Pedágios e invocações

 

Invocações

Imagem: Eduardo Aguiar

 

Um homem igual a mim, e que atende pelo meu nome, passa três vezes por semana, às segundas, quartas e sextas, pelo calçadão da Monsenhor Celso, bem ali onde a rua desemboca, ruidosa, na correnteza da Praça Tiradentes. É uma encruzilhada típica, um triste ponto de pedágios e invocações, compras e vendas. E sempre que enfrenta o velho cruzamento, pela manhã, o homem que usa o meu nome, assim como toda gente, é obrigado a deixar no local uma dádiva, uma oferenda, uma paga. Ele deixa. Mas até hoje não descobriu exatamente o quê.

Uma mulher atarracada e sem pescoço, vestindo blusa e gorro de lã, é a primeira a abordá-lo. Ela o elege entre tantos pedestres, é aquele, o macho de meia idade, nunca falha. Estende ao homem um panfleto em papel brilhante, ilustração e legendas coloridas. O conteúdo varia, mas a mensagem, em geral, é a mesma. No panfleto retangular, o que se lê é algo como SÓ FERAS, ou GATAS D4, as letras e os números de telefone em amarelo, rosa e roxo, acompanhando fotos reais e sem retoques de belas moças nuas, em posição invariavelmente quadrúpede.

O homem diz não, obrigado, despreza a isca da mulher atarracada, que no fundo não dá a mínima para ele, sequer o olhou nos olhos. Aquela é só mais uma rejeição em sua vida, e dessa vez a rejeitada nem foi ela, ela está de pé, vejam, o corpo ereto, e não rastejante, como a beleza irretocável nos papéis que distribui.

Mais adiante, o homem que usa o meu nome é chamado por outra mulher, que não sabe o nome dele, e por isso o chama de amigo. Ela é bonita, não tanto quanto a moça de quatro do panfleto, mas é alta e loura, bem maquiada, e veste roupas sóbrias, parece confiável, por que não parar para ouvi-la? Ela posa ao lado de um cavalete cheio de revistas, sentinela, despertai, renasçamos, coisas assim, e diz bom dia, amigo, você já conhece nossas publicações, pode pegar uma, vem cá, vem que é de graça, olha a oportunidade.

Mas o homem diz não, obrigado, e a mulher bonita se ressente um pouco, normal, e até desiste de sorrir. Recusar uma oferta sua é como dizer não à própria pureza, reclamar de uma manhã de sol, de um céu azul, e puxa, foi para ele que ela se vestiu ao acordar, foi para ele que se perfumou, e lavou os cabelos, e redesenhou a boca com um batom claro, discreto, mas atraente. Afinal, o que quer este homem que segue impassível, para onde ele vai, quem o espera, por que não me compra, e para quem já terá se vendido?

Ninguém sabe, nem ele. Dois, três, quatro passos mais e uma terceira mulher lhe aparece, uma senhora em roupas menores, desprotegida no outono curitibano, coitada, as pernas finas e a cintura tão larga, os ombros caídos e o rosto rude, o tédio em meias-arrastão. Ela emparelha com o homem que usa o meu nome e cochicha assim, sem convicção nenhuma, vontade zero, vamos lá? É uma pergunta mecânica, e sua voz, ao perguntar, soa como se saísse de um robô anacrônico, sim, ela é tecnologia ultrapassada e se comporta como tal, uma máquina sem fé, lampadinhas pifadas, produzindo um sussurro metálico, vamos lá? E é com ouvidos de lata e ferrugem que essa terceira mulher escuta um terceiro não, obrigado.

Agora é a vez do cara da agência de empregos, um sujeito grande e sanguíneo. Ele vai seco, confiante, na direção de sua caça, e pretende atacá-la com seus punhados de filipetas vagabundas, armadilhas em papel-jornal, e melhor seria se fossem tecidas em papel pega-moscas, esses recadinhos em preto e branco para quem perdeu não a esperança, mas o direito de exigi-la em papel de qualidade. O cara da agência de empregos estica um de seus panfletos para o homem que usa o meu nome, seu imenso braço tipo uma cancela a lhe barrar a passagem. Mas não, o outro não lhe dá atenção alguma, e passa batido por ele, não diz não nem agradece, já está de saco cheio daquilo, cai fora.

E só então o último da fila, o moço-sanduíche do restaurante popular. Um rapaz miúdo que garante, aos berros, que a comida preparada logo ali é muito boa, barata e caseira, e nos promete que seremos atendidos como reis e rainhas, embora nosso reinado, infelizmente, tenha de durar pouco, pois o serviço por lá é rápido e eficiente, e quando você vê, já está na rua de novo, a digestão bem adiantada, satisfação absoluta e felicidade à vontade, e felicidade, acreditem, por somente seis reais, é pegar ou largar, você me dá seis reais e eu te dou lasanha, feijão e frango frito, garçonete, televisão e cafezinho, adoçante ou açúcar, você escolhe, tudo de bandeja para nós.

Sem saber por que razão, o homem que usa o meu nome recolhe a filipeta do moço-sanduíche, é possível que goste do sujeito, e agora é ele quem age como um autômato. Estica a mão, os dedos em pinça, e apanha o papel (brilhante) que o moço-sanduíche lhe oferece, mas apenas para atirá-lo na lixeira ali em frente, sempre cuidando, é claro, para que o rapaz não o veja se desfazendo de suas ofertas de alegria, poder e paraíso, pois não quer ofendê-lo, ninguém quer, mas, engraçado, todo mundo o ofende, pobre menino.

***

Nas terças e quintas, porém, outro homem igual a mim passa por aquela mesma encruzilhada. E ele também usa o meu nome. A diferença é que este homem, sempre disposto, ainda forte, tão forte quanto eu, traz na garupa uma menina, sua filha.

A mulher atarracada não o detecta, a paternidade é o seu manto da invisibilidade, e ele a trespassa incólume, somente um tanto incomodado, uma coceirinha nos olhos, outra no nariz; ele a trespassa não como se fosse o vento entre as Arcadas do Pelourinho, mas como se a mulher atarracada fosse uma teia de aranha inútil, sem cola, à espera do espanador. Já a mulher bonita se dirige não ao homem com a menina na garupa, mas à própria menina, quer ganhar uma revistinha, minha princesa? E a terceira mulher, a velha senhora oferecida, nestas manhãs de terça e quinta nem se oferece mais, não a este cliente, apenas se contenta em acenar para a filha dele, que amor que ela é, e trocam beijos entre si, a senhora e a criança, e os sopram no ar frio, os beijos quentes fumaceando, e os capturam feito borboletas apetitosas, com a delicadeza, a fome, a precisão dos passarinhos.

O cara da agência de empregos se recolhe à passagem da dupla, dá as costas ao seu avanço e se afasta apressado, o que adianta? Os papéis vagabundos em suas mãos se incendeiam, ele tenta escondê-los, guardá-los no bolso, mas suas calças também se queimam, suas unhas faíscam, e em poucos segundos ele vira uma tocha subumana, uma fogueira sem vaidades consumindo a si mesma, adeus, braseiro miserável, apagando-se num redemoinho de cinzas.

O moço-sanduíche não, é de outra estirpe, orgulhoso. Ele se mantém inteiro, e reage naturalmente, parece íntegro, e talvez até o seja, guarda um sorriso sincero para a menina, que sorri de volta. É para ela que o rapaz dirige o seu papelzinho colorido e brilhante, o pai não interessa, jamais interessou. A menina apanha o panfleto e agradece, obrigada, e o moço-sanduíche diz de nada, embora não prometa mais coisa alguma, nem comida boa, barata e caseira, nem felicidade à vontade, pois sabe que para uma criança não se mente impunemente, e sabe disso porque ainda se lembra: ontem mesmo ele era um menino, a quem mentimos tantas e tantas vezes.

***

O homem das segundas, quartas e sextas segue sozinho por ali, tem poucos medos e, mesmo assim, todos eles vagos e meio estúpidos. A possibilidade remota de um câncer no intestino, a suspeita do fígado minado por tumores, as infecções galopantes, uma pinta escura nas costas, e aquela fisgada no pescoço, que já dura três semanas, o que seria?

Já o homem das terças e quintas tem muitos medos, temores incontáveis, e todos eles de alguma forma ligados à menina que traz na garupa. O pior deles: que, um dia, pai e filha encontrem, na encruzilhada das almas e dos anjos da Monsenhor Celso, o homem das segundas, quartas e sextas, e que, a partir deste encontro, a menina não mais o reconheça.

 

 

Anúncios

1 comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s