Sambas eruditos

Paulo Vanzolini Por Ele Mesmo

Não é de hoje que o professor e tradutor Christian Schwartz é louco pelo Paulo Vanzolini. Paixão antiga. Mas só há duas semanas ele conseguiu estrear, no Teatro Paiol, em Curitiba, o espetáculo musical Samba erudito, com o Trio Quintina. É um projeto que o Christian já vinha elaborando faz tempo, um grande tributo ao Vanzolini (morto no ano passado), mas, como diz o seu próprio idealizador, “com cara de sarau literário”.

Samba erudito tem direção cênica do Márcio Abreu e da Nadja Naira. Além do pessoal do Trio Quintina, o show conta com as participações da cantora Virgínia Rosa, do baterista Luís Rolim, do violeiro Leandro Delmonico. E do Christian, claro, que assina o roteiro do espetáculo, e também canta, toca baixo e atua como uma espécie de mestre de cerimônias da noite, encaixando aqui e ali algumas referências a outros bambas de sua predileção, como Lou Reed e Dalton Trevisan.

Pois foi falando com o Christian a respeito desse show que lembrei de uma conversa que tive com o próprio Paulo Vanzolini, em janeiro de 2003. Na época eu era repórter da Gazeta do Povo e ele lançava a monumental caixa Acerto de contas, que reunia em quatro CDs quase todas as suas composições.

Abaixo, aproveito para reproduzir alguns trechos desse encontro, coisas que resgatei aqui, no meu velho arquivo. É mais um diálogo do que uma entrevista (o cara odiava entrevistas).

•••

— Você e o Adoniran são sempre citados como os maiores cronistas populares daquela São Paulo que, nos anos 50, se tornava uma megalópole. Você imaginava que seria lembrado por isso?

— Nunca. Minha intenção era fazer música dentro da minha roda de amigos. Não tinha intenções artísticas nem sociais. Depois, a coisa extravasou. O Adoniran, inclusive, era muito meu amigo.

Ele foi uma celebridade da época, enquanto você sempre fugiu da mídia, se dizendo mais zoólogo do que músico. Por quê?

— Eu não sou mais zoólogo do que músico. Sou apenas zoólogo. Música, para mim, era só um hobby.

Mas não há nada em sua obra que você considere importante?

— Importante, não. São apenas coisas que fiz para me divertir. Minhas músicas, na verdade, ficaram escondidas por muito tempo. O que calhou foi que, um dia, a Inezita Barroso precisava gravar um lado B para “Moda da pinga” e, por acaso, gravou “Ronda”. Foi aí que começou. Mas nunca desejei construir uma carreira musical. E nem quero.

É verdade que a Inezita não quis gravar “Volta por cima”?

— É lenda. Um dia, encontrei a Inezita e ela perguntou: “Tem feito alguma coisa nova?”. Eu disse: “Tenho”. E ela: “O que é?”. E cantei “Volta por cima”. Ela disse: “É muito bom. Mas não é comercial”.

— E “Ronda”? Você a compôs quando estava no Exército? Como é que foi?

— Sim, foi em 1945. Aconteceu a partir de uma série de experiências que foram se acumulando. Porque não existe essa coisa de um “fato que desencadeia uma música”. Isso é romantismo de repórter. Falam demais. Não existe uma situação ou um fato. Acontece que, quando você tem vontade de fazer uma música, olha para os lados, procura um tema e vai fazendo. Quanto a tal “cena de sangue”, tinha cena todo dia.

Mas é verdade que você não gosta dessa música?

— Ela é muito piegas. Eu tinha só 20 anos. Mas o povo gostou…

Sobre a caixa de CDs, você participou da escolha do repertório?

— Não, porque eles escolheram todas as minhas músicas.

— Mas você não compôs só 52 músicas. Tinha outras.

— Umas três ou quatro que ficaram perdidas.

— Por quê?

— Porque eu não lembro mais delas.

(Perguntei por que o Toquinho e o Noite Ilustrada não participavam da caixa, mas ele não quis comentar. Passamos a falar das cantoras, algo que o animava)

— A melhor intérprete para suas músicas é mesmo Cristina Buarque?

— Há diversas. Cada uma tem o seu gênero. A Cristina, a Márcia, a Ana Bernardo, a Virgínia Rosa. Mas eu conheço a Cristininha desde que ela nasceu. E é uma grande cantora mesmo. Um dia, o Cartola me telefonou só para dizer: “Você tem razão, Paulo. A Cristina é uma cantora para o compositor, não é uma cantora para o povão. Ela entende o que o compositor quer”. E é perfeita. Tem muita cultura. Você não pode comparar a Cristininha com a Aracy de Almeida, por exemplo, que veio de um subúrbio do Rio.

— Mas você não gostava da Aracy?

— A Aracy era um tipo. Quando a coisa dava certo para o seu tipo, ela era grande. Se não desse, era um desastre.

— Como foi trabalhar com ela na TV Record?

— Eu estava precisando de dinheiro. Fui contratado para produzir a Aracy porque ninguém queria trabalhar com ela. Era uma boa pessoa, mas tinha uma psicologia complicada. Era uma protestante que caiu na boemia. Mas eu gostava muito dela. Era simplesmente uma moça de subúrbio carioca. E as mulheres, naquele tempo, sofriam muito. Eram muito exploradas. Tinha uma turma de homens inteligentes no ambiente artístico que… A Isaura Garcia, por exemplo, foi muito explorada pelos homens. Explorada sentimentalmente.

— E a Aracy se protegia disso?

— Sim. Ela aprendeu a cantar em um coro protestante!

(Mais adiante, uma pergunta entusiasmou o Vanzolini)

— E a participação dos seus velhos parceiros em Acerto de contas?

— O Paulinho Nogueira (violonista) cantou no meu disco! Quando eu o convidei, ele fez uma exigência: “Quero o Izaías (bandolinista)”. Eu falei: “Já está no disco”. Os dois tocando juntos no show de lançamento foi a coisa mais bonita que eu já vi na minha vida. São dois gênios.

— Depois de ver esse show, você não sentiu vontade de voltar a compor?

— Não. Pelo contrário. Considerei o episódio encerrado.

Como é que você compunha?

— Eu não compunha. Nem sei tocar violão. Não toco nada. Não sei nem a diferença entre um tom maior e um tom menor. Fazia as músicas dentro da minha cabeça. Não tem harmonia nem nada. É tudo muito fácil. Não tem um grande valor artístico.

(Terminada a entrevista, lembro que o Vanzolini se sentiu aliviado e puxou um assunto que o interessava. Disse que queria falar de sua família e da ligação dela com o Paraná. Pediu que eu perguntasse a respeito. Obedeci, é claro.)

— Qual a história de sua família no Paraná?

— Ela veio da Itália para o Paraná em 1870, em navio de vela. Meu bisavô era um anarquista, dono da Fazenda Palmeira, que depois virou a Colônia Cecília. Eu só não sou anarquista porque não tive tempo de estudar o anarquismo. Mas meu bisavô, o doutor Giuseppe Franco Grillo, era também um grande coletor de História Natural. Ele colecionava para o Museu de Gênova. Convivo muito com a sua memória. Todo dia encontro o rastro dele na literatura científica.

•••

Uma última lembrança: sei que o Christian também é um grande leitor do Carlos Heitor Cony. Por isso me veio à cabeça a epígrafe daquele seu romance, Pilatos: “E assim me rendi ante a força dos fatos:/ Lavei minhas mãos como Pôncio Pilatos”. Os últimos versos de “Samba erudito”, do Vanzolini. Legal, está todo mundo ligado.

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