Esportes curitibanos

Perseguição

Imagem: Eduardo Aguiar

(1) Aproveitar-se da eficiência de nosso transporte coletivo para, pagando apenas uma passagem, perseguir mulheres por toda a cidade.

(2) Especializar-se no desvio de olhares.

(3) Praticar a invisibilidade nos elevadores.

(4) Eximir-se de fornecer informações ao próximo.

(5) Garimpar amor e beleza em prostitutas e travestis de gorro e meias de lã.

(6) Em terminais de ônibus, promover celebrações tão intensas que, noutras cidades, seriam tidas por quebra-quebras.

(7) Aperfeiçoar a passividade ao ouvir, da cama, gritos noturnos de socorro.

(8) Manter gelada a temperatura do sangue ao ignorar o cumprimento de amigos e conhecidos.

(9) Testar os limites de sua fé e tolerância em meio ao engarrafamento causado pela Novena Perpétua.

(10) Cumprir e honrar todas as suas obrigações domésticas e conjugais enrolado em um ou mais cobertores.

(11) Nas manhãs de geada, marchar impassível por entre fileiras de mendigos cristalizados.

(12) Organizar-se em filas e, quando nelas, elaborar, à guisa de passatempo, pesadas fantasias sexuais ou de destruição.

Girafas

Imagem: Eduardo Aguiar

(13) Dedicar suas melhores noites ao desbravamento de farmácias.

(14) Em cafés e restaurantes, espalhar-se pelas mesas de modo a se sentar sempre no ponto cego de seus conhecidos.

(15) Acreditar-se branco e, de alguma forma, europeu.

(16) No inverno, se possível, resguardar o coração da geada e do emboloramento geral das coisas.

(17) Simular conversas dramáticas ao celular para evitar a abordagem de vizinhos, parentes e conhecidos em lugares públicos.

(18) Nas madrugadas de julho, desafiar a morte por hipotermia ao encher a cara em bares abertos ou ao ar livre.

Triângulo

Imagem: Eduardo Aguiar

(19) Involuir no trânsito.

(20) Sofrer sentado e aplaudir de pé.

(21) Cultivar a dignidade ao enceroular-se.

(22) Rezar contra.

(23) Exercitar o meio-sorriso, mudo, como resposta a qualquer comentário feito em salas de espera ou pontos de ônibus.

(24) Preservar-se para o post-mortem.

Sol na xv

Imagem: Eduardo Aguiar

(25) Dotar a cidade de uma consciência individual e, ao menor sinal de fracasso, culpá-la por nossas derrotas.

(26) Reservar suas melhores roupas de baixo para a atenta apreciação das juntas médicas, em consultas ou internamentos.

(27) Jamais vestir-se sem antes sondar, no avesso das roupas e no breu dos sapatos, a possibilidade da morte em forma de aranha-marrom.

(28): Ser um descendente.

(29) Posar de elo entre a tradição cristã europeia e um futuro humanista cosmopolita.

(30) Ronronar ao frisson dos pesadelos molhados.

(31) Ao despir-se em seu quarto, nunca esquecer de chavear a porta e escancarar as cortinas.

(32) Jamais receber sem convidar, visitar sem ser convidado, convidar quem não convida, frequentar quem recebe demais.

(33) Ter orgulho de ter vergonha e, ao se orgulhar, envergonhar-se.

(34) Aproveitar a ceifa das temporadas de gripe para, sem chamar a atenção, morrer de infames causas ocultas.

(35) Dar-se ao contato físico com multidões excitadas somente durante eventos como a Romaria de N. Sra. de Guadalupe e o Natal do HSBC.

(36) Pousar em casa alheia só em casos extremos, envolvendo risco de sexo, coma alcoólico e morte por congelamento.

(37) Patinar em gelo de shopping e esquiar em neves passadas.

(38) No carnaval, pular ao lado da lei e com ânimo regressivo, na esperança de evitar reações contrárias e progressivas.

(39) Invejar secretamente o despudor e a beleza de nossos governantes, ao encontrá-los seminus e sarados em fotos na internet.

(40) Classificar as coisas do mundo a partir de dois conceitos básicos: “uma bosta” ou “tesão pra caralho”.

Chuva

Imagem: Eduardo Aguiar

(41) Contar as manchas de bolor no forro sobre a cama como se fossem as nebulosas de uma noite de verão.

(42) Bola nas costas.

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5 comentários

  1. Uau! Como pode resgatar tantas essências e expressá-las embrulhadas em fios valiosos de ironia e papeis tão transparentes que chegam a espelhar? Tem tantas pérolas … mas guardo uma que me acompanhará pela eternidade. Especialmente no terreno artístico da “cena” esta prática esportiva curitibana está sendo tão mimetizada que beira a alienação. Pra mim .. ” 20 – Sofrer sentado e aplaudir de pé” . Bravo … bravíssimo!

  2. Fantásticos, o texto e as fotos.
    E se me permite entrar nesta roda:
    43- Identificar-se com praticamente todos os 42 acima e não ter nenhuma vergonha de afirmar isso em público. 😉

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