Pinóquio na Tiradentes

Pinoquio

Imagem: Eduardo Aguiar

Se alguém o traz até aqui, no colo ou numa caixa, dia sim, dia não, ignoro. Como faz para ir embora, também não sei, apenas suponho que não passe a noite sozinho na Tiradentes, exposto ao sereno e à violência. Ele parece, aliás, estranhamente saudável, descansado, limpo. Sempre que o encontro na praça, já está acomodado em seu banco favorito, perto do marco zero.

É como se um ventríloquo o tivesse esquecido ou abandonado ali. Imagino o homem parando para engraxar os sapatos. Pensou na vida ao contar as poucas moedas, quantas festas infantis ainda suportaria, quantos programas de calouros, e de repente decidiu mudar tudo. Deixou para trás o seu velho e querido boneco, aquelas perninhas condenadas, imóveis e pendentes, um pedacinho de pau à espera do sopro de um novo deus. Tão parecido com a gente.

Não, não se trata de um anão, somente é miúdo. Tem uns setenta anos, ou bem mais que isso. Impressiona pelo paletozinho impecável, xadrez, as botinhas de brinquedo e os olhos azuis, tão abertos e tão claros, olhos de fonte jorrando da pedra, aquela transparência de água mineral engarrafada. Senta-se na ponta direita do banco, não falha, nunca muda de posição, o queixo colado à ombreira direita, as mãos de criança sobre as coxas e as calças de lã, mal segurando a sua bengalinha, único indício de que é vivo, é um de nós, é capaz de caminhar.

Em geral não se move. Pelo menos até conseguir companhia. Porque é só um desavisado ocupar o espaço à sua esquerda, estacionar no banco para um cochilo de cinco minutos no meio da tarde corrida, para que o calor ou a miséria do intruso, tanto faz, acionem no velho alguma engrenagem oculta. Algo dentro dele desperta, ele todo é uma máquina que acorda, movida a esperanças e outros vapores, quem está aí? Sua cabeça perfeita, redonda, de cabelos brancos penteados com gel, gira sobre o pescoço fino, cento e oitenta graus vencidos lentamente, as vértebras estalando, tique-taque, tique-taque, e a boca do boneco enfim se abrindo para falar, ouçam.

Só vemos os seus dentes de baixo. Seus dentes e a língua vívida da criaturinha, uma língua vermelho-morango e sem dúvida jovem, o mais ameaçador dos músculos. É com ela que o homem empreende a sua conversa, fala, fala e dificilmente escuta, deve ter tímpanos de peroba ou imbuia, gosta mesmo é de falar, só falar, e surpreende ou mesmo encanta os caras que o ouvem, primeiro espantados com o fenômeno da madeira falante, animada, e depois, talvez, com o teor de seu discurso.

De tanto vê-lo conversando, um dia caí em tentação, quis escutá-lo. Imprudente, decidi me sentar também ao seu lado, eu à sua esquerda, na imatura intenção de provocar o velho Pinóquio, sei lá, vai que o homenzinho é também uma espécie de oráculo, um gênio roído de cupins? Vai que, brincando, ele dá um jeito em meu futuro, me abre os caminhos, me sugere o tema da crônica da semana que vem? Já seria lucro dos grandes.

Sua reação a mim foi rápida, imediata. Girou o rosto envernizado em minha direção, os cílios curvos subindo e descendo devagar, o nariz pontudo lembrando um relógio de sol, a pele enrugada levemente enrubescida, e, sem qualquer saudação, foi logo me perguntando:

— Gostas de moças bonitas?

Pego no susto, não entendi direito, oi? Ele se irritou, repetiu a pergunta numa ênfase impaciente, diz, diz de uma vez, gostas ou não gostas? Eu disse que gostava, é claro que gosto, e ele apontou com o queixo para um outro banco, bem perto do nosso, onde descansava um mulher de meia-idade, as pernas grossas e cruzadas, corajosamente vestida de azul para os mais sagrados rituais do amor e da beleza, apesar de, verdade seja dita, não ser nada bonita.

— Se gostas, o teu banco é aquele, e não este.

Continuei sem entender, e ele me incentivou, vá, vá lá e depois tu me dizes, e depois tu me contas, vá lá e me conte tudo, vá.

Pensei na crônica por escrever e achei que já tinha assunto o suficiente. Me levantei, dei boa tarde ao amigo, o senhor passe bem, obrigado, e o larguei em seu banquinho, bem morto, como de costume, embora o nariz ereto ainda crescesse, e ele se mantivesse na eterna expectativa da próxima ressurreição, coitado, tão pequenino, tão parecidinho com a gente.

Depois disso, é claro, tudo o que me restava era vir até aqui e contar tudo. Foi o que fiz. Sou grato ao velho boneco da Tiradentes, que me deu uma história e a quem, reconheço, fiquei devendo uma narrativa mais realista, um relato mais caloroso, uma ficção mais verdadeira, uma visita ao amor e à beleza.

 

Pinoquio2

Imagem: Eduardo Aguiar

Anúncios

2 comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s