Autor: Luís Henrique Pellanda

Luís Henrique Pellanda nasceu em Curitiba (PR), em 1973. É escritor e jornalista, autor dos livros "O macaco ornamental" (contos, Bertrand Brasil, 2009), "Nós passaremos em branco" (crônicas, Arquipélago Editorial, 2011, finalista do Prêmio Jabuti 2012) e "Asa de sereia" (crônicas, Arquipélago Editorial, 2013), e organizador dos dois volumes da antologia "As melhores entrevistas do Rascunho" (Arquipélago Editorial, 2010 e 2012). Foi editor do site de crônicas Vida Breve. Trabalhou nos jornais Gazeta do Povo e Primeira Hora e, na área literária, atua como jornalista, entrevistador, curador, mediador, resenhista e cronista em diversos eventos e veículos de todo o Brasil. "Asa de Sereia" é seu blog oficial.

Os gatos do guapuruvu

gatos

Imagem: Eduardo Aguiar

Não faz muito tempo, em Curitiba, ainda era possível dormir na rua. Eu mesmo, antes dos vinte anos, recorri algumas vezes a esse expediente emergencial. O madrugueiro demorava a chegar, e as marquises, os gramados, os bancos de praça pernoitavam vazios, sempre limpos, uma tentação para tantos bêbados pedestres. Era outro século, e a cidade, uma paisagem de poucos zumbis, raros assassinos. Ou talvez já fossem muitos, não sei, e apenas se recolhessem mais cedo, para matar ou morrer no seio da família, vocês sabem como podem ser absorventes as fantasias domésticas.

Mas lembro que uma noite, vindo não sei de que bar ali na Amintas, eu descia a rua em direção à Praça Santos Andrade quando precisei parar, as pernas não respondendo mais, trançadas, pedindo descanso. Olhei para o grande guapuruvu ao lado do Guaíra, imenso e sólido como o próprio teatro, e de pronto percebi estar diante do esconderijo ideal. Era deitar entre suas raízes, as costas coladas ao tronco largo, e me deixar apagar, sereno, escondido dos carros que minguavam ladeira acima.

Curitiba, tão quieta, não reclamou do meu cansaço, não nos incomodávamos, ela e eu. A única preocupação era despistar a polícia, ficar bem mocado, e evitar o perigo das hipotermias. Naquela madrugada o frio era moderado, não tinha jeito de homicida, e assim adormeci depressa, de vez em quando ouvindo o ronco manso de algum automóvel atrás de mim, seus faróis jogando uma luz enviesada contra a árvore, a sombra do gigante correndo nas paredes do teatro.

Não sei dizer se dormi muito ou nada, e isso, agora, nem faz diferença. O que sei é que fui despertado por um ruído misterioso, uma cantoria aguda, chorosa, e que vinha do alto, de algum lugar acima de mim, feito um coro de duendes. Firmei a vista com dificuldade, a ressaca instalada antes mesmo do fim da bebedeira, o corpo mais rígido que o esperado para uma noite de outono. E o que vi, entre os galhos do guapuruvu, foi uma coleção de olhos brilhantes me observando, misturados às folhas miúdas da árvore. Nenhum deles piscava, nenhum se movia, apenas emitiam o seu código intermitente, aquela chata melodia de gemidos.

Me acostumei ao escuro da copa e não custei a decifrar a visão. Era uma turma de seis ou sete gatos brancos, pendurados aqui e ali, seus miados insistindo em parecer uma mensagem. Não tive dúvida de que tentavam me dizer alguma coisa, pensei que provavelmente me ofendiam, talvez criticassem meu mau comportamento, reclamassem da invasão de seu espaço. Finalmente irritado, a testa doendo, perguntei, engrossando a voz:

— O que é que vocês querem?

Os gatos do guapuruvu emudeceram, mas satisfeitos, como se tivessem atingido um objetivo. Um deles, o mais graúdo, desceu de ponta-cabeça pelo tronco, com inegável elegância, as unhas firmes e reluzentes, até se acomodar num galho relativamente baixo, mais próximo de mim. Dali ele me olhou com o que a princípio julguei ser uma expressão de gravidade, mas que logo interpretei como ironia, pois, tenho certeza, o gato sorriu. Foi um sorriso meio de lado, sofrido, uma luta do felino contra as limitações de sua anatomia, mas foi um sorriso.

Quando se tornou evidente que me diria alguma coisa, talvez o seu nome, a boca e os bigodes já se desenhando para o milagre da palavra, sua língua rosada subindo ao palato, fomos interrompidos por um estrondo pavoroso. Levantei assustado, num pulo, instantaneamente sóbrio. A poucos metros de nós, no cruzamento da Amintas com a Tibagi, dois carros fumegavam, abraçados um ao outro, o asfalto salpicado de vidro. Quando me refiz da surpresa e voltei a olhar para a copa do guapuruvu, todos os gatos já haviam fugido. Para onde, não sei.

Mais de duas décadas depois, continuo a passar por ali, de manhãzinha, com minha filha, rumo à natação, e encontro a árvore ainda em seu posto, mais bonita do que nunca. Sei que estamos bem mais velhos, o guapuruvu e eu, ambos plantados em Curitiba no início dos anos 70, só que ele, agora protegido pelas leis ambientais, goza a garantia de que jamais será derrubado.

A gataria decerto já morreu. Mas não a impressão daquele sorriso louco que registrei, faz vinte e tantos anos, num simples sonho de bêbado. O sorriso do gato do guapuruvu deve ser o tal sorriso de Curitiba, um repuxar desta velha Boca Maldita. A careta de um bicho irônico, interrompido, calado bem na hora de dizer a que viemos.

 

 

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ABC do decorador de labirintos – Parte final

W

Ilustras: Benett

 

W. C.: fonte dos desejos encanada.

 

X

 

Xadrez: esporte muito apreciado pelos pensadores. Jogo de concentração, mistura estátua com vaca-amarela. Ganha quem mantiver, por mais tempo, a melhor pose narcísica.

Xarope: chato com xis. Disponível nas versões adulto e pediátrico.

 

Y

 

Yin-yang: bola bonita e bipolar que, quando posta no chão, não rola.

 

Z

 

Zumbi: ser humano em estado póstumo e excepcional, no qual finalmente aprende a valorizar os cérebros ao seu redor. 

Zzzzz: derradeira onomatopeia da civilização, representando o encerramento de nossos trabalhos e a conclusão de todos os debates.

 

 

ABC do decorador de labirintos – Parte 5

S

Ilustras: Benett

 

Saudade: pano de chão muito usado, mas tecido com material precioso, ainda retendo os restos da grande festa de ontem.

Segunda-feira: tiro de largada que nos soa a tiro de misericórdia.

Sexta-feira: fantasia leve que vestimos já no fim do baile. Acompanha máscara sorridente. Precede o pijama de sábado e a mortalha dominical.

Sinceridade: defeito dos perfeitos.

Sonho: 1 terreno baldio das nossas vontades 2 lixão das liberdades pessoais 3 linha reta entre o desejo e a frustração.

Subcelebridade: na sociedade contemporânea, pária criado para substituir as elites como alvo fundamental de nossa inveja, nossa troça e nosso ódio.

 

T

 

Tempo: rio bonito e caudaloso que ninguém quer ver passar. Promovido a esgoto, acabou canalizado.

Traidor: 1 mestre que age à revelia de nosso amor por ele 2 discípulo que age à revelia de nosso amor por nós mesmos 3 mariposa cuja lagarta foi o bajulador.

 

U

 

 

Urubu: indivíduo de destaque no viveiro de pavões.

 

V

 

Verme: criatura que, para realizar seu sonho de voar, deixa-se engolir pelos pássaros. A maioria, porém, acaba no papo das galinhas.

Vida: 1 labirinto sem chão 2 vale de lágrimas com status de parque aquático (ou vice-versa) 3 tobogã áspero com destino certo (ver Morte)

Vina: embutido ordinário, mas autoindulgente, considera-se uma salsicha de primeiro mundo.

 

O homem vendado

ebano

Imagem: Eduardo Aguiar

Na Pracinha do Amor, encontro um homem vendado. Está de costas para a relojoaria da Saldanha, sentado num banco de madeira. Sua venda é branca, muito limpa, e não sou capaz de reconhecer o tecido de que é feita. Na nuca, um nó simples, firme, se perde entre os cabelos oleosos. O homem respira com calma, como se evitasse mover o tronco, mas sem dor. É um sujeito tão convencional que, fora o fato de estar vendado, nada nele me chama a atenção. Não vejo na cena nenhum mistério. É domingo, a cidade está quieta, e ali estamos nós, dois homens: um enxerga, o outro não, e isso é tudo.

Sigo adiante, normal, e subo a escadinha da sinagoga. Avanço pela Saldanha em busca de um almoço. Tenho planos de comer fartamente, sem pressa, apesar do trabalho que preciso concluir à tarde. É o que faço. Visito um restaurante da região, peço uma costela, me demoro entre seus ossos. O movimento é pequeno, poucos casais, nenhuma família. Tudo tão quieto, melhor assim, penso, e mato dois cafés aguados, com gosto de sabão. Pago a conta, a refeição é barata, e volto para casa, pelo mesmo caminho, quase duas horas depois.

Chego à praça e nada mudou. Ou melhor, mudou apenas a minha disposição para os enigmas. Porque o homem ainda está lá, imóvel, a mesma venda limpa nos olhos, se é que tem olhos debaixo dela. Só que agora, não sei por que, sinto por ele uma ponta de curiosidade, quem sabe é o efeito da gordura em meu fígado, o cérebro incomodado, vazando óleo.

Investigo o desconhecido: ordinário da cabeça aos pés, não se trata de um artista performático. É uma figura prática. Talvez seja um homem sério em busca de emprego, e seu martírio faça parte de algum teste, tudo aqui é parte de um abominável processo seletivo, o quanto de medo e insegurança você suportaria, o quanto de humilhação num mês?

Mas pode ser que este homem seja apenas um gincaneiro abandonado por seu grupo, ou um desses jogadores compulsivos, viciados em apostas exóticas. Certamente não é um cínico, daqueles que andam sob o sol com uma lamparina acesa, à procura de um cidadão honesto. Vai que é só um inocente, um puro que, para não ver mais homens impiedosos, preferiu simplificar e não ver mais nada?

Não sei. Só sei que me sinto pesado e preciso descansar. Sento no banco ao lado dele, para melhor espioná-lo. Será que ele sabe que estou aqui? Cruzo as pernas, jogo a cabeça para trás e deixo o tempo passar, meia hora, quarenta minutos, esqueço que tenho um trabalho a fazer, e bocejo, tusso de leve, e bocejo de novo, estou sonolento e descuidado, cabeceio de sono, mas o homem vendado não reage a nada, muito menos a mim.

Até que, de repente, algo acontece. O homem ergue do colo uma das mãos. Com ela, retira a venda do rosto, sem qualquer preparação ou suspense. Olha ao seu redor e, levantando-se, anuncia com voz alta, potente:

— Pronto, lá vou eu!

Só então percebo que a praça, na verdade, não está tão vazia quanto eu supunha. Há várias pessoas ali conosco, tão convencionais quanto o homem que eu observava. Elas estão parcialmente escondidas, são meio diáfanas, mas é possível vê-las sim, uma aqui, outra ali, atrás das tipuanas e da araucária, atrás do acrílico encardido do ponto de táxi, atrás da banca de revistas, do pedestal do capitão Ébano Pereira, do busto de Santos Dumont.

São muitos além de nós, e todos estão escondidos, menos eu e este homem. É por isso que ele me localiza assim, facilmente, eu tão desprevenido, a barriga cheia. Com a venda entre os dedos, branca e limpa, o homem me encara nos olhos, os dele da mesma cor que os meus, e me diz, cheio de cordialidade e simpatia:

— Bem-vindo.

 

 

ABC do decorador de labirintos – Parte 4

N

Ilustras: Benett

 

Narcisista: glutão de duzentos quilos a desejar os próprios pernis.

 

O

 

Ostentação: tara que nos impele a quebrar vidraças e vitrines com pedras preciosas.

Otimista: trabalhador obstinado que aproveita a lama ao seu redor para construir um imenso chiqueiro. Depois, serviço concluído, senta à sombra e fica esperando os porcos brotarem.

 

P

 

Palhaço: ator cômico, muito maquiado, pouco levado a sério. De cara limpa, todo mundo vira um.

Passado: época tão imutável quanto nossa memória é infalível.

Plateia: constelação de olhos.

Poder: rede de rabos presos.

Poeta: bandido de estrada especializado em desviar a própria carga.

Política: carrossel de muitos cavalos que se perseguem. Fixos, jamais mudam de posição, somente sobem e descem, e quem se move, na verdade, é a máquina a que estão atrelados. Feitos todos do mesmo material, diferem apenas superficialmente, nas cores com que foram pintados. Promíscuos, aceitam diversos jóqueis. Melhor não apostar em nenhum.

Posteridade: período da História que ama e privilegia a incapacidade e a insensatez de nossos piores contemporâneos.

Profeta: ilusionista cujo maior poder é convencer os outros a realizar suas visões (p.ex.: Ao bom p., o futuro nunca chega).

Predadores: carência maior da humanidade atual.

Progresso: objeto de estudo e desejo dos retrógrados do futuro.

 

Q

 

Quiromaníaco: autor que escreve para satisfazer a si próprio. Seu forte é a fantasia, em geral subliterária e autoficcional.

 

R

 

Rancor: gigante doméstico que se alimenta dos refugos de nossa grande inteligência. Para continuar crescendo, precisa consumi-la gradativamente.

Redes sociais: camelódromos virtuais onde botamos para vender tudo o que temos e somos. Como ideia comercial, caracteriza-se por uma incongruência prática: todos são vendedores e ninguém tem dinheiro.

Relógio: 1 no pulso, algema psicológica 2 na parede, janela de onde vemos o sol morrer quadrado 3 máquina que nos mede o atraso (p.ex.: Você pensa que usa r., mas é exatamente o contrário).

 

 

ABC do decorador de labirintos – Parte 3

I

Ilustras: Benett

Inferninho: pequena construção erigida para conter nossas maiores tentações.

Inimigo: entidade muito cultuada em igrejinhas literárias. Felizmente, não faz milagre.

Internet: 1 madrasta dos burros 2 habitat ideal de uma espécie cada vez menos rara: o cordeiro em pele de lobo.

J

 

Jornalista: profissional de comunicação cujos maiores talentos tendem a ser administrativos. Contratado, administra a esmola; empreendedor, administra o calote; frila, administra o vento.

Jornal literário: nas peixarias, papel vagabundo usado para embrulhar traíras.

K

 

Kafkiano: adjetivo que designa tudo aquilo de que Kafka definitivamente não gostava, inclusive sua própria obra. Nesse sentido, reservamos a ele uma posteridade também kafkiana.

L

 

Leitor: 1 carregador de bagagens que ganhou o direito de abri-las e revirá-las 2 expert em ruminação.

Leitura: ato de jogar sombras sobre um livro ao nos debruçarmos sobre ele.

Literatura: 1 instrumento impreciso de observação da humanidade. Às vezes é janela. Às vezes, espelho. Às vezes, penteadeira 2 forma mais adequada de registrar o que temos de melhor: nossa capacidade de registrar o que temos de pior.

Livro: objeto tão conveniente que foi necessário produzir, por meio de seu conteúdo, alguma inconveniência.

M

 

Mar: régua de medir horizontes.

Maturidade: condição preferencial do ser humano, em que ele já aprendeu a se contentar com pouco.

Megalomania: impulso que nos leva a lutar, até a morte, pelo trono de Lilipute.

Morte: piscina vazia onde as almas vão veranear.

Motel: ambiente seguro aonde se levar desaforos.

Mundo: do ponto de vista dos vivos, uma coisa rasteira.

 

 

O velho com a menina no colo

Pracinha do Amor

Imagem: Eduardo Aguiar

Fazemos o mesmo caminho, ele e eu, todo dia, mas nunca juntos. Subimos a Ébano, cruzamos a Pracinha do Amor, pegamos a Saldanha até a Cabral. Depois é cada um para o seu lado, boa tarde, não sei para onde ele vai, não somos amigos. Nossos horários também batem, exatos, a entrada e a saída das escolas, a hora do almoço, o fim do expediente.

Na verdade somos quatro, duas duplas no páreo. Eu com minha filha, ela já apressada, me puxando pela mão, a nova mochila de rodinhas conosco, vencendo calçadas cada vez piores, mais sujas. Já ele não, nada de filha. Vai com a neta no colo, talvez bisneta, é mais provável, umas oito décadas de diferença entre os dois, no mínimo.

O velho se esforça, heroico, patético. A menina dele bem que podia ir andando, tem dois anos e tanto, mas eu sei que não é esse o desejo do avô. Ele a quer no ar, suspensa, bem longe das pedras soltas do calçamento, do mau cheiro das nossas vias, do lixo que se acumula debaixo dos postes. Quer a neta em seus braços e não a libertará jamais, não descuida dela um segundo, e anda assim, torto e cansado, mas irredutível, como quem não se desfaz de um saco de ouro garimpado ao longo de toda uma vida.

Tampouco ela faz questão de palmilhar o chão distante e contaminado, tão tranquila. Apesar de pequenina, é evidente que já pesa muito para o avô, e o sofrimento físico a que o submete é cruel, ruim de ver, me enche de angústias, me faz pensar numa pena autoimposta, uma penitência amorosa, o amor como castigo, a bola de ferro no tornozelo, e, sim, acabo achando que o velho deve ter feito por merecer essa carga, o que terá aprontado, quais crimes?

Vai devagar, meio de lado, usa bons sapatos e manca um pouco da perna direita. Comenta-se que tem dinheiro, farta aposentadoria, automóvel caro. De qualquer maneira, dizem, não está mais autorizado a pilotar, é um risco. Não que ele ligue, descobriu só na velhice o sentido simbólico de ser pedestre, a neta veio ensiná-lo a caminhar, a ler as ruas, reescrever sua história com os pés. E não importa a estação, pode até estar frio, ele sua muito, culpa do quase infalível paletó de lã, os cotovelos remendados com couro e o velho suando, vermelho, mas sem brigar com o suor.

Embora pareça, não está vestido para trabalhar. Decerto quer aparentar alguma produtividade tardia, já o vi até de gravata, um despropósito, penso que com isso pretenda preservar a elegância ou a ilusão de sucesso de tempos passados, dizem que advogou e, em épocas imemoriais, teve um nome. Pode ser. Muito poucas vezes o encontrei apenas de camisa, desobrigado da cerimônia. Mangas arregaçadas só em tardes de calor excessivo, tão raras em Curitiba, mas sim, já aconteceu.

Já o vi livre dessas formalidades, dos panos com que se esconde, já vi partes de seu corpo e posso garantir, é humano, eles estão lá, sim, aqueles braços finos de homem velho, sem musculatura visível, sem nervos viáveis, apenas osso e pele que se adelgaçam, e tremendos hematomas acusando o uso de algum afinador de sangue, e uma arritmia que avança, aquele fole de vaidade se esvaziando, um organismo sem fôlego, sem forças, sem música.

Aliás, um perigo o velho subindo os oito degraus à sombra da sinagoga abandonada, ele quase deixa de respirar durante o percurso e, lá em cima, precisa esperar uns dez, quinze segundos, os olhos fechados, para só então retomar a marcha. Mimada, a menina não ajuda, sequer pensa em ajudar, apenas segue impávida em sua liteira de sonhos, os bracinhos largados de marionete e o olhar majestático sobre um mundo que, para ela, tão elevada, é e será, sempre, submundo e nada mais.

Quando chove, drama corriqueiro, a coisa se torna ainda mais penosa. A neta vai equilibrada no antebraço esquerdo do avô, que escora o guarda-chuva preto, pesado, aberto, em seu ombro direito. O velho segue encharcado e a menina seca, um sacrifício em nome de sei lá o quê, acho que de sua reputação de macho, eu já disse e me garantiram que ele foi alguém um dia, e não somente este carregador de anjos sonolentos. Mas qual o problema? Hoje, mesmo incógnito e até lamentável, não há na vizinhança quem não o admire e, ao mesmo tempo, tema por sua segurança. Eu mesmo sempre os sigo de perto, se acontecer de caírem, estarei ali, tentarei salvar a menina, juro, só não posso prometer nada, não me cobrem.

Ninguém mexe com o velho, e isso merece um parágrafo, uma comemoração. Os bandidos daqui, ao menos os novatos, ainda respeitam os homens adultos que conduzem suas crianças, sei disso por experiência própria. Eles falam mais baixo quando passamos, evitam os palavrões e as fórmulas de ameaça, repreendem-se uns aos outros, nos abrem caminho, dão boa-tarde às meninas, até nos mostram dentes pouco treinados para o sorriso, fazendo com que nos sintamos meio femininos, meio emasculados. Mas está ótimo, admito. Não sei por quanto tempo isso ainda vai durar, essa trégua, acho até que está prestes a acabar, mas sem dúvida é ela que ainda nos permite viver e amar nesta cidade com cada vez menos recursos afetivos.

Ainda há, em todo caso, longos intervalos de paz. E a única vez em que vi o velho sem a menina foi à noite, num desses momentos em que a guerra se dilui em meio às luzes amarelas de Curitiba, ele sozinho, sentado num dos bancos da Pracinha do Amor. Eu passava por lá a caminho da panificadora Fênix, uma boa coincidência, e como notei que havia três estrelas no céu sobre a sinagoga, um luxo para os nossos padrões nublados, decidi me acomodar no banco diante dele e aproveitar o espetáculo noturno.

Era cedo, e o frio, um dos primeiros do ano, mesmo moderado, já bastava para espantar da área os traficantes e os malacos. Tudo estava calmo, o movimento nas ruas ainda intenso, o pessoal empreendendo aquela viagem diária de um sonho a outro sonho, saindo de seus escritórios e indo resgatar seus carros nos estacionamentos da Ébano, da Ermelino, da Saldanha.

Sereno, o velho olhava as moças que passavam. E as olhava com gosto e por hábito, como dizia o querido Ivan Angelo numa de suas crônicas bonitas, olhava porque fazia aquilo desde menino, e porque olhar as moças consertava o seu dia. As moças passavam por ele e por mim, e ele as apreciava, assim como eu, só que ele sem muita atenção ou meta, sem provocar nelas reação alguma, fosse de nojo, medo ou interesse, era somente um senhor de paletó num banco de praça, exercendo com maestria o seu maior poder, o de ser vagamente nebuloso, uma presença quase gasosa, uma vitalidade aerada treinando para a dispersão final.

Creio que só eu visse o velho, e ele não se incomodava com isso. Depois de cinco ou dez minutos, puxou do bolso interno um maço de cigarros. Acendeu um deles, não reconheci a marca, e começou a fumá-lo investigando o céu, o queixo erguido com dificuldade, o pescoço perdendo suas dobras. Sua vista, logo vi, devia estar péssima, pois não demorou muito e me disse, reclamando:

— Não tem mais estrelas nessa cidade.

Eu concordei, não tem mesmo, mas olhei para as três estrelas brilhando sobre nós e pensei que, em breve, eu também não as veria mais, e que importância elas deixariam de ter, então?

O velho fumava com prazer e calma, era outra pessoa, e nela não havia nenhum resquício de pressa ou remorso. Mas eu suspeitava de que ali, naquele banco de madeira, não estava o verdadeiro homem, a carcaça impossível de ser detida, e sim uma fantasia a que ele se entregava quem sabe se uma ou duas vezes por semana, se tanto.

É, o verdadeiro velho era o outro, era o lugar onde estava o seu amor, era aquela máquina engasgada movida a orgulhos e martírios, ladeira acima, barranco abaixo, era o burro, o reles burro, o eterno burro que, à beira dos abismos, ainda precisava transportar os seus bens mais preciosos, o capital da sua alma, as suas últimas esperanças.

 

 

 

Recado ao desembargador

Ontem testemunhei o encontro entre um famoso vagabundo da Boca Maldita e um desembargador obscuro. Entre eles, o relacionamento era antigo. O desembargador, ao ver o vagabundo, teve um desgaste, irritou-se, coisa deles. Sacou do bolso uma nota de cinquenta.

— Toma! Leva esta nota e gasta tudo em pinga!

O outro foi apanhá-la, esticou a mão, mas o primeiro puxou o prêmio, impôs a condição inesperada:

— Mas olha: é pra você morrer! É pra beber e morrer! Por favor, não se esqueça de morrer!

O vagabundo topou e sumiu Ermelino acima, deixa comigo, a onça no bolso.

Hoje de novo se encontraram, de novo fui testemunha. O desembargador não se conteve, até se enfureceu diante da visão indesejada, deu um tapa na testa alta, você por aqui, é o fim, ou pelo menos deveria ter sido.

— Não mandei você morrer?

O vagabundo, com a serenidade das almas salvas, explicou que na real morreu, morreu, sim, e inclusive subiu aos céus, só precisou voltar para entregar ao doutor um recado, um aviso, um lembrete importante, quer ouvir? Contrariado, o outro disse que sim, mas apressou o espírito mensageiro, diga logo, tenho uma consulta médica, um cafezinho marcado, um cliente à minha espera, os netos lá em casa.

O falecido sentiu que era o seu dia. Sorriu, enchendo o peito, e depois fez uma cara séria, a fisionomia digna dos finados, a monocelha de quem conheceu a grande verdade:

— Do lado de lá, meu pobre, tu não resolve nada com teus cinquenta paus.

 

 

ABC do decorador de labirintos – Parte 2

E

Ilustras: Benett

Eleição: artifício que, nas sociedades mais evoluídas, tem por fim viabilizar a prática de pedir votos, exótica modalidade de mendicância.

Erudição: vedete radical, extremista; ou se deita de cara, já nua, ou dança a noite toda, combinando penacho, plataforma e maiô de paetês.

Escritor: decorador de labirintos.

Esperança: 1 leve bagagem de mão que, ao contrário do que foi dito a Dante, só largaremos no dia em que formos aceitos no céu (p.ex.: Toda e. é infernal. Todo inferno pressupõe uma e.) 2 forma menos agressiva de loucura.

Ética: fonte de orgulho que, quando o tempo esquenta, é a primeira a secar.

Eternidade: grossa parede sem ouvidos.

Expectativa: espécie invisível de pássaro rapinante que, aos gritos, sobrevoa nossas cidades.

F

 

Fé: força que nos leva a rezar e acender velas mesmo sabendo que os santos não existem.

Felicidade: 1 resultado que se espera obter, a longo prazo, após o exercício diário da desesperança 2 gorda e fabulosa galinha que botava ovos de ouro. Foi morta pelo próprio granjeiro, na Grécia do século VI a.C. Ainda há quem jure ouvir o seu fantasma cacarejar, ao longe, em certas noites especialmente estreladas.

Ficção: a única saída que nos resta, já que a verdade não existe e mentir é pecado.

G

 

Glória: tipo de fumaça tóxica e colorida que se pode respirar, por alguns segundos, nas proximidades de pódios e linhas de chegada. Dissolve-se rapidamente, mas seus resíduos ainda poderão ser encontrados na necropsia. Confundida com os gases lacrimogêneo e hilariante, é sua irmã do meio.

H

 

Homem: 1 bicho de estimação do diabo, dado a ele por Deus, como prêmio por seu bom comportamento 2 animal que se torna infeliz para poder buscar a felicidade 3 único animal que se perde em sua própria floresta.

 

 

Os mausoléus

Deus é o dinheiro. O diabo são as ações.
Deus é amor. O diabo são as outras.
Deus é a vida. O diabo, as paralelas.
Deus é o tempo. O diabo, o progresso.
Deus é o futuro. O diabo, a velhice.
Deus é a História. O diabo, as ruínas.
Deus é a cozinha. O diabo, a mesa posta.
Deus é a elegância. O diabo, os acessórios.
Deus é a olaria. O diabo, os mausoléus.

A olaria é dentro da gente.
A gente é dentro dos mausoléus.