não parava, atravessava a rua sem temor, mal olhava para os lados, somente se atirava entre os automóveis, eram peixes na correnteza, peixes saltando entre pedras pontudas, tirando finas dos ônibus, beijando as motos, acariciando os táxis, uma piracema de loucos inconsequentes e o velho cor-de-rosa lá torcendo, torcendo, vai, mata, morre agora, dizia ele, exatamente como continua a dizer hoje, morram, torcendo pelo atropelamento geral.

Ah, é a senhora com as sacolas plásticas, é o jovem na cadeira de rodas, a mãe com seu bebê de colo e a sombrinha virada pelo avesso, um morcego lilás arregaçado pela ventania, e os filhos pequenos ao seu redor, chorando e correndo, olha o carro, e é o aleijado de muletas, o palhaço em pernas de pau, os mendigos bonitos na catedral gótica e o grande velho lá, torcendo e rezando, morre, pega, agora é, agora vai, é hoje, hoje o fim do estudante e dos seus fones de ouvido, hoje o fim da secretária fumante e o adeus da diarista cansada, é hoje o engraxate arrastado pela van dos turistas e o pedinte no para-brisa, ainda enrolado em seu cobertor, é hoje o verdureiro colhido pelo motoboy, hoje as folhas de alface lavadas pela chuva, hoje os tomates no meio-fio, o sangue dos homens e das frutas no bueiro, hoje, tem que ser hoje, só pode ser hoje.

O velho é um torcedor, é isso. Torce pela morte e pelo acidente, pela dor ou pelo alívio, não sei se movido por ódio ou desprezo, e talvez até sinta prazer em sua torcida macabra, sei lá, só sei que este é um velho grande e cor-de-rosa, que usa boné e japona de náilon e chinelos de dedo, e sei que sua barba está sempre crescendo, mas nunca está realmente crescida, e que ele está sempre de óculos de sol, mesmo em tardes chuvosas como esta, e que está sempre abraçado ao próprio corpo, como se quisesse impedir a fuga de sua alma ou a entrada da nossa nele.

Mas não é só isso, há mais. Há um detalhe que só agora percebo e que, no fim das contas, vem a ser o acessório principal deste personagem. É uma bengala, vejam, uma bengala escondida, presa por um elástico a uma de suas mãos vermelhas, graúdas, uma bengala dobrável, retrátil, de alumínio, acomodada debaixo de seu sovaco. Sim, só agora eu percebo, o torcedor está no escuro, vai, mata, morre, é o único na arquibancada de seus desejos, seu jogo acontece em outra dimensão, obedece a regras bem mais íntimas, talvez insondáveis, e é dentro dele, só lá dentro, que suas bandeiras estão sendo agitadas. Se ele reage ao que escuta e pressente à sua volta, ou ao que enxerga e resgata no fundo do poço de si mesmo, é algo que prefiro não saber, nem imaginar, nem perguntar a ele.

Pelo menos não hoje, hoje não perguntarei. Prefiro arriscar, pagar para ver, atravessar a rua, venham comigo, vamos juntos, vamos, é a nossa chance, é hoje, e hoje é tudo o que temos.

 

Esportes curitibanos

Perseguição

Imagem: Eduardo Aguiar

(1) Aproveitar-se da eficiência de nosso transporte coletivo para, pagando apenas uma passagem, perseguir mulheres por toda a cidade.

(2) Especializar-se no desvio de olhares.

(3) Praticar a invisibilidade nos elevadores.

(4) Eximir-se de fornecer informações ao próximo.

(5) Garimpar amor e beleza em prostitutas e travestis de gorro e meias de lã.

(6) Em terminais de ônibus, promover celebrações tão intensas que, noutras cidades, seriam tidas por quebra-quebras.

(7) Aperfeiçoar a passividade ao ouvir, da cama, gritos noturnos de socorro.

(8) Manter gelada a temperatura do sangue ao ignorar o cumprimento de amigos e conhecidos.

(9) Testar os limites de sua fé e tolerância em meio ao engarrafamento causado pela Novena Perpétua.

(10) Cumprir e honrar todas as suas obrigações domésticas e conjugais enrolado em um ou mais cobertores.

(11) Nas manhãs de geada, marchar impassível por entre fileiras de mendigos cristalizados.

(12) Organizar-se em filas e, quando nelas, elaborar, à guisa de passatempo, pesadas fantasias sexuais ou de destruição.

Girafas

Imagem: Eduardo Aguiar

(13) Dedicar suas melhores noites ao desbravamento de farmácias.

(14) Em cafés e restaurantes, espalhar-se pelas mesas de modo a se sentar sempre no ponto cego de seus conhecidos.

(15) Acreditar-se branco e, de alguma forma, europeu.

(16) No inverno, se possível, resguardar o coração da geada e do emboloramento geral das coisas.

(17) Simular conversas dramáticas ao celular para evitar a abordagem de vizinhos, parentes e conhecidos em lugares públicos.

(18) Nas madrugadas de julho, desafiar a morte por hipotermia ao encher a cara em bares abertos ou ao ar livre.

Triângulo

Imagem: Eduardo Aguiar

(19) Involuir no trânsito.

(20) Sofrer sentado e aplaudir de pé.

(21) Cultivar a dignidade ao enceroular-se.

(22) Rezar contra.

(23) Exercitar o meio-sorriso, mudo, como resposta a qualquer comentário feito em salas de espera ou pontos de ônibus.

(24) Preservar-se para o post-mortem.

Sol na xv

Imagem: Eduardo Aguiar

(25) Dotar a cidade de uma consciência individual e, ao menor sinal de fracasso, culpá-la por nossas derrotas.

(26) Reservar suas melhores roupas de baixo para a atenta apreciação das juntas médicas, em consultas ou internamentos.

(27) Jamais vestir-se sem antes sondar, no avesso das roupas e no breu dos sapatos, a possibilidade da morte em forma de aranha-marrom.

(28): Ser um descendente.

(29) Posar de elo entre a tradição cristã europeia e um futuro humanista cosmopolita.

(30) Ronronar ao frisson dos pesadelos molhados.

(31) Ao despir-se em seu quarto, nunca esquecer de chavear a porta e escancarar as cortinas.

(32) Jamais receber sem convidar, visitar sem ser convidado, convidar quem não convida, frequentar quem recebe demais.

(33) Ter orgulho de ter vergonha e, ao se orgulhar, envergonhar-se.

(34) Aproveitar a ceifa das temporadas de gripe para, sem chamar a atenção, morrer de infames causas ocultas.

(35) Dar-se ao contato físico com multidões excitadas somente durante eventos como a Romaria de N. Sra. de Guadalupe e o Natal do HSBC.

(36) Pousar em casa alheia só em casos extremos, envolvendo risco de sexo, coma alcoólico e morte por congelamento.

(37) Patinar em gelo de shopping e esquiar em neves passadas.

(38) No carnaval, pular ao lado da lei e com ânimo regressivo, na esperança de evitar reações contrárias e progressivas.

(39) Invejar secretamente o despudor e a beleza de nossos governantes, ao encontrá-los seminus e sarados em fotos na internet.

(40) Classificar as coisas do mundo a partir de dois conceitos básicos: “uma bosta” ou “tesão pra caralho”.

Chuva

Imagem: Eduardo Aguiar

(41) Contar as manchas de bolor no forro sobre a cama como se fossem as nebulosas de uma noite de verão.

(42) Bola nas costas.