Caem os panos

Imagem: Fernanda Fiamoncini

Acaba de sair a segunda edição da revista Mapa. Nela, publico um longo texto sobre o romance O sonâmbulo amador, de José Luiz Passos. Mais que uma resenha, é uma impressão, ou uma proposta, de leitura. Li esse livro como quem desfia um tecido caro. Abaixo, vão os primeiros parágrafos. Para ler tudo, é só escrever para a revista Mapa (mapa@arteeletra.com.br), mandar seu endereço e esperar. Você vai receber a publicação em casa, gratuitamente.

Em seu romance O sonâmbulo amador, o pernambucano José Luiz Passos me convidou a um labirinto escuro. Aceitei a proposta e lá encontrei o espectro de Jurandir, um narrador que me pareceu já estar morto, mas sem o saber. Era como se os quatro cadernos que compõem o volume — um duro, mas doce acerto de contas do protagonista com a sua vida — tivessem sido psicografados pelo autor. O resultado é a obra de um fantasma que ainda não se livrou do corpo de suas dores. Um homem que morreu, mas insiste em caminhar. Uma assombração cuja memória não nos quer dormindo.

Se a interpretação soa disparatada é porque nem mesmo eu creio nela, não literalmente. Apenas gosto da ideia. E já começo a desfiá-la a partir da última frase do livro, em que Jurandir deseja a todos os leitores “uma boa entrada nesta nossa longa e maravilhosa noite”. Notem que se trata de um desejo contrário àquele de Dylan Thomas, defunto tão jovem, que nos instava a espernear antes de sucumbir à morte: “Do not go gentle into that good night”. Pois que este verso, agora, nos sirva de fio de Ariadne.

Se a “morte” de Jurandir é simbólica ou não (e acho que é), não importa. Esse não é um romance frágil ou linear, de que pode dar conta uma simples sinopse. Sua história, mal resumida, ficaria assim: um velho funcionário da indústria têxtil de Pernambuco, às portas da aposentadoria, vive uma longa crise no casamento com Heloísa — agravada pela morte de seu filho único, André, num desastre de moto — e mantém um caso com uma colega de trabalho mais moça, Minie. Um dia, Jurandir vai de sua cidade, no interior do estado, ao Recife, tratar de uma questão trabalhista. No caminho, acometido por um surto, incendeia o carro da firma e é levado a uma clínica psiquiátrica em Olinda. Lá, seu médico, o doutor Ênio, pede a ele que registre seus sonhos, suas lembranças e seu cotidiano por escrito.

É esse registro que lemos. E é como terapia que o paciente produz seus textos, mas de um modo objetivo e disciplinado, feito sua empresa a fabricar tecidos. Aliás, aqui é bom emendar: têxtil e texto têm a mesma raiz latina, e daí o precioso enredamento desse romance complexo sobre o luto e outras perdas.

Não, não pretendo jogar luzes sobre a obra de Passos. Quem se debruça sobre um livro o cobre com a própria sombra. Assim, de pronto, me compliquei ao pensar em Shakespeare. Um romance que fala de sono, morte e sonho me remete automaticamente ao monólogo de Hamlet: “Morrer, dormir, dormir, talvez sonhar”. Mas a primeira grande referência ao bardo em O sonâmbulo amador vem mesmo de Otelo. É uma cena surpreendente, na página 56, em que Jurandir (ou Passos) reproduz textualmente uma fala do personagem-título shakespeariano, que busca seduzir Desdêmona ao narrar suas aventuras ao futuro sogro, o senador Brabâncio.

SonâmbuloLeia mais na revista Mapa.

[O sonâmbulo amador, José Luiz Passos, Alfaguara, 270 págs.]

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