ABC do decorador de labirintos

ABC-Pellanda

Ilustras: Benett

 

A partir de hoje publico aqui, em partes, o meu ABC do Decorador de Labirintos. Um dicionário de incertezas, ruínas em constante reforma, com capitulares ilustradas pelo Benett. Pra começar, alguns verbetes das quatro primeiras letras.

A

Amor: cul-de-sac na estrada evolutiva. Chegando a ele, a humanidade ou se estabelece ou engata uma ré.

Amor-próprio: artigo que só percebemos que nos falta quando tentamos amar ao próximo como a nós mesmos.

Arrogância: móvel grande e pesado, feito de material barato, madeira verde. Exige interiores amplos, mas absolutamente vazios. Tem incontáveis gavetas, todas emperradas.

Artista: categoria tão perturbada que sente inveja até de gente morta.

 

B

Biblioteca: miragem que se desenha conforme o interesse, as capacidades ou o delírio de quem a elabora. Pode ser um labirinto, um poleiro, um parque de diversões, uma sucessão suicida de trampolins.

Bofetada: fortificante que, assim como os vermífugos, se aconselha tomar uma ou outra vez durante a vida; os cristãos recomendam as doses duplas.

Bom gosto: nome dado à carapuça favorita dos classistas.

Brasil: país cujos habitantes se destacam por sua esperteza e determinação. O brasileiro burro nasce morto, mas teima em não admitir.

 

C

Cadáver: o melhor aforista. Seu silêncio é a expressão final da nossa única certeza.

Calendário: miragem de parede, tabuleiro por correm não os dias, mas os nossos olhos.

Celebridade: estado ideal da reputação de um brasileiro, perfeito para se vender cerveja, planos telefônicos e financiamentos bancários.

Celibatário: atleta que, mesmo no calor da corrida de revezamento, se recusa a passar o bastão.

Coice: a melhor oferta do burro.

Credibilidade: qualidade que conferimos a certos mentirosos que não conhecemos.

Crítica literária: modalidade mais radical da autoficção.

Cristianismo: seita que nos aconselha a vigiar o próximo mais que a nós mesmos.

Cronista: de todos os tipos de escritor, o que mais depende da gentileza de estranhos.

Curitibano: cidadão cosmopolita indoors.

 

D

 

Destino: gato de rua, hidrófobo, que teimamos em galopar.

Deus: molde original do homem; logo após o uso, foi quebrado pela cópia.

Diabo: o funcionário mais inventivo de Deus, introdutor de grandes sucessos mundanos, como o carro de som, o cachimbo de crack, as botas pata-de-bode e os cargos de gerência.

Dinheiro: 1 abstração fantástica, paixão impossível de administrar. De todas as nossas criações, é a mais mimada. Quanto mais atenção damos a ele, mais ele nos desvaloriza. Como as flores, murcha logo após ser colhido 2 principal motivador dos crimes passionais.

 

 

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