Recado ao desembargador

Ontem testemunhei o encontro entre um famoso vagabundo da Boca Maldita e um desembargador obscuro. Entre eles, o relacionamento era antigo. O desembargador, ao ver o vagabundo, teve um desgaste, irritou-se, coisa deles. Sacou do bolso uma nota de cinquenta.

— Toma! Leva esta nota e gasta tudo em pinga!

O outro foi apanhá-la, esticou a mão, mas o primeiro puxou o prêmio, impôs a condição inesperada:

— Mas olha: é pra você morrer! É pra beber e morrer! Por favor, não se esqueça de morrer!

O vagabundo topou e sumiu Ermelino acima, deixa comigo, a onça no bolso.

Hoje de novo se encontraram, de novo fui testemunha. O desembargador não se conteve, até se enfureceu diante da visão indesejada, deu um tapa na testa alta, você por aqui, é o fim, ou pelo menos deveria ter sido.

— Não mandei você morrer?

O vagabundo, com a serenidade das almas salvas, explicou que na real morreu, morreu, sim, e inclusive subiu aos céus, só precisou voltar para entregar ao doutor um recado, um aviso, um lembrete importante, quer ouvir? Contrariado, o outro disse que sim, mas apressou o espírito mensageiro, diga logo, tenho uma consulta médica, um cafezinho marcado, um cliente à minha espera, os netos lá em casa.

O falecido sentiu que era o seu dia. Sorriu, enchendo o peito, e depois fez uma cara séria, a fisionomia digna dos finados, a monocelha de quem conheceu a grande verdade:

— Do lado de lá, meu pobre, tu não resolve nada com teus cinquenta paus.

 

 

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