Beiradeiros

Ivo 1

Imagem: Eduardo Aguiar

O rastro de pétalas, volumoso, ia da Saldanha Marinho, ali na esquina com a Voluntários, até as primeiras quadras da Fernando Moreira. Era sexta-feira cedo, e eu, vagabundeando, decidi variar e seguir a trilha das rosas, desfazer a trama daquele tapete à toa, tecido na madrugada, até vê-lo despencar no canal do Ivo. Equilibrado na borda de pedra do rio urbano, tive que prender a respiração, um cheiro de praia em alta temporada, só que sem sol nem oceano. E o que vi, é pena, foi um filete de água imóvel, três punhados de flores e tudo represado.

Já é tão de manhã, pensei, o povo do Campina do Siqueira lotando os expressos a caminho do trabalho, e o Ivo ainda adormecido, preguiçoso. Um rio às vezes se cansa, a gente sabe, e é justo que durma até mais tarde. Mas pobre de quem entregou a ele as suas oferendas, o mar nunca chegará a devorá-las, e nem os santos aqui do esgoto, que desperdício de feitiços e providências, natureza e sobrenatureza, ambas fracassadas, insatisfeitas.

Não sei, só os chorões às margens do canal é que devem saber o que acontece com o Ivo. Morrer, não morreu, água sempre tem, e nunca soube que descesse todo para os lados da serra, jamais se deixou tragar pelo chão de Curitiba. Mas ultimamente tem dormido demais. Naquela sexta, por exemplo, uma pobreza, aquela liquidez encabulada, que vergonha, um rio que é quase uma desistência.

Segui a pé mais duas quadras, acompanhando o seu leito estagnado, uma estradinha de lixo e lama, ripas e cacos de tijolo. Mas não só isso. Lá embaixo, era aquele monte de gente acocorada, seis ou sete pessoas à vista, talvez mais, e dois ou três cachimbos acesos, passando de mão em mão, de lá pra cá, fogo vivo cruzando um curso de rio quase seco, mau sinal, de tempos ruins.

Novidade não era. É comum ver por ali essa gente que, no susto, emerge do rio feito seres fantásticos e falidos, trapo sobre trapo, os ossos luminosos debaixo da pele fina, descamando-se, os beiradeiros escalando manilhas e paralelepípedos, escorando-se nas árvores, zumbis d’água, coisa normal.

Naquele dia, entretanto, quando os vi, aquela meia dúzia de criaturas anfíbias, tive outra impressão. Lembrei do que me contava um velho avô: quando um rio dorme, seus afogados se levantam lá do fundo, eles se desvencilham do lodo e vêm passear entre nós. Mas antigamente os rios dormiam apenas à meia-noite, um sono de meio minuto, no máximo, o suficiente para os tristes matarem a saudade do oxigênio e das luzes, mandarem um beijo à noite estrelada. Hoje, sei lá, a gente convive com o fantástico.

Prossegui, rio acima, e no cruzamento do Ivo com a Visconde do Rio Branco, encontrei um casal, acho que de namorados, nem vinte anos cada um, o rapaz içando a moça de uma barranca artificial. Nos olhos da dupla, quatro chamas meio mortas, e aquela brasa já carente de sopro, um olhar que amanhã será de cinza. Saíram navegando tortos pelo asfalto, sorte não passar na hora um biarticulado, os dois sem bússola nem relógio, não sabendo para que lado cair e, cegos, vindo para cima de mim.

Discutiam algum problema pessoal, só que não falavam nem se ouviam, comunicavam-se por gestos bruscos, numa variação exaltada de certa linguagem dos sinais, palavras feitas de punhos, frases que logo viraram toques, tapas, empurrões, grosseria. Brigaram, acredito que um com a sombra do outro. A moça tropeçou para trás, era muito leve, tão desprotegida de si mesma, e assustada se lançou de volta ao rio. Antes de saltar, deu comigo à sua frente e me mostrou os caninos, já chorando, uma menina selvagem, os dentes ainda bons. Mal pisou no leito do Ivo, foi correndo se meter num dos seus túneis, sob a rua. Sem muita pressa, o rapaz a seguiu. Passou por mim evitando me encarar e pulou atrás dela, caiu e fez um rolamento, e depois sumiu com a namorada, no breu do rio subterrâneo.

Fiquei ali, quieto, dez segundos, quinze, sei lá, um minuto, investigando o escuro onde se enfiaram, à espera de uma faísca, a visão de um isqueiro se acendendo lá dentro, uma tragada a iluminar as paredes daquela caverna. E de repente não uma luz, mas um movimento. O fiozinho de água parada começou a se mexer, uma cobrinha parda ganhando musculatura, engrossando, levando consigo, e quem sabe até o mar, o seu precioso carregamento de cascas de frutas, panfletos eróticos, preservativos usados, pétalas atoladas.

O rio acordou, pensei. Sim, devia estar chovendo em alguma cabeceira, porque o Ivo acordou, e já era tempo, acorda, Ivo, maldito riozinho de água salgada, acorda e chora.

Ivo 2

Imagem: Eduardo Aguiar

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2 comentários

  1. … fui acompanhando o trajeto, sentindo os inesperados e junto com o desejo desejado para o Ivo … eu quase me derramei com o impacto dos encontros e também dos desencontros! Engrossaria aquele volume, talvez! Uma molhadura nunca é insignificante, não é? Sempre me demoro por aqui! Sempre leio mais de uma vez!

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