Crônicas

Recado ao desembargador

Ontem testemunhei o encontro entre um famoso vagabundo da Boca Maldita e um desembargador obscuro. Entre eles, o relacionamento era antigo. O desembargador, ao ver o vagabundo, teve um desgaste, irritou-se, coisa deles. Sacou do bolso uma nota de cinquenta.

— Toma! Leva esta nota e gasta tudo em pinga!

O outro foi apanhá-la, esticou a mão, mas o primeiro puxou o prêmio, impôs a condição inesperada:

— Mas olha: é pra você morrer! É pra beber e morrer! Por favor, não se esqueça de morrer!

O vagabundo topou e sumiu Ermelino acima, deixa comigo, a onça no bolso.

Hoje de novo se encontraram, de novo fui testemunha. O desembargador não se conteve, até se enfureceu diante da visão indesejada, deu um tapa na testa alta, você por aqui, é o fim, ou pelo menos deveria ter sido.

— Não mandei você morrer?

O vagabundo, com a serenidade das almas salvas, explicou que na real morreu, morreu, sim, e inclusive subiu aos céus, só precisou voltar para entregar ao doutor um recado, um aviso, um lembrete importante, quer ouvir? Contrariado, o outro disse que sim, mas apressou o espírito mensageiro, diga logo, tenho uma consulta médica, um cafezinho marcado, um cliente à minha espera, os netos lá em casa.

O falecido sentiu que era o seu dia. Sorriu, enchendo o peito, e depois fez uma cara séria, a fisionomia digna dos finados, a monocelha de quem conheceu a grande verdade:

— Do lado de lá, meu pobre, tu não resolve nada com teus cinquenta paus.

 

 

Pinóquio na Tiradentes

Pinoquio

Imagem: Eduardo Aguiar

Se alguém o traz até aqui, no colo ou numa caixa, dia sim, dia não, ignoro. Como faz para ir embora, também não sei, apenas suponho que não passe a noite sozinho na Tiradentes, exposto ao sereno e à violência. Ele parece, aliás, estranhamente saudável, descansado, limpo. Sempre que o encontro na praça, já está acomodado em seu banco favorito, perto do marco zero.

É como se um ventríloquo o tivesse esquecido ou abandonado ali. Imagino o homem parando para engraxar os sapatos. Pensou na vida ao contar as poucas moedas, quantas festas infantis ainda suportaria, quantos programas de calouros, e de repente decidiu mudar tudo. Deixou para trás o seu velho e querido boneco, aquelas perninhas condenadas, imóveis e pendentes, um pedacinho de pau à espera do sopro de um novo deus. Tão parecido com a gente.

Não, não se trata de um anão, somente é miúdo. Tem uns setenta anos, ou bem mais que isso. Impressiona pelo paletozinho impecável, xadrez, as botinhas de brinquedo e os olhos azuis, tão abertos e tão claros, olhos de fonte jorrando da pedra, aquela transparência de água mineral engarrafada. Senta-se na ponta direita do banco, não falha, nunca muda de posição, o queixo colado à ombreira direita, as mãos de criança sobre as coxas e as calças de lã, mal segurando a sua bengalinha, único indício de que é vivo, é um de nós, é capaz de caminhar.

Em geral não se move. Pelo menos até conseguir companhia. Porque é só um desavisado ocupar o espaço à sua esquerda, estacionar no banco para um cochilo de cinco minutos no meio da tarde corrida, para que o calor ou a miséria do intruso, tanto faz, acionem no velho alguma engrenagem oculta. Algo dentro dele desperta, ele todo é uma máquina que acorda, movida a esperanças e outros vapores, quem está aí? Sua cabeça perfeita, redonda, de cabelos brancos penteados com gel, gira sobre o pescoço fino, cento e oitenta graus vencidos lentamente, as vértebras estalando, tique-taque, tique-taque, e a boca do boneco enfim se abrindo para falar, ouçam.

Só vemos os seus dentes de baixo. Seus dentes e a língua vívida da criaturinha, uma língua vermelho-morango e sem dúvida jovem, o mais ameaçador dos músculos. É com ela que o homem empreende a sua conversa, fala, fala e dificilmente escuta, deve ter tímpanos de peroba ou imbuia, gosta mesmo é de falar, só falar, e surpreende ou mesmo encanta os caras que o ouvem, primeiro espantados com o fenômeno da madeira falante, animada, e depois, talvez, com o teor de seu discurso.

De tanto vê-lo conversando, um dia caí em tentação, quis escutá-lo. Imprudente, decidi me sentar também ao seu lado, eu à sua esquerda, na imatura intenção de provocar o velho Pinóquio, sei lá, vai que o homenzinho é também uma espécie de oráculo, um gênio roído de cupins? Vai que, brincando, ele dá um jeito em meu futuro, me abre os caminhos, me sugere o tema da crônica da semana que vem? Já seria lucro dos grandes.

Sua reação a mim foi rápida, imediata. Girou o rosto envernizado em minha direção, os cílios curvos subindo e descendo devagar, o nariz pontudo lembrando um relógio de sol, a pele enrugada levemente enrubescida, e, sem qualquer saudação, foi logo me perguntando:

— Gostas de moças bonitas?

Pego no susto, não entendi direito, oi? Ele se irritou, repetiu a pergunta numa ênfase impaciente, diz, diz de uma vez, gostas ou não gostas? Eu disse que gostava, é claro que gosto, e ele apontou com o queixo para um outro banco, bem perto do nosso, onde descansava um mulher de meia-idade, as pernas grossas e cruzadas, corajosamente vestida de azul para os mais sagrados rituais do amor e da beleza, apesar de, verdade seja dita, não ser nada bonita.

— Se gostas, o teu banco é aquele, e não este.

Continuei sem entender, e ele me incentivou, vá, vá lá e depois tu me dizes, e depois tu me contas, vá lá e me conte tudo, vá.

Pensei na crônica por escrever e achei que já tinha assunto o suficiente. Me levantei, dei boa tarde ao amigo, o senhor passe bem, obrigado, e o larguei em seu banquinho, bem morto, como de costume, embora o nariz ereto ainda crescesse, e ele se mantivesse na eterna expectativa da próxima ressurreição, coitado, tão pequenino, tão parecidinho com a gente.

Depois disso, é claro, tudo o que me restava era vir até aqui e contar tudo. Foi o que fiz. Sou grato ao velho boneco da Tiradentes, que me deu uma história e a quem, reconheço, fiquei devendo uma narrativa mais realista, um relato mais caloroso, uma ficção mais verdadeira, uma visita ao amor e à beleza.

 

Pinoquio2

Imagem: Eduardo Aguiar

Beiradeiros

Ivo 1

Imagem: Eduardo Aguiar

O rastro de pétalas, volumoso, ia da Saldanha Marinho, ali na esquina com a Voluntários, até as primeiras quadras da Fernando Moreira. Era sexta-feira cedo, e eu, vagabundeando, decidi variar e seguir a trilha das rosas, desfazer a trama daquele tapete à toa, tecido na madrugada, até vê-lo despencar no canal do Ivo. Equilibrado na borda de pedra do rio urbano, tive que prender a respiração, um cheiro de praia em alta temporada, só que sem sol nem oceano. E o que vi, é pena, foi um filete de água imóvel, três punhados de flores e tudo represado.

Já é tão de manhã, pensei, o povo do Campina do Siqueira lotando os expressos a caminho do trabalho, e o Ivo ainda adormecido, preguiçoso. Um rio às vezes se cansa, a gente sabe, e é justo que durma até mais tarde. Mas pobre de quem entregou a ele as suas oferendas, o mar nunca chegará a devorá-las, e nem os santos aqui do esgoto, que desperdício de feitiços e providências, natureza e sobrenatureza, ambas fracassadas, insatisfeitas.

Não sei, só os chorões às margens do canal é que devem saber o que acontece com o Ivo. Morrer, não morreu, água sempre tem, e nunca soube que descesse todo para os lados da serra, jamais se deixou tragar pelo chão de Curitiba. Mas ultimamente tem dormido demais. Naquela sexta, por exemplo, uma pobreza, aquela liquidez encabulada, que vergonha, um rio que é quase uma desistência.

Segui a pé mais duas quadras, acompanhando o seu leito estagnado, uma estradinha de lixo e lama, ripas e cacos de tijolo. Mas não só isso. Lá embaixo, era aquele monte de gente acocorada, seis ou sete pessoas à vista, talvez mais, e dois ou três cachimbos acesos, passando de mão em mão, de lá pra cá, fogo vivo cruzando um curso de rio quase seco, mau sinal, de tempos ruins.

Novidade não era. É comum ver por ali essa gente que, no susto, emerge do rio feito seres fantásticos e falidos, trapo sobre trapo, os ossos luminosos debaixo da pele fina, descamando-se, os beiradeiros escalando manilhas e paralelepípedos, escorando-se nas árvores, zumbis d’água, coisa normal.

Naquele dia, entretanto, quando os vi, aquela meia dúzia de criaturas anfíbias, tive outra impressão. Lembrei do que me contava um velho avô: quando um rio dorme, seus afogados se levantam lá do fundo, eles se desvencilham do lodo e vêm passear entre nós. Mas antigamente os rios dormiam apenas à meia-noite, um sono de meio minuto, no máximo, o suficiente para os tristes matarem a saudade do oxigênio e das luzes, mandarem um beijo à noite estrelada. Hoje, sei lá, a gente convive com o fantástico.

Prossegui, rio acima, e no cruzamento do Ivo com a Visconde do Rio Branco, encontrei um casal, acho que de namorados, nem vinte anos cada um, o rapaz içando a moça de uma barranca artificial. Nos olhos da dupla, quatro chamas meio mortas, e aquela brasa já carente de sopro, um olhar que amanhã será de cinza. Saíram navegando tortos pelo asfalto, sorte não passar na hora um biarticulado, os dois sem bússola nem relógio, não sabendo para que lado cair e, cegos, vindo para cima de mim.

Discutiam algum problema pessoal, só que não falavam nem se ouviam, comunicavam-se por gestos bruscos, numa variação exaltada de certa linguagem dos sinais, palavras feitas de punhos, frases que logo viraram toques, tapas, empurrões, grosseria. Brigaram, acredito que um com a sombra do outro. A moça tropeçou para trás, era muito leve, tão desprotegida de si mesma, e assustada se lançou de volta ao rio. Antes de saltar, deu comigo à sua frente e me mostrou os caninos, já chorando, uma menina selvagem, os dentes ainda bons. Mal pisou no leito do Ivo, foi correndo se meter num dos seus túneis, sob a rua. Sem muita pressa, o rapaz a seguiu. Passou por mim evitando me encarar e pulou atrás dela, caiu e fez um rolamento, e depois sumiu com a namorada, no breu do rio subterrâneo.

Fiquei ali, quieto, dez segundos, quinze, sei lá, um minuto, investigando o escuro onde se enfiaram, à espera de uma faísca, a visão de um isqueiro se acendendo lá dentro, uma tragada a iluminar as paredes daquela caverna. E de repente não uma luz, mas um movimento. O fiozinho de água parada começou a se mexer, uma cobrinha parda ganhando musculatura, engrossando, levando consigo, e quem sabe até o mar, o seu precioso carregamento de cascas de frutas, panfletos eróticos, preservativos usados, pétalas atoladas.

O rio acordou, pensei. Sim, devia estar chovendo em alguma cabeceira, porque o Ivo acordou, e já era tempo, acorda, Ivo, maldito riozinho de água salgada, acorda e chora.

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Imagem: Eduardo Aguiar

O torcedor

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Imagem: Eduardo Aguiar

Na ponta de lá da faixa de segurança, numa esquina da Praça Tiradentes, o Marechal Floriano enferruja em seu chapéu bicorne. Dá uma pena dele, tão duro naquele traje de gala, as botas sem brilho nenhum e a espada morta, para sempre condenada à bainha. Já na extremidade de cá da faixa, do lado oposto da rua, o herói é outro. Ainda vive e, quem sabe, poderá um dia ser temido e amado, liderar algum exército, redefinir nossos conceitos furados de glória e derrota. Porque, protegido da garoa, debaixo deste ponto do Marechal Hermes, bem em frente à banca Triângulo, respira e resplandece o grande velho cor-de-rosa.

De boné, japona de náilon, calça de malha, chinelos de dedo e óculos escuros, ele também é um monumento, um tributo a si mesmo. Raro encontrá-lo ali, deve ser a terceira ou quarta vez que o vejo na vida, no máximo, mas se trata, sem dúvida, de uma presença impressionante. Escorado numa coluna invisível de tempo, imóvel e eterno, o velho chia, estala e sibila sem parar, ruidoso, os braços longos e cruzados abraçando os ombros, como se sentisse os ossos congelando e partindo, ou tivesse medo de escapar do próprio corpo.

Mas não, não é sua alma o objeto da sua vigilância, sei que não. Olho para ele, postado diante daquela inútil faixa de segurança, um sorriso de caveira no asfalto, o sinal luminoso de pedestres passando do vermelho ao verde, do verde ao vermelho, as pessoas de lá para cá e vice-versa, sem descanso e sem cuidado, ouço as freadas e os xingamentos e as buzinas, e só consigo pensar num daqueles míticos guardiões de pontes sagradas, intransponíveis. Sim, o velho cor-de-rosa é mais ou menos isto, um guardião negligenciado, a quem ninguém nunca ouve ou consulta, alguém que tem uma pergunta-chave a nos fazer, mas que não tem a oportunidade de fazê-la, não tem os nossos ouvidos.

Ou melhor, os meus ele tem. Curioso, já me aproximei dele, fingindo esperar o ônibus, apenas para escutá-lo falar. E me espantei. Ele semeava no ar o seu punhadinho de palavras curtas, pega, pega, mata, pega, mata, ordens mastigadas, tristes imperativos sussurrados, morre, vai, mata, morre, agora, vai, vai, agora.

Mas pega o quê, vai aonde, mata quem, morre como? Para entendê-lo, somei a recitação do velho às cenas de trânsito que ele parecia narrar. O sinal abria e fechava, abria e fechava, as pernas do menino de luz se abriam e fechavam, verde, vermelho, não tinha importância, que diferença faziam as cores? O povo não parava, atravessava a rua sem temor, mal olhava para os lados, somente se atirava entre os automóveis, eram peixes na correnteza, peixes saltando entre pedras pontudas, tirando finas dos ônibus, beijando as motos, acariciando os táxis, uma piracema de loucos inconsequentes e o velho cor-de-rosa lá torcendo, torcendo, vai, mata, morre agora, dizia ele, exatamente como continua a dizer hoje, morram, torcendo pelo atropelamento geral.

Ah, é a senhora com as sacolas plásticas, é o jovem na cadeira de rodas, a mãe com seu bebê de colo e a sombrinha virada pelo avesso, um morcego lilás arregaçado pela ventania, e os filhos pequenos ao seu redor, chorando e correndo, olha o carro, e é o aleijado de muletas, o palhaço em pernas de pau, os mendigos bonitos na catedral gótica e o grande velho lá, torcendo e rezando, morre, pega, agora é, agora vai, é hoje, hoje o fim do estudante e dos seus fones de ouvido, hoje o fim da secretária fumante e o adeus da diarista cansada, é hoje o engraxate arrastado pela van dos turistas e o pedinte no para-brisa, ainda enrolado em seu cobertor, é hoje o verdureiro colhido pelo motoboy, hoje as folhas de alface lavadas pela chuva, hoje os tomates no meio-fio, o sangue dos homens e das frutas no bueiro, hoje, tem que ser hoje, só pode ser hoje.

O velho é um torcedor, é isso. Torce pela morte e pelo acidente, pela dor ou pelo alívio, não sei se movido por ódio ou desprezo, e talvez até sinta prazer em sua torcida macabra, sei lá, só sei que este é um velho grande e cor-de-rosa, que usa boné e japona de náilon e chinelos de dedo, e sei que sua barba está sempre crescendo, mas nunca está realmente crescida, e que ele está sempre de óculos de sol, mesmo em tardes chuvosas como esta, e que está sempre abraçado ao próprio corpo, como se quisesse impedir a fuga de sua alma ou a entrada da nossa nele.

Mas não é só isso, há mais. Há um detalhe que só agora percebo e que, no fim das contas, vem a ser o acessório principal deste personagem. É uma bengala, vejam, uma bengala escondida, presa por um elástico a uma de suas mãos vermelhas, graúdas, uma bengala dobrável, retrátil, de alumínio, acomodada debaixo de seu sovaco. Sim, só agora eu percebo, o torcedor está no escuro, vai, mata, morre, é o único na arquibancada de seus desejos, seu jogo acontece em outra dimensão, obedece a regras bem mais íntimas, talvez insondáveis, e é dentro dele, só lá dentro, que suas bandeiras estão sendo agitadas. Se ele reage ao que escuta e pressente à sua volta, ou ao que enxerga e resgata no fundo do poço de si mesmo, é algo que prefiro não saber, nem imaginar, nem perguntar a ele.

Pelo menos não hoje, hoje não perguntarei. Prefiro arriscar, pagar para ver, atravessar a rua, venham comigo, vamos juntos, vamos, é a nossa chance, é hoje, e hoje é tudo o que temos.

 

Turno da manhã

Minha filha acorda e toma o café, sem fome, com preguiça. Pede pra por a roupa de bailarina, faz questão de me ajudar com a barba. Momento tenso, delicado. Depois quer ver um DVD do David Bowie, que bom, eu coloco. Começo a responder e-mails mais ou menos antigos, atrasados. Ela me interrompe, quer que eu veja a coreografia que ensaiou para Starman. Eu volto uma faixa, assisto ao balé, está ótimo, aplaudo, quando sua mãe chegar, mostre pra ela. Corro ao computador, dia louco pela frente. Ela pega a lupa e vai procurar insetos pelo apartamento, investigar sua rotina minúscula. Eu escaneio um talão do IPTU, pedido urgente do contador. Ela logo reaparece no escritório, eficiente, encontrou uma traça na biblioteca, uma vespa no terraço, vem, pai. Vamos, não há tempo a perder. Expulsamos a vespa, era enorme, que perigo. Já a traça não, nada a ver, foi alarme falso, uma mariposinha inofensiva, deixe ela aí, coitada. Ela vai dançar, eu vou ler um texto chato, uma pesquisa que estou fazendo. Não demora, a bailarina está aqui de novo, a cara triste, um bico. Está enjoada, diz que rodopiou demais. Quer vomitar? Não, quero um chiclete, um chiclete já me ajuda, só um chiclete. Nada feito, eu digo, serve uma carambola? Ela topa, eu corto a fruta em fatias. Ela aprova, gosta de carambola, as estrelas combinam com o David Bowie. Volto ao trabalho, a manhã avança. Há algum cansaço, uma ternura que supera as preocupações e, sobretudo, a grande certeza de estar vivendo o melhor momento da minha vida.

Toda toda

Na esquina da Comendador, o sinal fecha para nós, os pedestres. Duas moças saem da farmácia. Maquiagem pesada, cosméticos na sacolinha. Nem percebem o quanto falam alto, culpa da academia na sobreloja, aquela música absurda. De repente, o susto, o choque, a dupla paralisada.

— Olha, é ele.

— Não acredito.

— É ele.

— Que grande babaca.

— É ele. E com ela.

— Vai lá. Vai lá e fala com o cara.

— Não, melhor não.

— Vai, sua boba.

— Capaz. Ele com a mulher.

— Pois então. Vai lá assim, toda toda, e diz oi. Só pra ver a cara de tacho dela.

— Toda toda? Com este uniforme do colégio?

Respeito é bom

Na calçada da Saldanha, diante da lavanderia, o homenzinho brabo. Já velho, mas a roupa justa, o brinco de brilhantes, o cinto de tachinhas, o cabelo preto pintado, a costeleta bem aparada, botinhas de caubói sobre a barra da calça. Vai contando à dona do estabelecimento um drama recente, uma discussão qualquer, vencida com glórias, só não sei contra que inimigo.

— Eu disse pra ele, você não me conhece, você me respeite.

— Boa.

— Você me respeite, tenho história, mereço respeito, eu disse pra ele, não sou respeitável?

— Que eu saiba.

— Tenho idade, respeito é bom.

— Sem dúvida.

— Sou bisavô seis vezes, eu disse pra ele, você me respeite. E mandei tomar no cu.