Autor: Luís Henrique Pellanda

Luís Henrique Pellanda nasceu em Curitiba (PR), em 1973. É escritor e jornalista, autor dos livros "O macaco ornamental" (contos, Bertrand Brasil, 2009), "Nós passaremos em branco" (crônicas, Arquipélago Editorial, 2011, finalista do Prêmio Jabuti 2012) e "Asa de sereia" (crônicas, Arquipélago Editorial, 2013), e organizador dos dois volumes da antologia "As melhores entrevistas do Rascunho" (Arquipélago Editorial, 2010 e 2012). Foi editor do site de crônicas Vida Breve. Trabalhou nos jornais Gazeta do Povo e Primeira Hora e, na área literária, atua como jornalista, entrevistador, curador, mediador, resenhista e cronista em diversos eventos e veículos de todo o Brasil. "Asa de Sereia" é seu blog oficial.

ABC do decorador de labirintos

ABC-Pellanda

Ilustras: Benett

 

A partir de hoje publico aqui, em partes, o meu ABC do Decorador de Labirintos. Um dicionário de incertezas, ruínas em constante reforma, com capitulares ilustradas pelo Benett. Pra começar, alguns verbetes das quatro primeiras letras.

A

Amor: cul-de-sac na estrada evolutiva. Chegando a ele, a humanidade ou se estabelece ou engata uma ré.

Amor-próprio: artigo que só percebemos que nos falta quando tentamos amar ao próximo como a nós mesmos.

Arrogância: móvel grande e pesado, feito de material barato, madeira verde. Exige interiores amplos, mas absolutamente vazios. Tem incontáveis gavetas, todas emperradas.

Artista: categoria tão perturbada que sente inveja até de gente morta.

 

B

Biblioteca: miragem que se desenha conforme o interesse, as capacidades ou o delírio de quem a elabora. Pode ser um labirinto, um poleiro, um parque de diversões, uma sucessão suicida de trampolins.

Bofetada: fortificante que, assim como os vermífugos, se aconselha tomar uma ou outra vez durante a vida; os cristãos recomendam as doses duplas.

Bom gosto: nome dado à carapuça favorita dos classistas.

Brasil: país cujos habitantes se destacam por sua esperteza e determinação. O brasileiro burro nasce morto, mas teima em não admitir.

 

C

Cadáver: o melhor aforista. Seu silêncio é a expressão final da nossa única certeza.

Calendário: miragem de parede, tabuleiro por correm não os dias, mas os nossos olhos.

Celebridade: estado ideal da reputação de um brasileiro, perfeito para se vender cerveja, planos telefônicos e financiamentos bancários.

Celibatário: atleta que, mesmo no calor da corrida de revezamento, se recusa a passar o bastão.

Coice: a melhor oferta do burro.

Credibilidade: qualidade que conferimos a certos mentirosos que não conhecemos.

Crítica literária: modalidade mais radical da autoficção.

Cristianismo: seita que nos aconselha a vigiar o próximo mais que a nós mesmos.

Cronista: de todos os tipos de escritor, o que mais depende da gentileza de estranhos.

Curitibano: cidadão cosmopolita indoors.

 

D

 

Destino: gato de rua, hidrófobo, que teimamos em galopar.

Deus: molde original do homem; logo após o uso, foi quebrado pela cópia.

Diabo: o funcionário mais inventivo de Deus, introdutor de grandes sucessos mundanos, como o carro de som, o cachimbo de crack, as botas pata-de-bode e os cargos de gerência.

Dinheiro: 1 abstração fantástica, paixão impossível de administrar. De todas as nossas criações, é a mais mimada. Quanto mais atenção damos a ele, mais ele nos desvaloriza. Como as flores, murcha logo após ser colhido 2 principal motivador dos crimes passionais.

 

 

Pinóquio na Tiradentes

Pinoquio

Imagem: Eduardo Aguiar

Se alguém o traz até aqui, no colo ou numa caixa, dia sim, dia não, ignoro. Como faz para ir embora, também não sei, apenas suponho que não passe a noite sozinho na Tiradentes, exposto ao sereno e à violência. Ele parece, aliás, estranhamente saudável, descansado, limpo. Sempre que o encontro na praça, já está acomodado em seu banco favorito, perto do marco zero.

É como se um ventríloquo o tivesse esquecido ou abandonado ali. Imagino o homem parando para engraxar os sapatos. Pensou na vida ao contar as poucas moedas, quantas festas infantis ainda suportaria, quantos programas de calouros, e de repente decidiu mudar tudo. Deixou para trás o seu velho e querido boneco, aquelas perninhas condenadas, imóveis e pendentes, um pedacinho de pau à espera do sopro de um novo deus. Tão parecido com a gente.

Não, não se trata de um anão, somente é miúdo. Tem uns setenta anos, ou bem mais que isso. Impressiona pelo paletozinho impecável, xadrez, as botinhas de brinquedo e os olhos azuis, tão abertos e tão claros, olhos de fonte jorrando da pedra, aquela transparência de água mineral engarrafada. Senta-se na ponta direita do banco, não falha, nunca muda de posição, o queixo colado à ombreira direita, as mãos de criança sobre as coxas e as calças de lã, mal segurando a sua bengalinha, único indício de que é vivo, é um de nós, é capaz de caminhar.

Em geral não se move. Pelo menos até conseguir companhia. Porque é só um desavisado ocupar o espaço à sua esquerda, estacionar no banco para um cochilo de cinco minutos no meio da tarde corrida, para que o calor ou a miséria do intruso, tanto faz, acionem no velho alguma engrenagem oculta. Algo dentro dele desperta, ele todo é uma máquina que acorda, movida a esperanças e outros vapores, quem está aí? Sua cabeça perfeita, redonda, de cabelos brancos penteados com gel, gira sobre o pescoço fino, cento e oitenta graus vencidos lentamente, as vértebras estalando, tique-taque, tique-taque, e a boca do boneco enfim se abrindo para falar, ouçam.

Só vemos os seus dentes de baixo. Seus dentes e a língua vívida da criaturinha, uma língua vermelho-morango e sem dúvida jovem, o mais ameaçador dos músculos. É com ela que o homem empreende a sua conversa, fala, fala e dificilmente escuta, deve ter tímpanos de peroba ou imbuia, gosta mesmo é de falar, só falar, e surpreende ou mesmo encanta os caras que o ouvem, primeiro espantados com o fenômeno da madeira falante, animada, e depois, talvez, com o teor de seu discurso.

De tanto vê-lo conversando, um dia caí em tentação, quis escutá-lo. Imprudente, decidi me sentar também ao seu lado, eu à sua esquerda, na imatura intenção de provocar o velho Pinóquio, sei lá, vai que o homenzinho é também uma espécie de oráculo, um gênio roído de cupins? Vai que, brincando, ele dá um jeito em meu futuro, me abre os caminhos, me sugere o tema da crônica da semana que vem? Já seria lucro dos grandes.

Sua reação a mim foi rápida, imediata. Girou o rosto envernizado em minha direção, os cílios curvos subindo e descendo devagar, o nariz pontudo lembrando um relógio de sol, a pele enrugada levemente enrubescida, e, sem qualquer saudação, foi logo me perguntando:

— Gostas de moças bonitas?

Pego no susto, não entendi direito, oi? Ele se irritou, repetiu a pergunta numa ênfase impaciente, diz, diz de uma vez, gostas ou não gostas? Eu disse que gostava, é claro que gosto, e ele apontou com o queixo para um outro banco, bem perto do nosso, onde descansava um mulher de meia-idade, as pernas grossas e cruzadas, corajosamente vestida de azul para os mais sagrados rituais do amor e da beleza, apesar de, verdade seja dita, não ser nada bonita.

— Se gostas, o teu banco é aquele, e não este.

Continuei sem entender, e ele me incentivou, vá, vá lá e depois tu me dizes, e depois tu me contas, vá lá e me conte tudo, vá.

Pensei na crônica por escrever e achei que já tinha assunto o suficiente. Me levantei, dei boa tarde ao amigo, o senhor passe bem, obrigado, e o larguei em seu banquinho, bem morto, como de costume, embora o nariz ereto ainda crescesse, e ele se mantivesse na eterna expectativa da próxima ressurreição, coitado, tão pequenino, tão parecidinho com a gente.

Depois disso, é claro, tudo o que me restava era vir até aqui e contar tudo. Foi o que fiz. Sou grato ao velho boneco da Tiradentes, que me deu uma história e a quem, reconheço, fiquei devendo uma narrativa mais realista, um relato mais caloroso, uma ficção mais verdadeira, uma visita ao amor e à beleza.

 

Pinoquio2

Imagem: Eduardo Aguiar

Beiradeiros

Ivo 1

Imagem: Eduardo Aguiar

O rastro de pétalas, volumoso, ia da Saldanha Marinho, ali na esquina com a Voluntários, até as primeiras quadras da Fernando Moreira. Era sexta-feira cedo, e eu, vagabundeando, decidi variar e seguir a trilha das rosas, desfazer a trama daquele tapete à toa, tecido na madrugada, até vê-lo despencar no canal do Ivo. Equilibrado na borda de pedra do rio urbano, tive que prender a respiração, um cheiro de praia em alta temporada, só que sem sol nem oceano. E o que vi, é pena, foi um filete de água imóvel, três punhados de flores e tudo represado.

Já é tão de manhã, pensei, o povo do Campina do Siqueira lotando os expressos a caminho do trabalho, e o Ivo ainda adormecido, preguiçoso. Um rio às vezes se cansa, a gente sabe, e é justo que durma até mais tarde. Mas pobre de quem entregou a ele as suas oferendas, o mar nunca chegará a devorá-las, e nem os santos aqui do esgoto, que desperdício de feitiços e providências, natureza e sobrenatureza, ambas fracassadas, insatisfeitas.

Não sei, só os chorões às margens do canal é que devem saber o que acontece com o Ivo. Morrer, não morreu, água sempre tem, e nunca soube que descesse todo para os lados da serra, jamais se deixou tragar pelo chão de Curitiba. Mas ultimamente tem dormido demais. Naquela sexta, por exemplo, uma pobreza, aquela liquidez encabulada, que vergonha, um rio que é quase uma desistência.

Segui a pé mais duas quadras, acompanhando o seu leito estagnado, uma estradinha de lixo e lama, ripas e cacos de tijolo. Mas não só isso. Lá embaixo, era aquele monte de gente acocorada, seis ou sete pessoas à vista, talvez mais, e dois ou três cachimbos acesos, passando de mão em mão, de lá pra cá, fogo vivo cruzando um curso de rio quase seco, mau sinal, de tempos ruins.

Novidade não era. É comum ver por ali essa gente que, no susto, emerge do rio feito seres fantásticos e falidos, trapo sobre trapo, os ossos luminosos debaixo da pele fina, descamando-se, os beiradeiros escalando manilhas e paralelepípedos, escorando-se nas árvores, zumbis d’água, coisa normal.

Naquele dia, entretanto, quando os vi, aquela meia dúzia de criaturas anfíbias, tive outra impressão. Lembrei do que me contava um velho avô: quando um rio dorme, seus afogados se levantam lá do fundo, eles se desvencilham do lodo e vêm passear entre nós. Mas antigamente os rios dormiam apenas à meia-noite, um sono de meio minuto, no máximo, o suficiente para os tristes matarem a saudade do oxigênio e das luzes, mandarem um beijo à noite estrelada. Hoje, sei lá, a gente convive com o fantástico.

Prossegui, rio acima, e no cruzamento do Ivo com a Visconde do Rio Branco, encontrei um casal, acho que de namorados, nem vinte anos cada um, o rapaz içando a moça de uma barranca artificial. Nos olhos da dupla, quatro chamas meio mortas, e aquela brasa já carente de sopro, um olhar que amanhã será de cinza. Saíram navegando tortos pelo asfalto, sorte não passar na hora um biarticulado, os dois sem bússola nem relógio, não sabendo para que lado cair e, cegos, vindo para cima de mim.

Discutiam algum problema pessoal, só que não falavam nem se ouviam, comunicavam-se por gestos bruscos, numa variação exaltada de certa linguagem dos sinais, palavras feitas de punhos, frases que logo viraram toques, tapas, empurrões, grosseria. Brigaram, acredito que um com a sombra do outro. A moça tropeçou para trás, era muito leve, tão desprotegida de si mesma, e assustada se lançou de volta ao rio. Antes de saltar, deu comigo à sua frente e me mostrou os caninos, já chorando, uma menina selvagem, os dentes ainda bons. Mal pisou no leito do Ivo, foi correndo se meter num dos seus túneis, sob a rua. Sem muita pressa, o rapaz a seguiu. Passou por mim evitando me encarar e pulou atrás dela, caiu e fez um rolamento, e depois sumiu com a namorada, no breu do rio subterrâneo.

Fiquei ali, quieto, dez segundos, quinze, sei lá, um minuto, investigando o escuro onde se enfiaram, à espera de uma faísca, a visão de um isqueiro se acendendo lá dentro, uma tragada a iluminar as paredes daquela caverna. E de repente não uma luz, mas um movimento. O fiozinho de água parada começou a se mexer, uma cobrinha parda ganhando musculatura, engrossando, levando consigo, e quem sabe até o mar, o seu precioso carregamento de cascas de frutas, panfletos eróticos, preservativos usados, pétalas atoladas.

O rio acordou, pensei. Sim, devia estar chovendo em alguma cabeceira, porque o Ivo acordou, e já era tempo, acorda, Ivo, maldito riozinho de água salgada, acorda e chora.

Ivo 2

Imagem: Eduardo Aguiar

O torcedor

10003041_628380797234010_1340901097_n

Imagem: Eduardo Aguiar

Na ponta de lá da faixa de segurança, numa esquina da Praça Tiradentes, o Marechal Floriano enferruja em seu chapéu bicorne. Dá uma pena dele, tão duro naquele traje de gala, as botas sem brilho nenhum e a espada morta, para sempre condenada à bainha. Já na extremidade de cá da faixa, do lado oposto da rua, o herói é outro. Ainda vive e, quem sabe, poderá um dia ser temido e amado, liderar algum exército, redefinir nossos conceitos furados de glória e derrota. Porque, protegido da garoa, debaixo deste ponto do Marechal Hermes, bem em frente à banca Triângulo, respira e resplandece o grande velho cor-de-rosa.

De boné, japona de náilon, calça de malha, chinelos de dedo e óculos escuros, ele também é um monumento, um tributo a si mesmo. Raro encontrá-lo ali, deve ser a terceira ou quarta vez que o vejo na vida, no máximo, mas se trata, sem dúvida, de uma presença impressionante. Escorado numa coluna invisível de tempo, imóvel e eterno, o velho chia, estala e sibila sem parar, ruidoso, os braços longos e cruzados abraçando os ombros, como se sentisse os ossos congelando e partindo, ou tivesse medo de escapar do próprio corpo.

Mas não, não é sua alma o objeto da sua vigilância, sei que não. Olho para ele, postado diante daquela inútil faixa de segurança, um sorriso de caveira no asfalto, o sinal luminoso de pedestres passando do vermelho ao verde, do verde ao vermelho, as pessoas de lá para cá e vice-versa, sem descanso e sem cuidado, ouço as freadas e os xingamentos e as buzinas, e só consigo pensar num daqueles míticos guardiões de pontes sagradas, intransponíveis. Sim, o velho cor-de-rosa é mais ou menos isto, um guardião negligenciado, a quem ninguém nunca ouve ou consulta, alguém que tem uma pergunta-chave a nos fazer, mas que não tem a oportunidade de fazê-la, não tem os nossos ouvidos.

Ou melhor, os meus ele tem. Curioso, já me aproximei dele, fingindo esperar o ônibus, apenas para escutá-lo falar. E me espantei. Ele semeava no ar o seu punhadinho de palavras curtas, pega, pega, mata, pega, mata, ordens mastigadas, tristes imperativos sussurrados, morre, vai, mata, morre, agora, vai, vai, agora.

Mas pega o quê, vai aonde, mata quem, morre como? Para entendê-lo, somei a recitação do velho às cenas de trânsito que ele parecia narrar. O sinal abria e fechava, abria e fechava, as pernas do menino de luz se abriam e fechavam, verde, vermelho, não tinha importância, que diferença faziam as cores? O povo não parava, atravessava a rua sem temor, mal olhava para os lados, somente se atirava entre os automóveis, eram peixes na correnteza, peixes saltando entre pedras pontudas, tirando finas dos ônibus, beijando as motos, acariciando os táxis, uma piracema de loucos inconsequentes e o velho cor-de-rosa lá torcendo, torcendo, vai, mata, morre agora, dizia ele, exatamente como continua a dizer hoje, morram, torcendo pelo atropelamento geral.

Ah, é a senhora com as sacolas plásticas, é o jovem na cadeira de rodas, a mãe com seu bebê de colo e a sombrinha virada pelo avesso, um morcego lilás arregaçado pela ventania, e os filhos pequenos ao seu redor, chorando e correndo, olha o carro, e é o aleijado de muletas, o palhaço em pernas de pau, os mendigos bonitos na catedral gótica e o grande velho lá, torcendo e rezando, morre, pega, agora é, agora vai, é hoje, hoje o fim do estudante e dos seus fones de ouvido, hoje o fim da secretária fumante e o adeus da diarista cansada, é hoje o engraxate arrastado pela van dos turistas e o pedinte no para-brisa, ainda enrolado em seu cobertor, é hoje o verdureiro colhido pelo motoboy, hoje as folhas de alface lavadas pela chuva, hoje os tomates no meio-fio, o sangue dos homens e das frutas no bueiro, hoje, tem que ser hoje, só pode ser hoje.

O velho é um torcedor, é isso. Torce pela morte e pelo acidente, pela dor ou pelo alívio, não sei se movido por ódio ou desprezo, e talvez até sinta prazer em sua torcida macabra, sei lá, só sei que este é um velho grande e cor-de-rosa, que usa boné e japona de náilon e chinelos de dedo, e sei que sua barba está sempre crescendo, mas nunca está realmente crescida, e que ele está sempre de óculos de sol, mesmo em tardes chuvosas como esta, e que está sempre abraçado ao próprio corpo, como se quisesse impedir a fuga de sua alma ou a entrada da nossa nele.

Mas não é só isso, há mais. Há um detalhe que só agora percebo e que, no fim das contas, vem a ser o acessório principal deste personagem. É uma bengala, vejam, uma bengala escondida, presa por um elástico a uma de suas mãos vermelhas, graúdas, uma bengala dobrável, retrátil, de alumínio, acomodada debaixo de seu sovaco. Sim, só agora eu percebo, o torcedor está no escuro, vai, mata, morre, é o único na arquibancada de seus desejos, seu jogo acontece em outra dimensão, obedece a regras bem mais íntimas, talvez insondáveis, e é dentro dele, só lá dentro, que suas bandeiras estão sendo agitadas. Se ele reage ao que escuta e pressente à sua volta, ou ao que enxerga e resgata no fundo do poço de si mesmo, é algo que prefiro não saber, nem imaginar, nem perguntar a ele.

Pelo menos não hoje, hoje não perguntarei. Prefiro arriscar, pagar para ver, atravessar a rua, venham comigo, vamos juntos, vamos, é a nossa chance, é hoje, e hoje é tudo o que temos.

 

O bispo chegou do médico

 

O bispo chegou do médico
Os exames na sacola
Abriu a ducha, entrou no banho
Nem ligou a água quente
Quis pegar o sabonete
Mas a mão, interrompida
Distraiu-se com as sombras
E no meio do caminho
Transformou-se em mariposa

Deus ajude o nosso bispo
Foi deitar todo molhado
E passou por ele a noite
Como a vida já passara
Quando viu já era hora
De lavar de novo o rosto
Mas a mão, lá na torneira
Feito aranha ressecada
Esqueceu de se mexer

Do outro lado da cidade
Pondo açúcar no café
O doutor impressionado
Com a têmpera do bispo
Lembra dele na cadeira
Esticando a mão ao homem
Que lhe calculou os meses
Seu anel pedindo um beijo
Parecendo um louva-a-deus

Ou quem sabe um bicho-pau

 

Turno da manhã

Minha filha acorda e toma o café, sem fome, com preguiça. Pede pra por a roupa de bailarina, faz questão de me ajudar com a barba. Momento tenso, delicado. Depois quer ver um DVD do David Bowie, que bom, eu coloco. Começo a responder e-mails mais ou menos antigos, atrasados. Ela me interrompe, quer que eu veja a coreografia que ensaiou para Starman. Eu volto uma faixa, assisto ao balé, está ótimo, aplaudo, quando sua mãe chegar, mostre pra ela. Corro ao computador, dia louco pela frente. Ela pega a lupa e vai procurar insetos pelo apartamento, investigar sua rotina minúscula. Eu escaneio um talão do IPTU, pedido urgente do contador. Ela logo reaparece no escritório, eficiente, encontrou uma traça na biblioteca, uma vespa no terraço, vem, pai. Vamos, não há tempo a perder. Expulsamos a vespa, era enorme, que perigo. Já a traça não, nada a ver, foi alarme falso, uma mariposinha inofensiva, deixe ela aí, coitada. Ela vai dançar, eu vou ler um texto chato, uma pesquisa que estou fazendo. Não demora, a bailarina está aqui de novo, a cara triste, um bico. Está enjoada, diz que rodopiou demais. Quer vomitar? Não, quero um chiclete, um chiclete já me ajuda, só um chiclete. Nada feito, eu digo, serve uma carambola? Ela topa, eu corto a fruta em fatias. Ela aprova, gosta de carambola, as estrelas combinam com o David Bowie. Volto ao trabalho, a manhã avança. Há algum cansaço, uma ternura que supera as preocupações e, sobretudo, a grande certeza de estar vivendo o melhor momento da minha vida.

Esportes curitibanos

Perseguição

Imagem: Eduardo Aguiar

(1) Aproveitar-se da eficiência de nosso transporte coletivo para, pagando apenas uma passagem, perseguir mulheres por toda a cidade.

(2) Especializar-se no desvio de olhares.

(3) Praticar a invisibilidade nos elevadores.

(4) Eximir-se de fornecer informações ao próximo.

(5) Garimpar amor e beleza em prostitutas e travestis de gorro e meias de lã.

(6) Em terminais de ônibus, promover celebrações tão intensas que, noutras cidades, seriam tidas por quebra-quebras.

(7) Aperfeiçoar a passividade ao ouvir, da cama, gritos noturnos de socorro.

(8) Manter gelada a temperatura do sangue ao ignorar o cumprimento de amigos e conhecidos.

(9) Testar os limites de sua fé e tolerância em meio ao engarrafamento causado pela Novena Perpétua.

(10) Cumprir e honrar todas as suas obrigações domésticas e conjugais enrolado em um ou mais cobertores.

(11) Nas manhãs de geada, marchar impassível por entre fileiras de mendigos cristalizados.

(12) Organizar-se em filas e, quando nelas, elaborar, à guisa de passatempo, pesadas fantasias sexuais ou de destruição.

Girafas

Imagem: Eduardo Aguiar

(13) Dedicar suas melhores noites ao desbravamento de farmácias.

(14) Em cafés e restaurantes, espalhar-se pelas mesas de modo a se sentar sempre no ponto cego de seus conhecidos.

(15) Acreditar-se branco e, de alguma forma, europeu.

(16) No inverno, se possível, resguardar o coração da geada e do emboloramento geral das coisas.

(17) Simular conversas dramáticas ao celular para evitar a abordagem de vizinhos, parentes e conhecidos em lugares públicos.

(18) Nas madrugadas de julho, desafiar a morte por hipotermia ao encher a cara em bares abertos ou ao ar livre.

Triângulo

Imagem: Eduardo Aguiar

(19) Involuir no trânsito.

(20) Sofrer sentado e aplaudir de pé.

(21) Cultivar a dignidade ao enceroular-se.

(22) Rezar contra.

(23) Exercitar o meio-sorriso, mudo, como resposta a qualquer comentário feito em salas de espera ou pontos de ônibus.

(24) Preservar-se para o post-mortem.

Sol na xv

Imagem: Eduardo Aguiar

(25) Dotar a cidade de uma consciência individual e, ao menor sinal de fracasso, culpá-la por nossas derrotas.

(26) Reservar suas melhores roupas de baixo para a atenta apreciação das juntas médicas, em consultas ou internamentos.

(27) Jamais vestir-se sem antes sondar, no avesso das roupas e no breu dos sapatos, a possibilidade da morte em forma de aranha-marrom.

(28): Ser um descendente.

(29) Posar de elo entre a tradição cristã europeia e um futuro humanista cosmopolita.

(30) Ronronar ao frisson dos pesadelos molhados.

(31) Ao despir-se em seu quarto, nunca esquecer de chavear a porta e escancarar as cortinas.

(32) Jamais receber sem convidar, visitar sem ser convidado, convidar quem não convida, frequentar quem recebe demais.

(33) Ter orgulho de ter vergonha e, ao se orgulhar, envergonhar-se.

(34) Aproveitar a ceifa das temporadas de gripe para, sem chamar a atenção, morrer de infames causas ocultas.

(35) Dar-se ao contato físico com multidões excitadas somente durante eventos como a Romaria de N. Sra. de Guadalupe e o Natal do HSBC.

(36) Pousar em casa alheia só em casos extremos, envolvendo risco de sexo, coma alcoólico e morte por congelamento.

(37) Patinar em gelo de shopping e esquiar em neves passadas.

(38) No carnaval, pular ao lado da lei e com ânimo regressivo, na esperança de evitar reações contrárias e progressivas.

(39) Invejar secretamente o despudor e a beleza de nossos governantes, ao encontrá-los seminus e sarados em fotos na internet.

(40) Classificar as coisas do mundo a partir de dois conceitos básicos: “uma bosta” ou “tesão pra caralho”.

Chuva

Imagem: Eduardo Aguiar

(41) Contar as manchas de bolor no forro sobre a cama como se fossem as nebulosas de uma noite de verão.

(42) Bola nas costas.

Toda toda

Na esquina da Comendador, o sinal fecha para nós, os pedestres. Duas moças saem da farmácia. Maquiagem pesada, cosméticos na sacolinha. Nem percebem o quanto falam alto, culpa da academia na sobreloja, aquela música absurda. De repente, o susto, o choque, a dupla paralisada.

— Olha, é ele.

— Não acredito.

— É ele.

— Que grande babaca.

— É ele. E com ela.

— Vai lá. Vai lá e fala com o cara.

— Não, melhor não.

— Vai, sua boba.

— Capaz. Ele com a mulher.

— Pois então. Vai lá assim, toda toda, e diz oi. Só pra ver a cara de tacho dela.

— Toda toda? Com este uniforme do colégio?

Sambas eruditos

Paulo Vanzolini Por Ele Mesmo

Não é de hoje que o professor e tradutor Christian Schwartz é louco pelo Paulo Vanzolini. Paixão antiga. Mas só há duas semanas ele conseguiu estrear, no Teatro Paiol, em Curitiba, o espetáculo musical Samba erudito, com o Trio Quintina. É um projeto que o Christian já vinha elaborando faz tempo, um grande tributo ao Vanzolini (morto no ano passado), mas, como diz o seu próprio idealizador, “com cara de sarau literário”.

Samba erudito tem direção cênica do Márcio Abreu e da Nadja Naira. Além do pessoal do Trio Quintina, o show conta com as participações da cantora Virgínia Rosa, do baterista Luís Rolim, do violeiro Leandro Delmonico. E do Christian, claro, que assina o roteiro do espetáculo, e também canta, toca baixo e atua como uma espécie de mestre de cerimônias da noite, encaixando aqui e ali algumas referências a outros bambas de sua predileção, como Lou Reed e Dalton Trevisan.

Pois foi falando com o Christian a respeito desse show que lembrei de uma conversa que tive com o próprio Paulo Vanzolini, em janeiro de 2003. Na época eu era repórter da Gazeta do Povo e ele lançava a monumental caixa Acerto de contas, que reunia em quatro CDs quase todas as suas composições.

Abaixo, aproveito para reproduzir alguns trechos desse encontro, coisas que resgatei aqui, no meu velho arquivo. É mais um diálogo do que uma entrevista (o cara odiava entrevistas).

•••

— Você e o Adoniran são sempre citados como os maiores cronistas populares daquela São Paulo que, nos anos 50, se tornava uma megalópole. Você imaginava que seria lembrado por isso?

— Nunca. Minha intenção era fazer música dentro da minha roda de amigos. Não tinha intenções artísticas nem sociais. Depois, a coisa extravasou. O Adoniran, inclusive, era muito meu amigo.

Ele foi uma celebridade da época, enquanto você sempre fugiu da mídia, se dizendo mais zoólogo do que músico. Por quê?

— Eu não sou mais zoólogo do que músico. Sou apenas zoólogo. Música, para mim, era só um hobby.

Mas não há nada em sua obra que você considere importante?

— Importante, não. São apenas coisas que fiz para me divertir. Minhas músicas, na verdade, ficaram escondidas por muito tempo. O que calhou foi que, um dia, a Inezita Barroso precisava gravar um lado B para “Moda da pinga” e, por acaso, gravou “Ronda”. Foi aí que começou. Mas nunca desejei construir uma carreira musical. E nem quero.

É verdade que a Inezita não quis gravar “Volta por cima”?

— É lenda. Um dia, encontrei a Inezita e ela perguntou: “Tem feito alguma coisa nova?”. Eu disse: “Tenho”. E ela: “O que é?”. E cantei “Volta por cima”. Ela disse: “É muito bom. Mas não é comercial”.

— E “Ronda”? Você a compôs quando estava no Exército? Como é que foi?

— Sim, foi em 1945. Aconteceu a partir de uma série de experiências que foram se acumulando. Porque não existe essa coisa de um “fato que desencadeia uma música”. Isso é romantismo de repórter. Falam demais. Não existe uma situação ou um fato. Acontece que, quando você tem vontade de fazer uma música, olha para os lados, procura um tema e vai fazendo. Quanto a tal “cena de sangue”, tinha cena todo dia.

Mas é verdade que você não gosta dessa música?

— Ela é muito piegas. Eu tinha só 20 anos. Mas o povo gostou…

Sobre a caixa de CDs, você participou da escolha do repertório?

— Não, porque eles escolheram todas as minhas músicas.

— Mas você não compôs só 52 músicas. Tinha outras.

— Umas três ou quatro que ficaram perdidas.

— Por quê?

— Porque eu não lembro mais delas.

(Perguntei por que o Toquinho e o Noite Ilustrada não participavam da caixa, mas ele não quis comentar. Passamos a falar das cantoras, algo que o animava)

— A melhor intérprete para suas músicas é mesmo Cristina Buarque?

— Há diversas. Cada uma tem o seu gênero. A Cristina, a Márcia, a Ana Bernardo, a Virgínia Rosa. Mas eu conheço a Cristininha desde que ela nasceu. E é uma grande cantora mesmo. Um dia, o Cartola me telefonou só para dizer: “Você tem razão, Paulo. A Cristina é uma cantora para o compositor, não é uma cantora para o povão. Ela entende o que o compositor quer”. E é perfeita. Tem muita cultura. Você não pode comparar a Cristininha com a Aracy de Almeida, por exemplo, que veio de um subúrbio do Rio.

— Mas você não gostava da Aracy?

— A Aracy era um tipo. Quando a coisa dava certo para o seu tipo, ela era grande. Se não desse, era um desastre.

— Como foi trabalhar com ela na TV Record?

— Eu estava precisando de dinheiro. Fui contratado para produzir a Aracy porque ninguém queria trabalhar com ela. Era uma boa pessoa, mas tinha uma psicologia complicada. Era uma protestante que caiu na boemia. Mas eu gostava muito dela. Era simplesmente uma moça de subúrbio carioca. E as mulheres, naquele tempo, sofriam muito. Eram muito exploradas. Tinha uma turma de homens inteligentes no ambiente artístico que… A Isaura Garcia, por exemplo, foi muito explorada pelos homens. Explorada sentimentalmente.

— E a Aracy se protegia disso?

— Sim. Ela aprendeu a cantar em um coro protestante!

(Mais adiante, uma pergunta entusiasmou o Vanzolini)

— E a participação dos seus velhos parceiros em Acerto de contas?

— O Paulinho Nogueira (violonista) cantou no meu disco! Quando eu o convidei, ele fez uma exigência: “Quero o Izaías (bandolinista)”. Eu falei: “Já está no disco”. Os dois tocando juntos no show de lançamento foi a coisa mais bonita que eu já vi na minha vida. São dois gênios.

— Depois de ver esse show, você não sentiu vontade de voltar a compor?

— Não. Pelo contrário. Considerei o episódio encerrado.

Como é que você compunha?

— Eu não compunha. Nem sei tocar violão. Não toco nada. Não sei nem a diferença entre um tom maior e um tom menor. Fazia as músicas dentro da minha cabeça. Não tem harmonia nem nada. É tudo muito fácil. Não tem um grande valor artístico.

(Terminada a entrevista, lembro que o Vanzolini se sentiu aliviado e puxou um assunto que o interessava. Disse que queria falar de sua família e da ligação dela com o Paraná. Pediu que eu perguntasse a respeito. Obedeci, é claro.)

— Qual a história de sua família no Paraná?

— Ela veio da Itália para o Paraná em 1870, em navio de vela. Meu bisavô era um anarquista, dono da Fazenda Palmeira, que depois virou a Colônia Cecília. Eu só não sou anarquista porque não tive tempo de estudar o anarquismo. Mas meu bisavô, o doutor Giuseppe Franco Grillo, era também um grande coletor de História Natural. Ele colecionava para o Museu de Gênova. Convivo muito com a sua memória. Todo dia encontro o rastro dele na literatura científica.

•••

Uma última lembrança: sei que o Christian também é um grande leitor do Carlos Heitor Cony. Por isso me veio à cabeça a epígrafe daquele seu romance, Pilatos: “E assim me rendi ante a força dos fatos:/ Lavei minhas mãos como Pôncio Pilatos”. Os últimos versos de “Samba erudito”, do Vanzolini. Legal, está todo mundo ligado.

Respeito é bom

Na calçada da Saldanha, diante da lavanderia, o homenzinho brabo. Já velho, mas a roupa justa, o brinco de brilhantes, o cinto de tachinhas, o cabelo preto pintado, a costeleta bem aparada, botinhas de caubói sobre a barra da calça. Vai contando à dona do estabelecimento um drama recente, uma discussão qualquer, vencida com glórias, só não sei contra que inimigo.

— Eu disse pra ele, você não me conhece, você me respeite.

— Boa.

— Você me respeite, tenho história, mereço respeito, eu disse pra ele, não sou respeitável?

— Que eu saiba.

— Tenho idade, respeito é bom.

— Sem dúvida.

— Sou bisavô seis vezes, eu disse pra ele, você me respeite. E mandei tomar no cu.