Os gatos do guapuruvu

gatos

Imagem: Eduardo Aguiar

Não faz muito tempo, em Curitiba, ainda era possível dormir na rua. Eu mesmo, antes dos vinte anos, recorri algumas vezes a esse expediente emergencial. O madrugueiro demorava a chegar, e as marquises, os gramados, os bancos de praça pernoitavam vazios, sempre limpos, uma tentação para tantos bêbados pedestres. Era outro século, e a cidade, uma paisagem de poucos zumbis, raros assassinos. Ou talvez já fossem muitos, não sei, e apenas se recolhessem mais cedo, para matar ou morrer no seio da família, vocês sabem como podem ser absorventes as fantasias domésticas.

Mas lembro que uma noite, vindo não sei de que bar ali na Amintas, eu descia a rua em direção à Praça Santos Andrade quando precisei parar, as pernas não respondendo mais, trançadas, pedindo descanso. Olhei para o grande guapuruvu ao lado do Guaíra, imenso e sólido como o próprio teatro, e de pronto percebi estar diante do esconderijo ideal. Era deitar entre suas raízes, as costas coladas ao tronco largo, e me deixar apagar, sereno, escondido dos carros que minguavam ladeira acima.

Curitiba, tão quieta, não reclamou do meu cansaço, não nos incomodávamos, ela e eu. A única preocupação era despistar a polícia, ficar bem mocado, e evitar o perigo das hipotermias. Naquela madrugada o frio era moderado, não tinha jeito de homicida, e assim adormeci depressa, de vez em quando ouvindo o ronco manso de algum automóvel atrás de mim, seus faróis jogando uma luz enviesada contra a árvore, a sombra do gigante correndo nas paredes do teatro.

Não sei dizer se dormi muito ou nada, e isso, agora, nem faz diferença. O que sei é que fui despertado por um ruído misterioso, uma cantoria aguda, chorosa, e que vinha do alto, de algum lugar acima de mim, feito um coro de duendes. Firmei a vista com dificuldade, a ressaca instalada antes mesmo do fim da bebedeira, o corpo mais rígido que o esperado para uma noite de outono. E o que vi, entre os galhos do guapuruvu, foi uma coleção de olhos brilhantes me observando, misturados às folhas miúdas da árvore. Nenhum deles piscava, nenhum se movia, apenas emitiam o seu código intermitente, aquela chata melodia de gemidos.

Me acostumei ao escuro da copa e não custei a decifrar a visão. Era uma turma de seis ou sete gatos brancos, pendurados aqui e ali, seus miados insistindo em parecer uma mensagem. Não tive dúvida de que tentavam me dizer alguma coisa, pensei que provavelmente me ofendiam, talvez criticassem meu mau comportamento, reclamassem da invasão de seu espaço. Finalmente irritado, a testa doendo, perguntei, engrossando a voz:

— O que é que vocês querem?

Os gatos do guapuruvu emudeceram, mas satisfeitos, como se tivessem atingido um objetivo. Um deles, o mais graúdo, desceu de ponta-cabeça pelo tronco, com inegável elegância, as unhas firmes e reluzentes, até se acomodar num galho relativamente baixo, mais próximo de mim. Dali ele me olhou com o que a princípio julguei ser uma expressão de gravidade, mas que logo interpretei como ironia, pois, tenho certeza, o gato sorriu. Foi um sorriso meio de lado, sofrido, uma luta do felino contra as limitações de sua anatomia, mas foi um sorriso.

Quando se tornou evidente que me diria alguma coisa, talvez o seu nome, a boca e os bigodes já se desenhando para o milagre da palavra, sua língua rosada subindo ao palato, fomos interrompidos por um estrondo pavoroso. Levantei assustado, num pulo, instantaneamente sóbrio. A poucos metros de nós, no cruzamento da Amintas com a Tibagi, dois carros fumegavam, abraçados um ao outro, o asfalto salpicado de vidro. Quando me refiz da surpresa e voltei a olhar para a copa do guapuruvu, todos os gatos já haviam fugido. Para onde, não sei.

Mais de duas décadas depois, continuo a passar por ali, de manhãzinha, com minha filha, rumo à natação, e encontro a árvore ainda em seu posto, mais bonita do que nunca. Sei que estamos bem mais velhos, o guapuruvu e eu, ambos plantados em Curitiba no início dos anos 70, só que ele, agora protegido pelas leis ambientais, goza a garantia de que jamais será derrubado.

A gataria decerto já morreu. Mas não a impressão daquele sorriso louco que registrei, faz vinte e tantos anos, num simples sonho de bêbado. O sorriso do gato do guapuruvu deve ser o tal sorriso de Curitiba, um repuxar desta velha Boca Maldita. A careta de um bicho irônico, interrompido, calado bem na hora de dizer a que viemos.

 

 

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