O torcedor

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Imagem: Eduardo Aguiar

Na ponta de lá da faixa de segurança, numa esquina da Praça Tiradentes, o Marechal Floriano enferruja em seu chapéu bicorne. Dá uma pena dele, tão duro naquele traje de gala, as botas sem brilho nenhum e a espada morta, para sempre condenada à bainha. Já na extremidade de cá da faixa, do lado oposto da rua, o herói é outro. Ainda vive e, quem sabe, poderá um dia ser temido e amado, liderar algum exército, redefinir nossos conceitos furados de glória e derrota. Porque, protegido da garoa, debaixo deste ponto do Marechal Hermes, bem em frente à banca Triângulo, respira e resplandece o grande velho cor-de-rosa.

De boné, japona de náilon, calça de malha, chinelos de dedo e óculos escuros, ele também é um monumento, um tributo a si mesmo. Raro encontrá-lo ali, deve ser a terceira ou quarta vez que o vejo na vida, no máximo, mas se trata, sem dúvida, de uma presença impressionante. Escorado numa coluna invisível de tempo, imóvel e eterno, o velho chia, estala e sibila sem parar, ruidoso, os braços longos e cruzados abraçando os ombros, como se sentisse os ossos congelando e partindo, ou tivesse medo de escapar do próprio corpo.

Mas não, não é sua alma o objeto da sua vigilância, sei que não. Olho para ele, postado diante daquela inútil faixa de segurança, um sorriso de caveira no asfalto, o sinal luminoso de pedestres passando do vermelho ao verde, do verde ao vermelho, as pessoas de lá para cá e vice-versa, sem descanso e sem cuidado, ouço as freadas e os xingamentos e as buzinas, e só consigo pensar num daqueles míticos guardiões de pontes sagradas, intransponíveis. Sim, o velho cor-de-rosa é mais ou menos isto, um guardião negligenciado, a quem ninguém nunca ouve ou consulta, alguém que tem uma pergunta-chave a nos fazer, mas que não tem a oportunidade de fazê-la, não tem os nossos ouvidos.

Ou melhor, os meus ele tem. Curioso, já me aproximei dele, fingindo esperar o ônibus, apenas para escutá-lo falar. E me espantei. Ele semeava no ar o seu punhadinho de palavras curtas, pega, pega, mata, pega, mata, ordens mastigadas, tristes imperativos sussurrados, morre, vai, mata, morre, agora, vai, vai, agora.

Mas pega o quê, vai aonde, mata quem, morre como? Para entendê-lo, somei a recitação do velho às cenas de trânsito que ele parecia narrar. O sinal abria e fechava, abria e fechava, as pernas do menino de luz se abriam e fechavam, verde, vermelho, não tinha importância, que diferença faziam as cores? O povo não parava, atravessava a rua sem temor, mal olhava para os lados, somente se atirava entre os automóveis, eram peixes na correnteza, peixes saltando entre pedras pontudas, tirando finas dos ônibus, beijando as motos, acariciando os táxis, uma piracema de loucos inconsequentes e o velho cor-de-rosa lá torcendo, torcendo, vai, mata, morre agora, dizia ele, exatamente como continua a dizer hoje, morram, torcendo pelo atropelamento geral.

Ah, é a senhora com as sacolas plásticas, é o jovem na cadeira de rodas, a mãe com seu bebê de colo e a sombrinha virada pelo avesso, um morcego lilás arregaçado pela ventania, e os filhos pequenos ao seu redor, chorando e correndo, olha o carro, e é o aleijado de muletas, o palhaço em pernas de pau, os mendigos bonitos na catedral gótica e o grande velho lá, torcendo e rezando, morre, pega, agora é, agora vai, é hoje, hoje o fim do estudante e dos seus fones de ouvido, hoje o fim da secretária fumante e o adeus da diarista cansada, é hoje o engraxate arrastado pela van dos turistas e o pedinte no para-brisa, ainda enrolado em seu cobertor, é hoje o verdureiro colhido pelo motoboy, hoje as folhas de alface lavadas pela chuva, hoje os tomates no meio-fio, o sangue dos homens e das frutas no bueiro, hoje, tem que ser hoje, só pode ser hoje.

O velho é um torcedor, é isso. Torce pela morte e pelo acidente, pela dor ou pelo alívio, não sei se movido por ódio ou desprezo, e talvez até sinta prazer em sua torcida macabra, sei lá, só sei que este é um velho grande e cor-de-rosa, que usa boné e japona de náilon e chinelos de dedo, e sei que sua barba está sempre crescendo, mas nunca está realmente crescida, e que ele está sempre de óculos de sol, mesmo em tardes chuvosas como esta, e que está sempre abraçado ao próprio corpo, como se quisesse impedir a fuga de sua alma ou a entrada da nossa nele.

Mas não é só isso, há mais. Há um detalhe que só agora percebo e que, no fim das contas, vem a ser o acessório principal deste personagem. É uma bengala, vejam, uma bengala escondida, presa por um elástico a uma de suas mãos vermelhas, graúdas, uma bengala dobrável, retrátil, de alumínio, acomodada debaixo de seu sovaco. Sim, só agora eu percebo, o torcedor está no escuro, vai, mata, morre, é o único na arquibancada de seus desejos, seu jogo acontece em outra dimensão, obedece a regras bem mais íntimas, talvez insondáveis, e é dentro dele, só lá dentro, que suas bandeiras estão sendo agitadas. Se ele reage ao que escuta e pressente à sua volta, ou ao que enxerga e resgata no fundo do poço de si mesmo, é algo que prefiro não saber, nem imaginar, nem perguntar a ele.

Pelo menos não hoje, hoje não perguntarei. Prefiro arriscar, pagar para ver, atravessar a rua, venham comigo, vamos juntos, vamos, é a nossa chance, é hoje, e hoje é tudo o que temos.

 

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